No meio do clube masculino do thrash dos anos 80, a vocalista de Holy Moses, Sabina Classen, destacou-se. É altura de dar à sua... Holy Moses revolucionaram a cena thrash dos 80s. Por que é que mais gente não sabe deles?

No meio do clube masculino do thrash dos anos 80, a vocalista de Holy Moses, Sabina Classen, destacou-se. É altura de dar à sua banda o crédito merecido.

«Adoraria cantar como Ozzy. Mas em vez disso saíam aqueles ruídos horríveis da minha garganta!»

Quando se trata de heróis pouco reconhecidos no metal, Sabina Classen merece estar próxima do topo da lista. Como vocalista de Holy Moses, passou quatro décadas a liderar o ataque pelas mulheres no metal (extremo), com rugidos e berros escabrosos como marca.

Formados na escola no final dos anos 70, em Aachen, Alemanha, podem não ter tido o mesmo impacto global que os compatriotas Kreator e Destruction, mas a vocalista é um indiscutível ícone do underground e, como a Hammer descobre a conversar com ela, um dos mais adoráveis seres humanos de toda a cena metal. Certamente, ajuda que, como Sabina explica, tornar-se talvez a primeira vocalista feminina agressiva no metal foi um acidente.

«O meu namorado, o Andy [Classen], juntou-se à primeira formação de Holy Moses e nós encontrávamo-nos na sala de ensaio», recorda. «O baixista, o Ramon, era o membro-fundador, e expulsou o vocalista porque se parecia muito com um hippie! [risos] Então, ele disse-me: ‘Sabina, agora canta!’ Fiquei chocada. Eu disse: ‘Não sei cantar, não faço ideia de como cantar!’ Mas ele insistiu – então peguei no microfone e soltei um gutural profundo, só para lhe mostrar que não sabia cantar. ‘Vês? Só sai esta merda de barulho!’ Mas ele disse: ‘É isso!’»

Quatro décadas depois, Sabina ainda parece chocada com a sua transformação numa vocalista de metal. Os Holy Moses ainda andavam na escola quando começaram a dar concertos locais e a ter uma base de fãs pequena, mas leal. O heavy metal estava apenas a começar a estabelecer-se como género no início dos anos 80 e o thrash estava a alguns anos de emergir como uma grande força. Sabina e os companheiros nem consideraram que poderiam fazer carreira na música.

«Não fazíamos ideia de como conseguir um contrato. Para mim, apenas grandes bandas como Black Sabbath e AC/DC tinham acordos. Portanto, apenas ensaiávamos depois da escola e escrevíamos as músicas. Tínhamos amigos da escola e amigos da Bélgica e da Holanda, eles vieram à nossa sala de ensaios e, eventualmente, disseram: ‘Queremos isto em cassete!’ Pegaram num gravador antigo e gravaram o que fizemos no ensaio. Demos concertos e vendemos as cassetes por cinco marcos alemães, e foram outras pessoas que enviaram essas cassetes às editoras. E depois assinámos. Foi completamente maluco.»

Os Holy Moses assinaram contrato com a AAARRG Records, de Bochum, em 1985, quando o thrash estava a tornar-se um fenómeno imparável. Embora visivelmente menos comercial e consideravelmente mais sujo do que as contrapartes norte-americanas, o thrash alemão também estava a começar a ter um impacto internacional significativo com o emergente Big 4 do próprio país – Destruction, Kreator, Sodom e Tankard –, com todas essas bandas a hastear a bandeira da brutalidade do norte da Europa. Os Holy Moses não sabiam disso.

«Na nossa pequena cidade, onde começámos como banda de escola, não sabíamos de nada sobre as outras bandas ou qualquer outra coisa!», Sabina ri. «Assim que fechámos o negócio, entrámos em contacto com os tipos de Sodom, Destruction e Assassin, e todas essas bandas. Eles já tinham merchandise a sério, mas nós ainda estávamos a fazer tudo sozinhos. Eles ensinaram-nos muito.»

Gravado no Phoenix Studio em Bochum, Alemanha, em 1986, o álbum de estreia de Holy Moses, “Queen of Siam”, continua a ser uma anomalia no agora extenso catálogo da banda. Em contraste com os álbuns posteriores, as primeiras canções não eram particularmente rápidas para os padrões de meados dos anos 80, nem tão precisas quanto o metal se estava a tornar. Todavia, grupos escabrosos e furiosos como Necropolis e Walpurgisnight eram muito mais intensos e extremos do que a maioria do hard rock e heavy metal disponíveis no início dos anos 80, com a voz de Sabina a ser uma parte fundamental de um apelo vicioso. Recordando a gravação do álbum, Sabina faz uma careta de desconforto, observando que, mesmo após alguns anos na frente de Holy Moses, sentia-se completamente perdida neste novo ambiente.

«Foi um horror!», franze a testa. «Puseram-me numa sala separada para fazer as vozes. Nem conseguia acreditar que ouvia música nos auscultadores e não conseguia ver os meus colegas! Eu não sabia nada! Era tudo músicas das maquetes de 81 e 82, mas parecia tudo totalmente diferente numa fita a sério com uma produção a sério, portanto todos tivemos de aprender muito e rapidamente. Descobrimos que todas as nossas músicas eram muito longas! [risos] O produtor cortou tudo. Ele punha-se a dizer: ‘Têm de cortar isto, porque aquele riff volta repetidamente.’»

Sabina fica com lágrimas nos olhos quando recorda o primeiro gosto de sucesso de Holy Moses no final dos anos 80. Depois de darem seguimento à estreia com a fúria quebra-ossos de “Finished with the Dogs” («Queríamos tocar muito mais rápido e ensaiámos com um metrónomo!», ri Sabina) e o mais sofisticado “The New Machine of Liechtenstein” (1989), tornaram-se um elemento permanente no circuito europeu e, genuinamente, uma grande cena na Alemanha, Holanda e Bélgica em particular. Para Sabina, foi um momento mágico que nunca mais se repetirá.

«Tivemos tantos bons momentos e excelente digressões. Particularmente, adorei a digressão que fizemos com [os ícones do crossover dos EUA] D.R.I. e [os thrashers de culto de LA] Holy Terror em 1987, porque foi a primeira vez que conhecemos as bandas dos Estados Unidos. Os tipos de D.R.I. ajudaram-nos muito e os concertos foram completamente loucos. Esgotaram todos. Lembro-me de Berlim e Hamburgo, onde os fãs ficaram tão malucos quando tocámos que me surpreendeu. No meu coração ainda éramos uma banda escolar! Não conseguia acreditar que tantas pessoas queriam ouvir os barulhos malucos que fazíamos.»

Embora seja infalivelmente modesta, Sabina sabe que é considerada uma verdadeira pioneira para as mulheres na música pesada. Quando “Queen of Siam” chegou às ruas em 1986, vocalistas agressivos no metal estavam a tornar-se cada vez mais comuns, mas Sabina era provavelmente a única mulher que berrava. Mais de três décadas depois, permite-se a si própria um brilho ocasional de orgulho por ter aberto a porta às suas irmãs metaleiras.

«Agora, após todos estes anos, posso estar muito feliz por ter feito o que fiz ao dar o primeiro passo», concorda. «Quando comecei, não havia miúdas na plateia! Depois algo mudou, e agora, quando olho para a cena e ouço bandas como Arch Enemy com a Alissa [White-Gluz] e muitas outras jovens mulheres, elas podem ser todas minhas filhas! Eu sou quase a avó, sabes? Estou muito orgulhosa por ter seguido o meu instinto. Agora consigo ver quanto sucesso as mulheres conseguem ter no metal – estou feliz por ter ajudado a pavimentar o caminho.»

Com um hiato de seis anos durante os anos 90 à parte, os Holy Moses continuaram a fazer música, mais recentemente com o arrasador “Redefined Mayhem” de 2014. Vão comemorar o 40º aniversário em 2021. Hoje em dia, Sabina passa a maior parte do tempo a trabalhar como psicoterapeuta ou, de forma encantadora, a trabalhar com cavalos. Mas a sua paixão pelo metal nunca vacilou e continua a inspirá-la diariamente.

«Estudei psicoterapia e agora trabalho com clientes, portanto tenho outra vida», sorri com um brilho nos olhos. «Mas no meu coração, sempre senti que precisava da música. Sem isso, não seria a mesma pessoa que sou agora, a trabalhar com clientes ou a trabalhar com cavalos. É uma energia inacreditável que recebo daí. O metal faz com que sintas que podes fazer qualquer coisa. É uma comunidade e tem poder. Portanto, farei isto enquanto conseguir.»

Na verdade, é um bocado difícil comparar a figura ígnea e quase demoníaca que Sabina representa em palco com a alma humilde e modesta com quem falamos hoje. Mas não se enganem, esta lenda viva tem muito fogo dentro de si e está pronta para berrar novamente quando chegar o momento certo.

«Hoje estava a montar o meu cavalo e entrei na floresta onde estava realmente escuro», reflecte. «No início estava com medo, montada no meu cavalo na floresta escura, mas naquele momento pensei: ‘Não, Sabina, sente-te como quando estás em palco. Sê aquela Sabina! Consegues lidar com um festival a tocar para 100.000 pessoas, por isso também consegues dominar o cavalo!’»

Consultar artigo original em inglês.