Existem inúmeras bandas e álbuns que os observadores mais atentos da evolução do heavy metal podem citar como o verdadeiro ponto de partida do... Possessed: o impacto histórico de “Seven Churches”
Fotografia: Hannah Verbeuren

Existem inúmeras bandas e álbuns que os observadores mais atentos da evolução do heavy metal podem citar como o verdadeiro ponto de partida do death metal, mas há apenas um disco que merece tal distinção.

O disco de estreia dos Possessed, “Seven Churches”, foi lançado em Outubro de 1985, dois anos antes de “Scream Bloody Gore”, dos Death, e doze meses antes de os Slayer terem editado “Reign In Blood”. A década de 1980 foi uma época de constante mutação na cena metal. Graças aos Metallica, Megadeth e aos seus notáveis pares, o thrash metal começava a exercer a sua influência global, tornando-se numa proposta comercial séria, mas tal como geralmente acontece, os fãs mais obstinados do underground estavam já a conspirar novas formas de preservar o lado mais extremo e nefasto que havia sido ridicularizado quando os Venom inicialmente levaram o peso directamente para o inferno.

Os Possessed de Jeff Becerra perseguiam algo mais sujo, sórdido e deturpado do que tudo aquilo que se ouviu em “Ride The Lightning” ou “Peace Sells”.

Ainda que estivessem firmemente ancorados no thrash e inegavelmente influenciados pelos protagonistas do estilo, os Possessed de Jeff Becerra perseguiam algo mais sujo, sórdido e deturpado do que tudo aquilo que se ouviu em “Ride The Lightning” ou “Peace Sells”. Ao invés, “Seven Churches” incorporou com celeridade elementos sinistros e malévolos, exibindo assim uma maior afinidade com bandas como Celtic Frost e Bathory – ambas lançavam discos de referência em 1985, com “To Mega Therion” e “The Return……”, respectivamente – do que com os crescentes pesos-pesados do thrash, que adoptavam uma estrutura mais rigorosa.

Com “The Exorcist” a dar o pontapé de saída com um trecho de “Tubular Bells”, de Mike Oldfield, carinhosamente recriado pelo produtor Randy Burns para evocar especificamente o filme de terror de 1973 do mesmo nome, o disco de estreia dos Possessed era mais cru, agressivo e muito mais aterrador do que aquilo que outras bandas de metal haviam conjurado até então. Ostentando alegremente a bandeira de Satanás, temas como “Pentagram”, “Burning In Hell” e “Fallen Angel” vangloriaram-se com os seus temíveis e dilacerantes hooks, mas “Seven Churches” não era um álbum destinado aos ouvidos mainstream. Em vez disso, procurou arrastar os metaleiros para o abismo, com riffs que sacudiam e esfolavam e, cortesia de Jeff Becerra, vocais que soavam como gritos angustiados saídos directamente da sala de tortura ardente de Beelzebub.

Acima de tudo, “Seven Churches” estabeleceu o modelo do death metal de forma inequívoca. Enquanto os Death de Chuck Schuldiner foram o rosto incontestável do género, não só os Possessed o baptizaram – o tema que encerra o disco, “Death Metal”, é sistematicamente citado como o momento em que o termo foi cunhado pela primeira vez com determinação – mas definiram também a combinação da brutalidade a todo o vapor, das chicotadas para instigar à velocidade e uma imagem macabra e perturbada que tornar-se-ia um elemento chave da fórmula essencial do death metal. É impossível imaginar álbuns clássicos, como “Altars Of Madness” dos Morbid Angel, “Severed Survival” dos Autopsy ou “Eaten Back To Life” dos Cannibal Corpse, existirem sem a influência dos riffs e da entrega vocal de Becerra, da mesma forma que não existiria sem o escabroso e punitivo trabalho de produção de Randy Burns. O facto de este disco ter sido concebido por adolescentes imprestáveis dos subúrbios de São Francisco, faz de todo este empreendimento seminal algo ainda mais impressionante e louvável.

Se alguma vez se questionarem sobre o porquê dos puristas do metal underground lamentarem a qualidade estética da maior parte do metal moderno, a atmosfera angustiante e o intenso sentido de caos mal controlado que fez de “Seven Churches” uma obra de arte negra surpreendente e duradoura diz tudo: o metal extremo nunca quis ser polido ou educado – o objectivo passou por abrir as portas do inferno ao pontapé, libertando demónios que nunca poderão ser domados. Mais de 30 anos depois, esta obra-prima intemporal e do outro mundo ainda exerce o seu poder de forma espantosa.

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