O espectro da doença pairou sobre o concerto no RCA. Depois do soundcheck, todos os elementos dos Agnostic Front estavam presentes nos bastidores, exceptuando... (Sem) motivo para alarme: Agnostic Front + Mordaça + Shame On You Humans (21.11.2019 – Lisboa)
Fotografia: João Correia

O espectro da doença pairou sobre o concerto no RCA. Depois do soundcheck, todos os elementos dos Agnostic Front estavam presentes nos bastidores, exceptuando Miret, que se encontrava a descansar para tentar tocar nessa noite. Mais tarde, em palco, o unicórnio do NYHC afirmou mesmo: «Nem sei como é que consegui dar este concerto, não acredito que me estou a aguentar tão bem».

Agnostic Front: entrevista com Stigma

Stigma, dos Agnostic Front, partilhou algumas palavras com a Metal Hammer Portugal sobre a nostalgia vigente em “Get Loud!”. O músico fala também da importância que não desistir tem para si e para o seu cúmplice Roger Miret.

Publicado por Metal Hammer Portugal em Segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Com “Get Loud!” acabado de ser editado, os Agnostic Front encetaram uma digressão em promoção ao novo registo e o palco escolhido em Portugal para o celebrar foi o RCA, o mítico clube de som alternativo da capital. Na noite anterior, os padrinhos do hardcore nova-iorquino tocaram no Underworld, em Londres, e algo correu mal. Durante a entrevista que a Metal Hammer Portugal conduziu a Vinnie Stigma, o guitarrista descoseu-se e indicou-nos que Roger Miret (voz) e outros elementos da banda se sentiram mal depois de terem comido alguns pratos típicos ingleses.

«(…) Berbigão, mexilhões, não sei o quê, não sei que mais… Aquilo caiu-nos mesmo muito mal. O Roger ficou doente. Homenagearam-nos com comida inglesa e olha… não foi nada bom.»

Para não variar, os horários foram cumpridos – passavam 15 sobre as 20:00 quando os Shame On You Humans entraram em cena para dar início à celebração. Às 21:00 seguiram-se-lhes os veteraníssimos Mordaça. Integrantes do núcleo duro do LVHC (Linda-a-Velha Hardcore) e a promoverem o EP “Tiros Perdidos”, foi com os Mordaça que se começou a sentir o degredo da agitação da massa humana que estava para vir. O som dos Mordaça é simples, mas acutilante: punk, hardcore e umas pinceladas de crossover (thrash). Contudo, a prestação ao vivo da banda soma sempre pontos. F8 (Foito, voz) comanda o quinteto e não dá tréguas ao público, seja através de temas rápidos, seja através da partilha de microfone com quem quer que tenha vontade de repetir refrãos. Fazem lembrar uns Mata-Ratos mais musculados, com mais metal, sendo esse um dos factores que fazem valer a pena vê-los live. Sem espinhas, sem complicações técnicas em palco e com muita atitude, tiveram como ponto alto “Sem Saída”, tema de “Tiros Perdidos” que causou bastante confusão (leia-se “slam e derivados”) frente ao palco. Nota mais do que positiva. Ainda que o nome Mordaça não seja o mais expressivo dentro do LVHC, é capaz de ser o mais interessante de se presenciar ao vivo por tudo o que referimos.

Pouco passava das 22:00 quando a magistral “AF Stomp”, a intro do novíssimo “Get Loud!”, meteu toda a gente em sentido e a bater continência à bandeira dos Estados Unidos do Hardcore. Não há muito mais a dizer sobre uma das bandas que começou isto tudo e era altura de dar as boas-vindas aos criadores e expoentes máximos do NYHC. Os Agnostic Front passaram de imediato a “Victim In Pain”, apenas um dos maiores temas do estilo de todos os tempos. A confusão instalou-se de imediato, com vagas de stagedivers e crowdsurfers a povoarem primariamente o palco e depois o público. Para piorar a coisa, seguiu-se-lhe “Your Mistake”, outro clássico dos tempos áureos do hardcore de Nova Iorque. Depois, “With Time”, só mais um clássico extraído de “Victim In Pain”, assim como os dois anteriores. Por esta altura, ainda não tinham passado 10 minutos e já tínhamos regressado a 1984 e aos melhores tempos musicais da cidade que nunca dorme. De repente, o público começa a entoar “If I die before I wake, If I make it to another day”, as linhas iniciais de “My Life My Way”, e durante o refrão deixámos de ver a banda em palco, tamanha era a confusão: corpos a voar, gente a subir ao palco aos quatro e aos cinco, um moshpit sufocado com tanta gente… Por essa altura, a lotação do RCA já estava esgotada. Não façamos confusão: a intensidade de um concerto de hardcore não é para amadores – na verdade, ainda não presenciámos este ano um concerto de metal tão animalesco como o dos Agnostic Front. A determinada altura, Miret convidou apenas as senhoras a subirem ao palco para depois as incentivar a fazerem stagediving para cima dos homens. Momentos que marcam e ficam.

Os Agnostic Front são uma máquina de guerra antiga, mas perfeitamente confiável e sólida. Na viola-baixo, mesmo à nossa frente, Mike Gallo não parou um instante e ajudou a dar ênfase à voz de Miret com os seus coros. Do lado oposto de Gallo, Vinnie Stigma, guitarrista e único membro-original da banda, marcava pontos apenas com a sua presença, com o mesmo estilo de sempre: punk, rufião, tough guy. “Pokey” Mo (bateria, ex-Leeway) esteve sempre discreto, mas quando a palavra de ordem era acelerar, o baterista não deixava créditos em mãos alheias. Os clássicos foram intercalados com novos clássicos de “Get Loud!”, caso de “I Remember” ou “Spray Painted Walls”, o estilhaço com o inconfundível refrão “Spray painted walls, don’t come inside, There’s a chance you won’t come out alive”.

Mas também houve tempo (há sempre tempo!) para desfiar temas de “Cause For Alarm”, talvez o disco hardcore mais relevante de sempre por diversos motivos: Lou Beato (Carnivore) na bateria, Peter Steele (Carnivore, Type O Negative) como letrista em alguns temas e talvez o som mais metálico de sempre dos Agnostic Front, caso de “Eliminator” ou da controversa “Public Assistance”, ambas tocadas no RCA. A quatro músicas do fim, Roger Miret, Mike Gallo e Craig Silverman (guitarra) começaram a declamar “From the East Coast to the West Coast, Gotta gotta gotta go”, a clássica linha de “Gotta Go” que, de repente, inundou todas a bocas no RCA. Foi o momento alto de um concerto que foi um sucesso absoluto pouco mais de dois minutos após ter começado. A determinada altura durante o tema, vimos seis pessoas em palco mais os cinco elementos da banda e ainda road manager e stage manager a facilitarem os vôos dos fãs para o público – foi assim tão surreal. Após “Police Station” e “Abduction”, a banda retirou-se e regressou para o encore com “Blitzkrieg Bop”, um original dos Ramones que nunca deixa ninguém indiferente.

Uma vez mais, o hardcore não é para amadores. A prestação de sonho dos Agnostic Front, mesmo com todos os problemas de saúde nomeados, foi louvável e é um claro indicador que o que sempre foi bom nunca será mau, não quando o pão e a manteiga dos Agnostic Front é a estrada, os discos e os clássicos. Ainda assim, e com tanta violência por parte do público, tudo se saldou em diversão, sem qualquer tipo de confronto ou desentendimento – afinal, é tudo uma grande família. Contas feitas, foi uma noite como poucas e que venham muitas mais. Porque melhores vai ser difícil.

Fotografia: João Correia