Num ano que não será apagado da memória, tiramos o melhor do pior a partir dos melhores discos que já saíram e dos que... 2020: o ano que não foi, mas é

«Precisas de comida, luz e aquecimento, mas o que nos separa dos animais é a arte.»

Greg Mackintosh (Paradise Lost)

Gostávamos de escrever um texto destes no final do ano, fazer um rescaldo positivo. Mas acabamos por escrevê-lo nas últimas semanas do Verão. Por esta altura, o núcleo duro da Metal Hammer Portugal já teria ido ao Moita Metal Fest, ao SWR Barroselas Metal Fest, ao VOA – Heavy Rock Festival, ao Laurus Nobilis Music e ao Vagos Metal Fest. Um ano em cheio com Lacuna Coil, As I Lay Dying, Korn, System Of A Down, Sepultura, Amon Amarth, Meshuggah, Emperor, Behemoth, Testament… Já para não se falar de Iron Maiden, Kiss, Guns N’ Roses e Einstürzende Neubauten. Uma lista invejável. Teríamos a nossa página de Facebook e o website recheados de reportagens e entrevistas. Tal não aconteceu e sabemos porquê. Não adianta chorar sobre leite derramado.

Por momentos vamos esquecer aquilo que podia ter sido e não foi. Mesmo que periclitante e peculiar – que nunca será apagado da memória –, 2020 continua a ser um ano especial se tivermos a disposição para o olhar de outra forma, para que o copo não fique completamente vazio, para podermos sacar destes meses algo positivo, mesmo que pouco ou efémero.

O ano de 2020 representa um número redondo, aquele tipo de número que víamos no início de tantos filmes de ficção-científica e que nos fazia questionar: Será que vamos lá chegar? Será que vai ser assim, como nos filmes? Números redondos são propícios a celebrações e recordações. Os outros também o são, mas uma data certinha é muito mais. Em 1970 saía o primeiro LP de Black Sabbath, em 1980 era a vez do primeiro álbum de Iron Maiden, em 1990 o grunge chegava às massas com a estreia de Alice In Chains, em 2000 os Linkin Park e os Limp Bizkit dominavam as tabelas e os canais de música. Pelo meio, em números menos redondos, explodia a NWOBHM, o death metal sueco e norte-americano (o mesmo estilo no papel, mas com tantas diferenças), o doom metal inglês, o black metal norueguês, o nu-metal à escala global, a queda e ascensão comercial da nossa música e, mais recentemente, o post-metal, o post-black metal com teor existencialista, o electro e a pop associados ao heavy metal. Tanta coisa…!

Por mais que não nos possamos reunir em carne e osso nos recintos dos festivais, 2020 tem sido, apesar de tudo, um ano de excelentes novidades. As bandas sabem da sua importância para tornar tudo menos complicado e desolador, tendo algumas delas referido à Metal Hammer Portugal o quão importante era lançarem os seus discos a meio da pandemia, mesmo com as editoras a pedirem o contrário.

A 15 de Maio era lançado “Obsidian”, o fabuloso álbum de Paradise Lost que viu a banda regressar a sonoridades góticas e dark metal. Em entrevista à Metal Hammer Portugal, Greg Mackintosh explicou o quão necessário era lançar o disco neste momento: «Ninguém sabe quando é que isto [Covid-19] acaba, não vejo razão para adiar. Ainda para mais quando pensas em pessoas fechadas em casa. Precisas de comida, luz e aquecimento, mas o que nos separa dos animais é a arte. Precisas de alimentar o cérebro, e música é um desses alimentos. É mais importante lançá-lo agora. As pessoas precisam de coisas para fazer – precisam de música, filmes, livros. Tenho a certeza que vai haver um impacto nas vendas, mas hoje em dia as pessoas compram muita música online. É um problema não podermos dar concertos, mas está toda a gente na mesma página. Bandas e fãs vão ser prejudicados, mas vamos passar por isto e ver-nos no outro lado.»

«Estamos numa banda de metal, somos uma espécie diferente, uma família diferente e temos uma maneira diferente de pensar.»

Maurizio Iacono (Kataklysm)

Proximamente, a 25 de Setembro será lançado “Unconquered”, o novo álbum dos titãs do death metal canadiano Kataklysm, e o vocalista Maurizio Iacono tem uma opinião muito semelhante à de Mackintosh. «O título já existia [antes da pandemia]», revelou à Metal Hammer Portugal, e a intenção da banda não passava por encalhar – viesse o que viesse. «Em Março soubemos que ia parar tudo. A editora disse-nos que queria adiar o lançamento para o Outono, talvez até para 2021, porque acharam que o álbum era muito forte e não queriam arriscar com a situação, mas pensámos de maneira diferente. Adiámos um pouco, de Julho para Setembro, mas não queríamos ir mais longe, porque achámos que este momento é importante para a ligação com os fãs. É um tempo duro. Estamos numa banda de metal, somos uma espécie diferente, uma família diferente e temos uma maneira diferente de pensar. Não é uma questão de se ser oportunista e esperar até que tudo esteja bonito e óptimo para se lançarem álbuns, só porque queres vender mais uns discos – acho que isso é falso, acho que isso não é nada metal. Optámos por fazê-lo agora, pusemos a nossa carreira um bocado em jogo, mas as pessoas vão lembrar-se deste álbum por aquilo que é, por ter saído quando saiu e pelo título como uma declaração. As pessoas vão agarrar-se a este álbum, estou muito positivo quanto a isso. Achamos que é a jogada certa.»

Com esta atitude em mente, andemos uns meses para trás, quando estávamos realmente confinados, e imaginemos o que seria de nós sem os novos trabalhos de My Dying Bride e Heaven Shall Burn em Março, Testament e The Black Dahlia Murder em Abril, Paradise Lost e Alestorm em Maio, Lamb of God e Carach Angren em Junho, Gaerea e Primal Fear em Julho, Deep Purple, Black Crown Initiate, Incantation, Pain of Salvation e Unleash the Archers em Agosto. Sim, há Netflix e HBO, mas tudo seria mais difícil!

E isto ainda não acabou. A 18 de Setembro sairá “Throes of Joy in the Jaws of Defeatism”, o aguardado novo álbum de Napalm Death que, por certo, deixará muitos queixos caídos quando o grande público descobrir que este álbum mistura grindcore, hardcore, industrial e post-punk em belas doses. Depois, a 25 desse mesmo mês, os já referidos Kataklysm vão atacar com “Unconquered”, um disco cheio de ferocidade e, pasme-se, algum sabor djent.

Logo no início de Outubro, a maquinaria insana dos Anaal Nathrakh regressa com “Endarkenment” e Chris Barnes reúne-se a Jack Owen para o novo álbum de Six Feet Under, que se intitula “Nightmares of the Decomposed”. Mais: em Novembro, os islandeses Sólstafir voltarão a surpreender-nos com a sua sonoridade tão particular através de “Endless Twilight of Codependent Love”, um álbum que, e podemos adiantar, fundirá a veia antiga do black metal com a do seu rock mais recente.

Este é um annus horribilis. E nenhuma falinha mansa o vai tornar diferente para melhor. Mas agarremo-nos à data redonda e as todas as efemeridades que isso acarreta. Façamos uma retrospectiva com um olhar para o futuro, que se leiam os diversos artigos históricos (encontrados facilmente aqui), que se descubra algo novo sobre aquele álbum específico que já ouviste centenas de vezes… Sim, quem nos dera rejubilar com tudo na Quinta do Ega, mas é o que é… Tira o melhor do pior. Que 2021 seja o número, que não é redondo, que nos permitirá regressar em força!