Como 5000 dólares e um lago de álcool colocaram os Lamb of God no caminho para o estrelato com o primeiro álbum “New American... Lamb Of God “New American Gospel”: por dentro do álbum que deu início ao metal do Séc. XXI

Como 5000 dólares e um lago de álcool colocaram os Lamb of God no caminho para o estrelato com o primeiro álbum “New American Gospel”.

Desde um início modesto na Virginia Commonwealth University, em 1990, os Lamb Of God tornaram-se um dos nomes mais cruciais e reconhecidos no metal do Séc. XXI.

A história começa com o guitarrista Mark Morton, o baixista John Campbell e o baterista Chris Adler. A partilharem o mesmo dormitório da universidade mencionada, os três começaram uma banda essencialmente instrumental.

«Não nos conhecíamos há muito tempo», explica Morton. «Tínhamo-nos acabado de juntar e sentimos que vínhamos todos do mesmo lugar, musicalmente. Mas só porque éramos uma banda instrumental, não acho que tocávamos prog rock. Desde o início, a banda chamava-se Burn The Priest, e isso diz muito do quão duros, agressivos e muito pesados éramos.»

«É preciso perceber que, na altura, estávamos em Richmond, Virgínia», acrescenta Adler. «E a maior banda metal de todos os tempos a sair dali era GWAR. Era uma comunidade musical muito insular, onde as bandas não olhavam para o cenário nacional, muito menos para o internacional. Acabámos por tocar música estranha e experimentar ideias diferentes. De muitas maneiras, foi muito refrescante.»

Após a formatura, Morton saiu temporariamente para ir atrás de uma pós-graduação – Relações Internacionais – em Chicago. Mas Campbell e Adler decidiram levar a sua música a outro nível, trazendo o guitarrista Abe Spear e o vocalista Randy Blythe.

«Quando o Mark saiu, nem o John nem eu achámos que isso deveria ser o fim da banda», revela Adler. «O nosso pequeno projecto estava a ter algum ímpeto. Então, trouxemos o Abe. Agora, tenho de admitir que nunca quisemos um vocalista – de todo. Mas o Abe conhecia um gajo chamado Randy Blythe, e trouxe-o para gritar nalgum do nosso material instrumental. Nunca lhe pedimos para se juntar à banda. A modos que foi ficando.»

Mas para Morton, a atracção para tocar com os seus velhos amigos era grande demais. Dois anos depois de deixar a banda, abandonou o curso de mestrado e voltou para casa. «Sempre tive um convite aberto para me juntar novamente, e, para ser sincero, a minha única motivação ao ir para Chicago era encontrar outros músicos para ampliar os meus talentos. Quando isso não aconteceu, quis voltar e tocar com os meus velhos amigos.»

Por essa altura, Spear era uma parte crucial dos Burn The Priest, portanto o rebanho foi expandido para cinco membros, para o lançamento do álbum homónimo de 1998 pela editora Legion, sediada em Filadélfia.

«Tivemos cerca de quatro dias para gravar o álbum inteiro», diz Morton. «Várias músicas foram escritas na altura em que éramos apenas uma banda instrumental, o que diz que tipo de banda sempre fomos. Sei que algumas pessoas se referem a Burn The Priest como mathcore, e recebemos algumas influências de nomes como Confessor, que eram matemáticos. Mas também tínhamos outras coisas a acontecer.»

Talvez o facto mais crucial sobre Burn The Priest seja que tenham apresentado uma paixão novata a Steve Austin, elemento principal de Today Is The Day, que produziu esse disco e o subsequente “New American Gospel”.

«Foi uma ideia do Randy», ri Adler. «Ele era um grande fã, ligou ao Steve e este concordou em trabalhar dentro do nosso escasso orçamento. O Steve não era a minha escolha. Eu queria alguém como Alex Perialas, que tinha trabalhado com Testament. Em vez disso, ficámos com este punk rijo e gravámos na sua casa – Austin Enterprises Studio, em Clinton, Massachusetts. Mas ele foi uma revelação ao trabalhar mais do que alguns membros da banda. Demo-nos tão bem com o Steve que ele seria a escolha óbvia para uma próxima vez.»

Duas grandes mudanças na banda estavam para acontecer antes de chegar o segundo álbum. Em primeiro lugar, uma mudança de nome… «Era a nossa ideia», diz Morton. «Pensemos – Burn The Priest parece aquele tipo de coisa que um grupo de miúdos inventa depois de se beber muita cerveja na cave, e foi assim que lá chegámos primeiramente. Mas pode realmente levar-se a sério alguma banda com esse nome? É tão infantil. Por essa altura, estávamos a começar a intensificar tudo. Nesse momento, assinávamos com a Prosthetic, e eles estavam desesperados para que continuássemos como Burn The Priest. Só porque tínhamos criado alguma agitação. Mas nós resistimos, dissemos que escolhemos Lamb of God. Pareciam satisfeitos o suficiente.»

A outra mudança foi a partida de Abe Spear. «A verdade é que o Abe tinha um negócio de fotografia, e, como a banda exigia mais atenção, ele teve uma escolha a fazer», diz Chris Adler. «Tão simples quanto isso. Quando se está numa banda ao nível do que alcançámos naquela altura, ganham-se muitos concertos, mas perde-se dinheiro com todos. Porém, o Abe foi uma parte importante do que fizemos, a ponto de, quando o Mark quis voltar, perguntámos ao Abe se ele estava de bem com isso. Mas, sem desrespeito por ele, trazer o meu irmão Willie para a banda aumentou o nosso potencial e abriu-nos muitas grandes possibilidades musicalmente.»

Os recém-fundidos Lamb of God voltaram à cooperativa de Steve Austin em Abril de 2000, para gravarem o que se tornou um álbum de referência – “New American Gospel”.

«Nem sei se gastámos todos os sete dias em estúdio», admite Morton. «O orçamento era de 5000 dólares, o que era muito pouco, mas, novamente, o Steve fez-nos milagres.»

«Surgimos realmente como uma banda», acrescenta Adler. «Havia algo de speed metal progressivo a acontecer, e todo o álbum tem uma verdadeira magia. Acho que é um disco muito sombrio, ao nível lírico certamente. Isso porque o Randy tinha muito para mandar cá para fora. Também sinto que se pode ouvir uma verdadeira obstinação na maneira que tocávamos naquela altura.»

Duas músicas em particular referem-se a incidentes que marcaram ou, certamente, moldaram Blythe. Em primeiro lugar, há “ Terror and Hubris In the House of Frank Pollard”… «Sim, é uma pessoa real», sorri Morton. «É um amigo do Randy em Chicago, e acredito que a música tenha a ver com uma noite louca na casa de Frank.»

A outra é a mais enigmática “O.D.H.G.A.B.F.E.”. «Querem saber o que isso significa?», pergunta Morton. «Significa “Officer Dick Head Gets A Black Fucking Eye”. É tudo baseado num momento em que o Randy foi espancado pela polícia em São Francisco. Estávamos a tocar numa noite, e essa ideia do agente Dick Head surgiu e parecia perfeita.»

Segundo a lenda, o álbum também foi alimentado por uma sede furiosa, com muitas idas ao supermercado local para armazenar cervejas. Morton relembra aqueles tempos com uma mistura de humor e um leve horror. «Felizmente, acalmámos muito desde esses dias! Mas sim, estávamos bêbados a maior parte do tempo. Acho que foi uma sorte o orçamento do estúdio já ter sido pago ao Steve, caso contrário… poderíamos ter encontrado outra utilidade para o dinheiro. Acho que é por isso que o álbum soa tão imprudente às vezes. De facto, se escutarem atentamente, ouvirão os resultados de toda essa bebedeira na mistura. Quando o álbum foi remisturado e reeditado, tive a hipótese de ouvir as vozes secas do Randy e, a sério, há momentos em que a corrente da carteira dele está a chocalhar! Mas é parte do que confere a “New American Gospel” uma qualidade especial.»

Originalmente lançado em Setembro de 2000, o álbum é considerado um momento decisivo na ascensão do que foi descrito por muitos como a New Wave Of American Heavy Metal

«Na altura, não sabíamos que estávamos a fazer história», diz Adler. «Nunca nos vimos como parte de um movimento. Isso é o tipo de coisas que vocês, dos media, inventam! Mas agora, quando olho para trás, tenho muito orgulho do que fizemos. Há uma faísca definitiva sobre o disco. Parte disso nasceu de frustração e pânico. Mas ainda me consigo relacionar directamente com as músicas. Sempre que as ouço, sou transportado de volta àqueles tempos, e o mesmo sentimento surge novamente. Com a ajuda da tecnologia moderna, poderíamos agora fazer um trabalho melhor? De modo nenhum. É sobre captar o momento, um espírito. “New American Gospel” soa exactamente como deveria soar.»

Há poucas dúvidas de que este álbum esteja entre os lançamentos históricos no metal dos últimos anos. Ajudou a moldar uma carreira e a definir um género. Foi reeditado em 2006. Como é que Adler se sente quanto a isso?

«Se ficasse completamente à minha responsabilidade, nunca teria acontecido. Não acredito em voltar atrás e desenterrar o passado. No entanto, não somos donos do disco – a Prosthetic teve a gentileza de nos dizer o estava a fazer e até perguntaram se queríamos envolver-nos. Não o precisavam de fazer, e eu respeito-os por o terem feito.»

A nova roupagem não só tem versões dos clássicos resmaterizados, como também demos de três músicas: “New Willennium” – que se tornou “The Black Dahlia” –, “Half Lid” – que se metamorfoseou em “A Warning” –, e “Flux” – o título original de “Pariah”. Há também “Nippon”, que só estava disponível anteriormente na versão japonesa do disco.

«Fiquei aliviado por estar presente na remasterização», diz Adler. «Dada a hipótese, quis garantir que certas coisas fossem consertadas. Não muito, mas o suficiente.»

Para Morton, o álbum é uma parte da sua própria história, com a qual ele se consegue relacionar, mas também sente uma certa distância e reticência. «Tenho orgulho de tudo o que já fizemos. A sério. Não alteraria nada. Mas se me perguntarem se sou a mesma pessoa que gravou esse disco, tenho de dizer que espero não ser. Gosto de pensar que todos nos acalmámos um pouco desde então. Caso contrário, não acho que teríamos sobrevivido. Toda a atmosfera do estúdio era uma loucura – estávamos fora de controlo. Jovens. Agora é tudo muito maior. Percorremos um longo caminho. Mas o “New American Gospel”, de certa forma, começou tudo.»

O que nos deixa uma pergunta final: por que é que Morton é creditado como Duane no álbum? «Ah, é o meu nome do meio. Por que é que fiz isso? Para proteger a minha privacidade. Não queria que as pessoas soubessem muito sobre mim, então arranjei essa maneira de permanecer anónimo. Não que isso tenha ajudado muito. Hoje em dia, tudo sobre todos nós parece ser do conhecimento público. Mas parecia fazer sentido na altura.»

Publicado na Metal Hammer #164. Chris Adler deixou os Lamb Of God em 2019.

Consultar artigo original em inglês.