"Forgotten Days" é o disco mais arrojado e arriscado dos Pallbearer, que evoluíram a olhos vistos. Pallbearer “Forgotten Days”

Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 23.10.2020
Género: doom metal
Nota: 4/5

“Forgotten Days” é o disco mais arrojado e arriscado dos Pallbearer, que evoluíram a olhos vistos.

Após a rica oferta que foi “Heartless”, um dos melhores discos (e certamente disco revelação) de 2017, tudo era possível no universo dos Pallbearer. Apenas não julgávamos que o pulo daquele para este “Forgotten Days” fosse tão alto. “Forgotten Days” é uma mistura de vários pratos clássicos: inspiração muito pronunciada em Saint Vitus, Anathema mais antigo, Candlemass e Solitude Aeturnus, com toda a bagagem épica que isso pressupõe, uma produção a lembrar Baroness e outras bandas afectas ao sludge, uma voz cada vez mais límpida e a piscar o olho ao mainstream. No entanto, seria injusto não referir que os Pallbearer são uma fonte inesgotável de boa composição e de muito boas ideias, e este novo registo espelha-o bem – já têm assinatura, mesmo indo buscar ideias a clássicos maiores.

O que mais impressiona em “Forgotten Days” é mesmo essa aura épica que nos invade a cada instante, triste e sorumbática, algo de ruinoso, que renega a salvação. Tomemos como exemplo a inicial faixa-título, dona de um riff que lembra um mamute em passo lento, mas firme e despreocupado com o que quer que lhe apareça à frente, pois será esmagado por ele. Alia-se a isso uma voz melódica de penar e lamúria (na qual ouvimos a homenagem máxima aos já referidos Solitude Aeturnus), um casamento improvável que bem poderá festejar bodas de diamante. A música arrasta-se e, quando nos deparamos com o refrão, um trecho de alguns segundos que nos leva a cantá-lo mentalmente, sabemos que o disco é coisa séria.

A seguinte “Riverbed” continua na senda da epicidade morosa e melódica, também ela um dos momentos altos do disco, a par com “Rite of Passage” e a pesadona “The Quicksand of Existence”, esta que abusa com um solo que tanto tem de melódico como de moderadamente caótico. O tema-título é um caso invulgar devido aos seus imensos paradoxos: melódico e agreste, imediatamente assimilável para uns e que crescerá para outros, demasiado ‘comercial’ e demasiado sujo. Por seu lado, a final “Caledonia” quase que poderia ter saído da pena dos Depeche Mode, bem entendido.

Ah – e também é o disco mais arrojado e arriscado dos Pallbearer, que evoluíram a olhos vistos desde a sua última prestação em formato nobre. Como último paradoxo, agradará tanto aos que entendem que as bandas amadurecem como desiludirá outros tantos que esperavam a continuação de “Heartless”.