A Metal Hammer Portugal conversou com Morten Shax, vocalista dos Endezzma, que nos fala sobre o conceito do novo álbum, a... Endezzma: «Tens de mergulhar na nossa escuridão e sentir o que sentimos»
Foto: Ibe Hoel / Irene Serrano

O ano de 2021 começou bem nos territórios do black metal com “The Archer, Fjord and the Thunder”, o novo álbum dos Endezzma cuja carreira de cerca de 15 anos esconde um historial mais profundo que remonta a 1993 e aos Dim Nagel.
A Metal Hammer Portugal conversou com o vocalista Morten Shax que nos fala sobre o conceito do novo álbum, a filosofia lírica que sustenta a sua singularidade e o passado turbulento vivido na Noruega na primeira metade dos anos 90.

«Nunca escrevemos histórias de terror sobre sacrifícios de cabras e violação de prostitutas virgens. O universo lírico de Endezzma sempre foi baseado na experiência da escuridão e nos desafios cósmicos de se estar vivo.»

Morten Shax

Em primeiro lugar, deixa-nos dizer que o título “The Archer, Fjord and the Thunder” soa bastante épico. Podes explicar esses três elementos?
Juntamente com o visual da capa, o título tenta pintar uma imagem mais precisa e detalhada quanto possível na mente de quem ouve. O arqueiro, o fiorde e o trovão são três palavras-chave essenciais na agenda filosófica do álbum. O arqueiro é o mago principal, o fiorde é a passagem e o trovão manifesta o fogo e a energia deste grande épico e mítico mundo de escuridão estelar. É uma espécie de álbum conceptual, uma vez que toda a temática é construída à volta da mesma filosofia, que é visualizada através das palavras-chave e elementos mencionados acima. Já escrevemos muito sobre a morte e o seu significado com base em como vives, como te apresentas e como é a nossa escuridão interior. Através da temática filosófica do álbum, criamos certos personagens e colocamo-los numa certa paisagem e cenário mítico. Há muita energia falante e um enorme simbolismo no qual convidamos a mergulharem. É como poesia, cada pessoa terá uma reacção diferente depois de ler e ouvir – isso é arte e como deves compreender arte. O mundo filosófico que tem sido a plataforma para “The Archer, Fjord and the Thunder” é basicamente o início de uma imagem maior ou de um conceito maior. No próximo álbum poderão acompanhar os personagens e um enredo ainda mais aprofundado.

O som cru dos riffs gelados e vozes afligidas misturam-se com um certa elegância quando as partes melódicas e a bateria dinâmica surgem na frente. Isso cria um resultado épico, preenche a lacuna entre o hino sombrio e a agressão primitiva. Quão importante é, em particular para o som final dos Endezzma, misturar componentes tão diferentes?
Quando se trata do som em si, isso é uma questão complexa para se chegar ao ponto em que todos esses componentes e factores se combinam perfeitamente. É particularmente difícil combinar elegância com agressão primitiva, mas isso é também o que torna o processo tão desafiador e intrincado. O som final é essencial e muito importante para nós. Queremos trazer elementos como atmosfera e elegância para a mistura, mas, no final do dia, o nosso foco absoluto passa por manter a energia e a intensidade num nível alto. Tens de suar, e ouvir um álbum de Endezzma é algo tenso. Fazemos o que fazemos com uma devoção apaixonada e quem ouve deve captar essa onda e energia através do altifalante.

Nos últimos 10 anos, o black metal tem vivido uma revolução no seu som, mas principalmente ao nível conceptual à medida que o caos, a destruição e o ódio total dão lugar a pensamentos mais existenciais para se explorar o que somos, de onde vimos e para onde vamos enquanto homens e mulheres. Incorporas esses elementos nos vossos conceitos?
Esses elementos têm sido fundamentais nas letras de Endezzma desde o primeiro dia. Nunca escrevemos histórias de terror sobre sacrifícios de cabras e violação de prostitutas virgens. O universo lírico de Endezzma sempre foi baseado na experiência da escuridão e nos desafios cósmicos de se estar vivo. No último álbum tecemos esse elemento para ser apresentado por alguns personagens e enredo. A razão para isso passa por pintar um mundo visual energético para que os ouvintes possam mergulhar mais profundamente na nossa escuridão e sentir o que sentimos e visualizar o que queremos expressar. Não é nossa tarefa ou missão revolucionar ou manter vivos os velhos padrões do black metal. Fazemos exactamente o que nos convém e o que desejamos. Os outros podem descrever-nos ou categorizar-nos como quiserem. Nós fazemos o nosso próprio caminho sem importar o nome que se dá a esse caminho!

«Não é nossa tarefa ou missão revolucionar ou manter vivos os velhos padrões do black metal. Fazemos exactamente o que nos convém e o que desejamos.»

Morten Shax

Os Endezzma surgiram das cinzas de Dim Nagel. Voltando aos anos 1990, como viveste aquela turbulência vinda de Oslo e Bergen entre 1991 e 1994?
Em primeiro lugar, não me referiria a esse período apenas como conturbado, mas como um tempo único, fascinante e perigoso. Naquela altura, era muito sobre revolta contra padrões, estilos musicais e tradições já estabelecidas, mas também, e à parte do aspecto musical, uma revolta contra a sociedade e o sistema. No início havia muitas semelhanças com revoluções musicais históricas e protestos da juventude, só que esse protesto foi tão radical e sinistro que rapidamente tomou uma direcção bastante destrutiva. Mas não acho que tenham sido apenas as igrejas a serem incendiadas – corações e ideias também ardiam, e uma chama que arde e arderá durante séculos foi acesa, uma direcção musical e ideias que inspiram músicos e fãs hoje em dia. Não acho que muito tenha mudado, as pessoas estão apenas a ficar mais velhas e mais sábias, a idade média da cena já não tem 17 anos como naquela altura. É óbvio que a cena ganhou uma abordagem e um ângulo mais maduros. Por detrás disso, acho que a mentalidade e o desejo são os mesmos. A cena, que foi iniciada por alguns indivíduos fortes e criativos, ainda hoje mantém essa personalidade e atrai tais pessoas.

Hønefoss, de onde és, é uma cidade pequena, mas é a casa de várias bandas, como Kvist, Urgehal, Vulture Lord, Wobbler, Angst Skvadron e Beastcraft. Existe alguma explicação em particular sobre essa explosão de bandas black metal?
Há alguns álbuns clássicos criados e lançados por almas e mentes criativas vindas de Hønefoss, estás certo quanto a essa conclusão. São várias bandas diferentes, mas muitos dos mesmos músicos comprometeram-se com muitas dessas mesmas bandas. Acho que talvez tenhas 10 pessoas divididas em todas essas bandas. Havia uma onda única e criativa na cidade naquela altura, isso é certo. Havia muitos indivíduos devotados que tinham uma visão forte sobre o que era o fundamento de uma banda e isso praticamente acabou com muitos projectos a terem um cérebro que era ajudado pelos amigos locais e músicos de outras bandas. Porquê ir mais longe à procura de músicos quando os tens no teu círculo íntimo? Com o tempo, as bandas ficaram maiores e mais activas, portanto era natural que novas forças criativas fossem adicionadas à formação. Mas sim, muitas bandas douradas nasceram em Hønefoss.