Quase 30 anos de carreira, um dos bastiões do metal canadiano, uma porta de entrada no death metal para muitos jovens, álbuns icónicos como... Kataklysm: «Nunca fomos uma banda que dá a outra face»
Foto: cortesia Nuclear Blast

Quase 30 anos de carreira, um dos bastiões do metal canadiano, uma porta de entrada no death metal para muitos jovens, álbuns icónicos como “Sorcery” e “Shadows & Dust”. É assim que podemos descrever Kataklysm, que chegam ao décimo quarto álbum “Unconquered”, um título que muito diz sobre a perseverança e actividade de uma banda que tem vindo a lançar discos a cada dois anos.

Se nos depararmos com o primeiro single “The Killshot”, os ouvidos mais atentos perceberão que algo de diferente está a acontecer na sonoridade dos canadianos – uma sensação mais gorda, mais tensa, mais djent até. A razão é simples: os Kataklysm usaram uma guitarra de sete cordas. «Se fizeres uma mudança de seis para sete cordas, isso leva-te automaticamente ao novo mundo do djent», confirma o vocalista Maurizio Iacono. «É um factor automático por causa de quão baixa está a afinação das guitarras. Fazer a mesma coisa no que diz respeito a guitarras e a sons durante quase toda a nossa carreira… [pausa] Chegou o momento de darmos um passo em relação a algo novo. O guitarrista [JF Dagenais] já queria fazer isto há algum tempo, mas estávamos hesitantes em fazer tal mudança porque é dramática. Mas achámos que era o momento. Temos esta banda desde a escola secundária. Chegou a hora de mudar, uma espécie de renascimento – é por isso que a besta está de volta ao artwork, a mascote da banda –, é uma espécie de renascimento da besta, a nossa besta interna. Queríamos algo mais refrescante e novo sonicamente.»

Durante a conversa, em boa hora Maurizio fala na capa do álbum, com o regresso da besta à arte dos Kataklysm. Podendo encontrar-se nas capas de registos como “In the Arms of Devastation” (2006) e “Heaven’s Venom” (2010), actualmente, com “Unconquered”, aquele demónio não surge tão amedrontado ou aflito como antes – desta vez, a besta ergue-se mais gloriosa e orgulhosa, ainda que decrépita e rodeada por entulho. «Queríamos que fosse mais real, mais 3D em vez do tradicional desenho», conta. «Já estava de fora há 10 anos, terminámos com ele no álbum “Heaven’s Venom” e agora trazemo-lo de volta, mas numa versão mais realista. Foi feito pelo Blake Armstrong, que trabalha para a DC Comics e que fez o último álbum de In Flames. Vimos o que ele fez com o bobo no disco de In Flames – mais realista –, telefonámos-lhe e ele quis logo fazer isto. É muito importante para nós. É uma revelação para Kataklysm – embora andemos aqui há tanto tempo, ainda conseguimos reinventar-nos.»

«Estamos numa banda de metal, somos uma espécie diferente, uma família diferente e temos uma maneira diferente de pensar.»

Maurizio Iacono

Maioritariamente, o público em geral conhece um músico através do seu ofício, que vai do álbum à performance em palco – é o limite que muitos impõem, mesmo que vivamos numa era de redes sociais onde tudo se sabe, ou pensamos que se sabe. Sem se parar há quase três décadas, “Unconquered” foi alimentado por ataques de ansiedade, uma condição com que Maurizio se viu a braços nos últimos tempos. «Para mim, música é terapia. Sem ela, estou perdido, e sempre usei metal mais como terapia do que, por exemplo, ser algo que gosto de estar sempre a ouvir», começa. «Quanto a Kataklysm e este álbum, no ano passado batalhei muito mentalmente porque nunca parei desde que tenho a banda, quando tinha 16 ou 17 anos. Durante quase 30 anos não parei de fazer isto – álbuns, digressões por todo o lado. Este é o décimo quarto álbum. Entre isso e tudo o resto que faço – como gerir um monte de bandas numa empresa chamada Hard Impact em que estou muito envolvido, sou um trabalhador compulsivo –, nunca tirei tempo para mim e esta pandemia forçou-me a parar – o que provavelmente precisava muito –, mas agora estou numa posição em que tenho ansiedade porque não estou em digressão, não estou a fazer coisas que acho que devia estar a fazer. É uma batalha… Se sofres de ansiedade e de uma espécie de depressão, não é algo que apenas vai embora. Podes estar bem durante um mês, umas semanas, uns dias, mas às vezes volta para te assombrar. É por isso que a música para mim é muito importante nesse aspecto. Quando cheguei a este disco, sentia muita ansiedade e tinha muita agressão em mim, e pode sentir-se isso neste álbum. Queria ter o controlo da escrita neste álbum, porque sentia que tinha algo para dizer e queria mandar tudo cá para fora. Olhas para as letras e são muito agressivas, não são as típicas letras a falar de qualquer coisa – tipo o tempo. [risos] É um álbum muito duro e tem um sublinhado muito negro – a mensagem de quando vais abaixo, tens de voltar e contra-atacar. Kataklysm nunca foi uma banda que dá a outra face. Se levarmos, damos de voltar. É o meu carácter enquanto pessoa.»

“Unconquered” é uma afirmação, uma declaração de que ainda não estamos acabados, e Kataklysm muito menos! Sendo o disco mais pessoal destes veteranos canadianos, Maurizio & Cia. não faziam ideia do que aí vinha durante o primeiro trimestre de 2020. «O engraçado é que este álbum foi escrito no ano passado, entre o final do Verão e Novembro, algo assim, antes de irmos em digressão pela Europa em Dezembro.»

«O título já existia», revela, e a intenção da banda não passava por encalhar – viesse o que viesse. «Em Março soubemos que ia parar tudo. A editora disse-nos que queria adiar o lançamento para o Outono, talvez até para 2021, porque acharam que o álbum era muito forte e não queriam arriscar com a situação, mas pensámos de maneira diferente. Adiámos um pouco, de Julho para Setembro, mas não queríamos ir mais longe, porque achámos que este momento é importante para a ligação com os fãs. É um tempo duro. Estamos numa banda de metal, somos uma espécie diferente, uma família diferente e temos uma maneira diferente de pensar. Não é uma questão de se ser oportunista e esperar até que tudo esteja bonito e óptimo para se lançarem álbuns, só porque queres vender mais uns discos – acho que isso é falso, acho que isso não é nada metal. Optámos por fazê-lo agora, pusemos a nossa carreira um bocado em jogo, mas as pessoas vão lembrar-se deste álbum por aquilo que é, por ter saído quando saiu e pelo título como uma declaração. As pessoas vão agarrar-se a este álbum, estou muito positivo quanto a isso. Achamos que é a jogada certa.»

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“Unconquered” é o título do álbum dos Kataklysm que tem data de lançamento a 25 de Setembro de 2020 pela Nuclear Blast.