“Eden in Reverse” é uma rapsódia retro-futurista totalmente fecundada pela desconstrução dos mandamentos da lei do espírito original dos Hail Spirit Noir. Hail Spirit Noir “Eden in Reverse”

Editora: Agonia Records
Data de lançamento: 19.06.2020
Género: avantgarde metal
Nota: 5/5

“Eden in Reverse” é uma rapsódia retro-futurista totalmente fecundada pela desconstrução dos mandamentos da lei do espírito original dos Hail Spirit Noir.

Aviso à navegação: à primeira vista, isto não é metal, é um híbrido feito em liga leve, é um novo protótipo para a alta competição no escalão dos melhores álbuns de rock alternativo do ano. Vamos lado-a-lado com Porcupine Tree, Flaming Lips, ou também Tool? Talvez… Uma peça que extravasa a categorização simplista do rock progressivo ou dos neologismos avant-metal. Alinhado no parentesco do prog, “Eden in Reverse” é um álbum conceptual, como não podia deixar de ser, de acordo com a equação manhosa em que este planeta nunca existiu. Tudo acabou e começou num Big Bang ao contrário. O planeta Terra é nado morto. Nada existe. O Mundo é agora uma invenção falida duns gregos presunçosos armados em deuses, onde tu e Darwin também são invocados. Ao primeiro contacto com esta interpretação do paraíso dos HSN, da Europa do Sul, quer-nos parecer que andam loucos, quando o grau de loucura depende mais duma certa predisposição para esta viagem transgressiva nas margens do Éden.

Hail Spirit Noir apresentam senão o paraíso ao contrário, pelo menos com um parafuso a menos. “Eden in Reverse” é o delirante álbum branco duma banda de black metal. Um álbum oblíquo. Uma ovelha tresmalhada nas páginas duma Metal Hammer Portugal recentemente invadida por uma generosa percentagem de álbuns conceptuais, em que qualquer ejaculador precoce se apresenta ao serviço do prog rock apenas por fazer constar no respectivo repertório um tema ou dois acima dos dez penosos minutos numa invenção estéril e barroca. É o resultado da última vaga do voraz apetite e ad-tesão hipster pelas extremidades das cenas esquizóides e fora-da-caixa com um q.b. de substância para esmifrar.

Todos à boleia de mundos perdidos e das civilizações muito Antigas, em ambientes atmosféricos e retro-futuristas. Boa. “Eden in Reverse” não é o caso. O que para aqui vai é um festim louco e alienado, a começar por “Darwin Beasts” e os seus beats tribais disfarçados de hardcore analógico com máscaras esquisitas de electrónica sintetizada, na classe dos britânicos Add N To X, e duma certa electro-pop aconchegada pelos neo-românticos Ultravox ou Depeche Mode. O algodão não engana e declama devagar ao som dum instrumental enigmático: «Here lie the beasts / They are Darwin’s defeat (…) Down below / They see for miles / The final show / Is this final afterglow.» Com os teclados em serpentina, «Down Below (…) it’s the final Afterglow».

“Incense Swirls” é uma ameaçadora carga de artilharia com a garganta limpa sobre ritmos tribalistas, hipnóticos e viciosos, com a gravidade do baixo apontada ao abismo, como um junkie atraído pelo fundo do poço. Uma severa fatalidade. Jean Michel Jarre nunca vai saber que podia ser tão ou mais assustador do que todos os White Zombie(s) do lado oposto ao “Thriller” de Michael Jackson. John Carpenter também entra num mano-a-mano com a mesma mão que a tecla encena desde que Pompeia e Pink Floyd se tornaram indissociáveis. O paraíso ao contrário nasceu por ali, fruto duma força centrífuga em espiral, que engoliu a tribo cavalgante de unicórnios e cabras-cega, numa ópera space-rock.

“Alien Lip Reading” – a sério? A partir daqui é toda uma outra dimensão. Doravante, e assumidamente, partimos sem destino na busca de outras galáxias muito para além do jardim da Celeste, com danças de roda e tudo. Vamos lado-a-lado com “Metanoia” dos Porcupine Tree ou Flaming Lips. Os Tool que se cuidem… É toda uma nova abordagem à nova ficção prog, cada vez menos científica, um novo macabro nas voltinhas do carrossel mágico. Soa como um theremin maléfico que resmunga enlouquecido por causa do sobe e desce dum fecho-éclair com o Syd Barrett ao pescoço. Um ensaio numa língua alienígena.

“Crossroads” fica na encruzilhada de Dave Gahan com Muse, numa mousse trippy-power-metal acidulada, e sai de fininho ao mesmo tempo que soa a Marillion na fase de “Script For A Jester’s Tear” sob a capitania Hawkwind. Space rock 100 palavras, com o anunciado “Eden in Reverse” levado à letra lá pelo meio do tema. Daí para a frente, as coisas começam a oscilar por entre a speedaria de riffs anfetaminados e a omnipresença de “Masters of the Universe”. “The Devil’s Blind Spot” é a orgia extraterrestre sobre um fundo proto-techno com os Kraftwerk na memória e umas lambidelas na linguagem ácida de Aphex Twin, Alec Empire ou nas cenas illbient de DJ Spooky. Um aviso para o que se segue. “The First Ape On New Earth” é para amostra num alerta sobre os fantasmas pálidos do futuro. As guitarras esboçam nuvens penetrantes sobre planos estereoscópicos num fundo animado com as raízes black metal à mostra. Os clarões invadem a paisagem com rajadas onde os teclados ondulantes e as guitarras se cruzam por moldes do heavy prog rock melódico. “Automata 1980” é ambient-noise. Há krautrock. Coros operáticos esventrados num clarão, e os teclados em modo sinfónico ordenando os peregrinos na procissão mecânica e robótica que ascende a Mercúrio. É uma trip. A ida ao espaço sideral obriga à reconstrução das velhas ligas metálicas. Desorbitar daqui para fora requer alguma resistência e uns furos acima na fuselagem da aeronáutica espacial para que o poder abrasivo na transcendência da alma do seu estado físico possa resistir ao impacto na superfície de Mercúrio.

“Eden in Reverse” é uma rapsódia retro-futurista totalmente fecundada pela desconstrução dos mandamentos da lei do espírito original dos Hail Spirit Noir. E daí talvez não, porque nem tudo é como aparece. Numa era em que tudo se move a velocidades super-sónicas, os HSN comeram a pólvora e entenderam o segredo da revelação pela via da descoberta dum novo impacto sensorial. Ao invés do preto e branco, usando a gíria fotográfica, apostam no branco e preto, como um fotógrafo que privilegia a luz para melhor transpor numa variante da mesma técnica e revelar o lado negro.