“Nos Olhos da Coruja” é um artefacto de beleza primal, ouvindo-se nele lições que bebem das fontes brumais do género. A... Grievance “Nos Olhos da Coruja”

Editora: War Productions
Data de lançamento: 04.12.2020
Género: black metal
Nota: 4.5/5

“Nos Olhos da Coruja” é um artefacto de beleza primal, ouvindo-se nele lições que bebem das fontes brumais do género. A sua uniformidade transita entre o contemporâneo e o pretérito sem se abstrair de força e identidade que, aqui, é muito bem forjada e devidamente lapidada.

É certo que o black metal muito evoluiu a forma mais rústica e truculenta como foi construído, tornando-se mais aberto a labores externos, ao uso de elementos e construções que lhe eram antes incomuns. A sua progressão permitiu um conhecimento e uma exploração de uma gama maior de ambientes – as texturas antes simples foram enriquecendo-se, tornando-se voláteis e mutáveis.

A criatividade viu-se livre das amarras ortodoxas e permitiu-se vôos cegos em busca de limites ainda não estabelecidos, a identidade passou a ser amorfa e justificada pela ânsia de imprimir visões próprias – criar, recriar e construir variações sobre um mesmo tema. A roupagem mudou e adequou-se aos calendários musicais, muito embora a essência ainda esteja inalcançável no seu El Dorado e, sim, o género tão aberto a discussões e preconceitos ignóbeis ainda permanece apreciado por poucos – os escolhidos.

“Nos Olhos da Coruja” é a quarta epístola negra de Grievance, cujo bonito e enigmático título tanto simboliza o espírito ancestral e sábio, que é revelado e revivido ao longo de seu percurso, como também ilustra de forma poética e filosófica o seu ímpeto estrutural e sonoro, sendo uma personificação natural do gélido, sombrio e inconformado black metal.

Com uma produção orgânica e propícia ao estilo que dá a cada instrumento o seu ambiente de actuação e lhes permite explorar uma linguagem suja, crua e raivosa, mas ainda discernível aos tímpanos, a bateria desenha linhas simples, embora eficientes e casadas perfeitamente com a dinâmica de cada parágrafo do disco, as guitarras regurgitam riffs cortantes e repletos de fúria, que aqui e acolá oferecem caminho a frases melódicas e harmónicas, e as vozes, bem, seguem à risca os antigos escritos: gritadas, rasgadas, vociferadas e quase limpas em alguns trechos, dando-se ênfase às letras e aos seus panoramas líricos.

A abrir a jornada nocturna do trabalho, “Lâmina Anciã”, “Presságio”, “Tel Megido” e a faixa-título são quatro exemplares fiéis da profusão de obscuridade e ódio que preenche todos os sulcos da obra. Tais composições são de um peso rudimentar e ferocidade sem iguais, e por si só já valeriam a audição. Mas ainda é pouco para satisfazer o ouvinte. “Poesia da Noite” e “Seres Alados” são como tributos aos idos tempos de glória do Metal Negro ou um reivindicar ébrio da paixão pelo mesmo, principalmente a última, que desde já é forte candidata a hino de Grievance.

Rumando de modo catártico até ao fim temos as viscerais e destrutivas “Reivindico” e a sua irmã do caos “Vitória Consumada”. Sem novidades como acréscimo, há a mesma fórmula, o equilíbrio já conhecido entre a melodia intrínseca e os ataques frenéticos de brutalidade resiliente, que de forma alguma representam um problema ou empobrecem o disco, pelo contrário, já que novidade e experimentos em demasia fazem do black metal algo pomposo, pretensioso e sentenciado ao marasmo – a proposta aqui é árida, crua na medida certa e feroz a todo o instante.

Por fim, “Nos Olhos da Coruja” é um artefacto de beleza primal, ouvindo-se nele lições que bebem das fontes brumais do género. A sua uniformidade, que transita entre o contemporâneo e o pretérito sem se abstrair de força e identidade, é, aqui, muito bem forjada e devidamente lapidada.

Escritos com esta substância e fibra são cada vez mais esporádicos nesta actualidade insossa, mas ainda existem e são dádivas inestimáveis que apenas o underground proporciona.