“Discipline” é a banda-sonora do apocalipse sexual, uma depravação sem limites, que não conhece fronteiras. Grunt “Discipline”

Editora: Larvae Records
Data de lançamento: 02.04.2021
Género: death metal / industrial / electro
Nota: 4/5

“Discipline” é a banda-sonora do apocalipse sexual, uma depravação sem limites, que não conhece fronteiras.

Inegavelmente uma das bandas mais controversas do cenário português, os Grunt reapresentam-se com o álbum “Discipline”, como seres doutros mundos, longínquos e espaciais, a visitarem uma Terra ancestral composta de pedra e mato rasteiro, criando-se um contraste entre a matéria sólida terráquea e a elasticidade de roupas e máscaras que esconde a carne sedenta de prazeres fetishistas. Os Boys estão de volta!

Afastando-se do grindcore / death metal mais ortodoxo de por exemplo uns Holocausto Canibal, a imagética também ganhou nova figura quando o grupo substituiu os coletes thrash metal e as ceroulas amareladas dos Fetal Incest pelos fatos de látex destes Grunt.

Os cerca de três minutos e meio da inaugural “Vertiginous Asylum” dão o mote marcial e ominoso, logo a impor respeito e disciplina, para aquilo que se seguirá nas faixas seguintes. Construindo uma sonoridade que aposta essencialmente em death metal (nada purista, diga-se), para além dos habituais ingredientes do género (riffs afiados e/ou encorpados, baixo gordo por cortesia de Boy-Z e bateria impetuosa com assinatura de Boy-M), a banda dos Boys evidencia-se também pelos arranjos industriais que populam as sete novas músicas, havendo em complemento algumas noções de techno com pitadas de breakcore e algum espaço para incursões breves a orquestrações ditas mais normais que soam alarmantes e urgentes, como se de um estado distópico se tratasse. Acto contínuo, é nas últimas três (“Relinquish Control”, “Captivity and Abominable Idolatry” e “The Blackest Suitors”) que reinam com maior preponderância os ambientes sci-fi vindos de um qualquer b-movie dos 1950s, ora nutrido por death metal, ora por punk (mais uma vez, nada puritano).

Tudo isto – com pompa, rebeldia e um fascínio que tem tanto de repulsivo como de atractivo – é encabeçado pelas vozes medonhas, quase cadavéricas, de Boy-G, este que a tempos cria narrativas com uma espécie de interlúdios poéticos entre os guturais autoritários, como se pode ouvir com mais exactidão em “A Valsa Libitina” e “Piedade”. Para além disto, exultar também os solos virtuosos de Boy-S, algo que é uma raridade neste estilo de música obscena mas que assenta imensamente bem, gerando um ambiente de elegância extravagante num cenário amplamente grotesco.

“Discipline” é a banda-sonora do apocalipse sexual, uma depravação sem limites, que não conhece fronteiras (aqui muito interestelares). Nesta nova era conquistada pelos Grunt, o fraque é substituído pelo uniforme em látex, o sapato de verniz dá lugar à bota rija, o ceptro será um dildo com poderes sobrenaturais e a coroa não é mais do que o sufoco de um gag que amordaça. Ásemnos erotismós.