Ao falarmos de grandes discos conceptuais como “The Wall”, “Tommy”, “Quadrophenia”, “Operation Mindcrime” ou “OK Computer”, obras intemporais nos domínios do rock e metal... Dream Theater – 20 Anos de “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”

Ao falarmos de grandes discos conceptuais como “The Wall”, “Tommy”, “Quadrophenia”, “Operation Mindcrime” ou “OK Computer”, obras intemporais nos domínios do rock e metal progressivo, não podemos deixar de ter em conta um dos discos que mudou a paisagem musical destes domínios quase no virar do século e que influenciou inúmeras bandas que hoje estão na vanguarda do estilo – o quinto disco de originais dos Dream Theater, “Metropolis Pt. 2: Scenes From a Memory”.

Muitos não deverão saber que este disco representou, exceptuando a futura saída do baterista Mike Portnoy em 2010, o momento mais marcante da carreira da banda nativa de Boston, e o ponto pivotal que garantiu a sua continuidade para o futuro. Depois do insucesso de “Falling into Infinity” de 1997, um disco no qual os Dream Theater se viram obrigados a seguir uma orientação mais comercial longe do seu estilo tradicional mais virtuoso, algo que Mike Portnoy garantiu que foi imposição da editora, ao verem-se encurralados, correndo o risco de serem abandonados pela Elektra e enfrentando a negra possibilidade do fim de carreira, o quinteto de metal progressivo decidiu optar por uma abordagem de tudo ou nada, tendo avançado para a criação de um álbum conceptual de acordo com os seus termos, sem compromissos criativos ou qualquer tipo de interferência de produtores ou compositores externos.

Esta abordagem, no panorama musical de 1998, não era vista como nada menos do que um suicídio de carreira, mas ainda assim um risco que os Dream Theater assumiram e sentiam que tinham de tomar. Apesar destas circunstâncias, o guitarrista John Petrucci admitiu que «para uma banda de rock progressivo fazer um álbum conceptual é quase um requisito obrigatório. Era algo que estávamos ansiosos para fazer». O conceito para o disco surgiu da continuidade do tema “Metropolis Pt.1 – The Miracle and the Sleeper”, uma faixa para a qual os fãs sempre pediram uma sequela, mas nunca os Dream Theater tinham projectado uma segunda parte até este ponto. O resultado acabou por ser uma obra imensamente complexa a todos os níveis, até hoje considerada por muitos o melhor disco do quinteto, cujo conceito se desenrola em torno de uma intrincada narrativa que tem como personagem principal Nicholas, um homem que, ao fazer regressão de memória, descobre que foi uma mulher chamada Victoria que foi assassinada noutra vida e que começa a sentir que não vai conseguir voltar à vida presente enquanto não resolver o mistério do seu assassinato, à medida que continua as suas sessões de hipnoterapia ao longo das 12 músicas do disco, divididas em dois actos.

“Metropolis Pt. 2” trouxe também outra mudança impactante na carreira dos Dream Theater, uma vez que foi o disco de estreia de Jordan Rudess, que se viria a tornar o teclista de maior longevidade na carreira da banda. Na altura, Derek Sherinian foi despedido, numa jogada de bastidores que deixou o teclista bastante desagradado, mas que Portnoy e Petrucci sentiram ser o melhor para o futuro do grupo. Ao contemplar recentemente a situação, Sherinian afirmou que foi «apanhado completamente desprevenido, mas nestas situações tem de ser aprender a fazer limonada com os limões que a vida te dá. Adoro o rock progressivo pela musicalidade mas em termos visuais aborrece-me até dizer chega! Queria injectar alguma atitude à Hollywood!». Ao procurarem alguém com um perfil menos orientado para a imagem e mais para o tipo de música arrojada que pretendiam criar, os Dream Theater convidaram Rudess, que por sua vez já tinha sido abordado depois da saída de Kevin Moore em “Awake” de 1995. Com um filho recém-nascido na altura, Rudess achou que a vida de estrada mais relaxada dos Dixie Dregs era mais compatível com o seu estilo de vida; porém, passados quatro anos e tendo recebido novamente o convite depois de um período de experimentação com os Liquid Tension Experiment – projecto paralelo de John Petrucci e Mike Portnoy que contava com o baixista Tony Levin (King Crimson) –, Rudess não desperdiçou a oportunidade.

O teclista trouxe aos Dream Theater toda uma nova dinâmica e uma paleta de sons que empurrou a banda para outros caminhos mais exóticos, tendo contribuído de imediato com várias ideias para a composição de algumas das músicas do disco que ainda hoje são consideradas clássicos incontornáveis. Desde a imponente combinação de abertura de “Overture 1928” e “Strange Deja Vu”, passando pelo frenesim tecnicista de épicos como “Fatal Tragedy”, “Beyond This Life” e pela insanidade das 104 mudanças de compasso de “Dance of Eternity” – seguramente uma das músicas mais tecnicamente desafiantes alguma vez gravadas pelo quinteto –, “Metropolis Pt. 2” assume-se claramente como uma das maiores obras-primas não só dos Dream Theater como do mundo do metal progressivo no geral, num disco em que a interconexão de John Petrucci, Mike Portnoy, Jordan Rudess, James LaBrie e John Myung atingiu um nível de genialidade poucas vezes igualado e nunca mais batido pela banda ao longo destes últimos 20 anos. Um disco que figurará para sempre no panteão dos melhores álbuns de metal progressivo para a história.