“Meat Machine” é o trabalho mais coeso e maduro que os Obsidian Kingdom criaram. Obsidian Kingdom “Meat Machine”

Editora: Season of Mist
Data de lançamento: 25.09.2020
Género: experimental rock / post-metal
Nota: 3.5/5

“Meat Machine” é o trabalho mais coeso e maduro que os Obsidian Kingdom criaram.

Sejamos honestos, se avaliássemos um álbum pela sua capa, “Meat Machine” estava feito ao bife. Pouco tem de apelativa e pode fazer o mais incauto torcer o nariz logo à partida. Quem der uma chance aos dez temas que compõem este registo da banda catalã, ao fim de um par de audições perceberá que esta carne não é de fácil digestão, como tão bem já tinha ficado espelhado em “Mantiis – An Agony in Fourteen Bites” e em “A Year With No Summer”, de 2012 e 2016, respectivamente.

A receita continua a ser a mesma: não há barreiras estilísticas. Atira-se uma quantidade de inputs para dentro do caldeirão e o resultado final será o que cada um quiser. Se a abertura com “The Edge” atira-nos logo para uma mistura de rock alternativo com uns pozinhos de post-metal, logo a seguir “The Pump” carrega electrónica a piscar o olho de forma lasciva a um sludge polidinho. E pronto, a partir daqui estamos enleados na teia. “Mr Pan” é ainda mais descarada: um início que deve ter sido uma sobra de “Year Zero”, dos Nine Inch Nails, colada a cuspe a uma melodia que vagamente nos leva para o universo dos Leprous, mas antes suja-se um bocado em lama. Daqui em diante, o desfilar continua num equilíbrio certeiro entre os elementos electrónicos e o peso das guitarras, sendo as vocalizações partilhadas entre Rider G. Omega (masculina) e Eaten Roll I (feminina), esta última com uma prestação muito interessante em “Flesh World”.

A segunda metade do álbum abre com a mais enegrecida “Mear Star”. “Spanker”, na sua toada quasi-industrial, marca mais um ponto a favor, e seria um tema de maior valia se não resvalasse para um ou outro momento completamente ao lado. Podemos encontrá-la em “Womb of Wire”, agitadora do princípio ao fim, congregando de forma exímia todas as roupagens até agora encontradas neste álbum. “A Foe” fecha esta experiência com uma sensibilidade pop desarmante, uma melodia e voz muito fofinha a conduzir-nos candidamente para o inevitável: com os Obsidian Kingdom nada é linear e os derradeiros 60 segundos colocam-nos no meio de uma cena de thriller/suspense e… fim.

“Meat Machine” é o trabalho mais coeso e maduro que a banda criou, se calhar um pouco menos arrojado que alguns momentos de “Mantiis…”, por exemplo. Existe uma loucura mais controlada, aposta mais firme no formato canção e um cuidado muito maior nos arranjos, adicionando várias texturas e revestindo-os de uma outra forma de complexidade que permite aos temas ganharem corpo. No final, criam uma mistura interessante que poderá trazer bom augúrio aos Obsidian Kingdom. Repescando o clássico de Bo Didley – “You Can’t Judge a Book by the Cover” –, tem toda a razão.