Sonoridade devastadora e relevante, lamuriosa e mesmo excruciante. Oldblood “Arms to the Sky”

Editora: Blood Blast Distribution
Data de lançamento: 04.12.2020
Género: sludge metal
Nota: 4/5

Sonoridade devastadora e relevante, lamuriosa e mesmo excruciante.

“Arms to the Sky” é a primeira página discográfica de Oldblood, colectivo londrino cujo vocabulário musical é um híbrido entre doom, black e post-metal, com inclinações óbvias ao black e punk, e lacunas que são preenchidas pelas linhas tortas do stoner e as sujas e opulentas do sludge metal. Ou seja, temos um peso absurdo – uma aura quase primitiva, mas também um negrume e acidez que fazem do trabalho algo único, com uma produção satisfatória e composições repletas de ambientações e qualidades distintivas que vão evoluindo e tomando formas no seu percurso. Créditos à banda por ter conseguido abstrair-se de experimentações duvidosas e das artificialidades que infestam a música extrema nestes tempos de criatividade líquida.

O registo é formado por quatro composições que exibem um instrumental sólido e conciso, sustentado por riffs azedos que acentuam as tensões e os dramas que existem na sua narrativa. Os vocais também desenvolvem um papel de destaque, pois geram o dramatismo necessário e ilustram o desespero dos personagens, visto que a temática abordada pela banda é a guerra, precisamente um dos capítulos mais negros e hediondos da história: o fatídico dia 6 de agosto de 1945, data escolhida pelo exército americano para lançar o artefacto atómico “Little Boy” sobre a cidade de Hiroshima, Japão. Tal acto foi responsável por ceifar milhares de vidas de imediato e selou o destino de outras tantas pelas sequelas deixadas devido à exposição prolongada a radiação e outros traumas diversos.

Joey Williams e Tom Pratt (guitarras e vozes), Lee Barter (baixo) e Brendan Coles (bateria) lançam as suas leituras sonoras sobre esta data, sobre a futilidade da mesma e sobre a necessidade ou não de tal acto, sobre o sofrimento infringido aos inocentes e a dizimação de maneira impensada causada por ele.

“Kuebiko”, a primeira faixa, aborda justamente tais questões com riffs e enlaces melódicos angustiantes e perturbadores, construindo-se o cenário ideal, muito embora doentio, que será explorado pelas demais músicas. A faixa seguinte, “Nuclear Blues”, inclina-se ao blues, como oferece o próprio título, e ao stoner, funcionando como se fosse uma versão enegrecida desses géneros. A composição vai crescendo, tomando forma e instalando peso até culminar numa agressiva apoteose nos seus derradeiros minutos.

Na sequência temos a narrativa da criação da bomba na pseudo-atmosférica, mas não menos desoladora, “Los Alamos”. Assim como a antecessora, esta faixa também vai evoluindo e dotando-se de robustez e caos até atingir o seu próprio ápice. Essas jornadas instrumentais e os rompantes de agressividade e lisergia muito relembram as fórmulas utilizadas tão sabiamente pelos Cult of Luna e outros similares, e tornam a composição citada num dos melhores momentos do registo, justamente por distanciar-se da estrutura das demais.

O derradeiro parágrafo do EP é “Alone”, uma tela monocromática repleta de devastação, ruínas da vida e sonhos que jazem no solo como escombros. O fim visto pelos olhos daqueles que, sem mais opções, sobreviveram. É nessa tela que encontramos a personagem She a questionar-se sobre o seu presente e futuro, como prosseguir e como viver quando tudo o que se tinha por vida está agora morto.

Por ser um trabalho inaugural, falhas seriam previstas e até toleráveis, mas esse não é o caso de “Arms to the Sky”, cuja sonoridade é arquitectonicamente devastadora e relevante, lamuriosa e mesmo excruciante em diversos momentos, sendo que único aquém está na similaridade das construções, tanto dos riffs como das bases, evoluções e vocais, mas nada que ofusque drasticamente a qualidade do material ou a personalidade criativa da banda que muito tem ainda para oferecer. Que venha um registo pleno o quanto antes.