Um bonito e sedutor trabalho digital e electrónico que a banda executou ao dar-se vida a temas repletos de um enganador... The Smashing Pumpkins “CYR”

Editora: Sumerian Records
Data de lançamento: 27.11.2020
Género: alternative rock / electro
Nota: 3.5/5

Um bonito e sedutor trabalho digital e electrónico que a banda executou ao dar-se vida a temas repletos de um enganador minimalismo melódico que esconde ao ouvido nu uma paleta de sons e sensações.

Por mais que alguns comentadores possam dizer que isto não é metal e que não compreendem por que é que algumas publicações do género continuam a perder tempo com bandas que não são daqui, a verdade é que há um grupo de nomes que, quer queiramos quer não, tem adeptos também no universo metal. Uma dessas bandas é The Smashing Pumpkins, e, por mais death metal que ouças, é bem possível que aprecies a condenação iminente de “Disarm”, o grunge de “Bullet with Butterfly Wings”, o experimentalismo alt-rock de “Ava Adore” ou a toada gótica de “Stand Inside Your Love”.

Passaram-se mais de 30 anos desde a formação de The Smashing Pumpkins e, após milhões de discos vendidos, a banda permanece por cá com os seus altos e baixos – como em tudo. Actualmente acompanhado por James Iha, Jimmy Chamberlin (ambos na banda desde a fundação) e Jeff Schroeder, Billy Corgan diz que «“CYR” representa, pelo menos simbolicamente, a criação de uma vida dissociativa, que é como quem diz vida moderna conforme apresentada por uma variedade de fontes: passado, presente e futuro».

Inserindo-nos num ambiente distópico e retro-futurista, esta viagem meditativa é feita essencialmente de electrónica. Começando ao sabor de um revivalismo post-punk britânico em “The Colour of Love”, o seguimento acontece com “Confessions of a Dopamine Addict”, um tema construído por várias camadas de sintetizadores, quase em modo chill-out, que são apenas trespassadas pela voz inimitável de Corgan.

Entre o ritmo mais dançável e os pozinhos muito sóbrios de slasherwave do tema-título e de “Ramona” encontramos a pop adocicada e melosa de “Dulcet in E”, e o rock só dá ar de si mais lá para a frente, na nona “Wyttch”, com hooks de guitarra fortes e repentinos, posteriormente suportados por mais sintetizadores, agora distorcidos, que dão um intuito pesado à música. De facto, temos de sublinhar que as guitarras perderam todo o seu papel principal e motriz em The Smashing Pumpkins neste disco, ouvindo-se, por exemplo, um lead claramente sintetizado em “Anno Satana”, outro mais breve em “Schaudenfreud” e guitarra acústica na última “Minerva”.

“CYR” é negro quando tem de ser e suave quando lhe é permitido, sendo, sem dúvida, plenamente imersivo e, com a devida atenção, intrincado.

Mas, ainda assim, refira-se o bonito e sedutor trabalho digital e electrónico que a banda executou ao dar-se vida a temas repletos de um enganador minimalismo melódico que esconde ao ouvido nu uma paleta de sons e sensações, tudo interligado a partir de um sentido de quem sabe o que está a fazer – por outras palavras, “CYR” é negro quando tem de ser e suave quando lhe é permitido, sendo, sem dúvida, plenamente imersivo e, com a devida atenção, intrincado. Acto contínuo, ao fundo, as batidas revezam-se entre bateria orgânica e digital numa panóplia de sons para todos os gostos: batuques, palmas, sininhos, chicotadas… Em suma, “CYR” é uma constante de ondas digitais que tanto mergulham na profundidade de uma linha robusta, grave e distorcida como se elevam para dar forma a um corpo sonoro celestial, limpo e brilhante.

Caso ainda não tenhas tido conhecimento, “CYR” contém 20 faixas e é aí que a banda poderá perder-nos… Infelizmente. Por mais bonito, multicolorido e atraente que possa ser, é demasiado longo. Por mais que se queira contar uma história, crê-se que o objectivo final, pelo menos para o ouvinte, seria conseguido em 40 minutos em vez de 70. É que, por outras palavras, a meio já percebemos que não há mais nada de novo a obter, especialmente se notarmos as linhas vocais lineares e muito homogéneas que pouco, ou nada, geram um momento de êxtase ou diferença.

Para sabermos se esta proposta é apenas um momento particular de expressão artística, teremos de esperar por um possível próximo disco, mas o certo é que “Shiny and Oh So Bright, Vol. 1 / LP: No Past. No Future. No Sun.” (2018), que se ficou pela posição 54 da US Billboard 200, respirou um pouco dos bons e velhos The Smashing Pumpkins e agora deu-se uma curva demasiado fugidia que não agradará a todos os fãs.