“Manifest” é o que o título realmente indica: um manifesto de como se pode revolucionar a música, mesmo a mais extrema e ortodoxa. ... Amaranthe “Manifest”

Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 02.10.2020
Género: metal / pop
Nota: 3.5/5

“Manifest” é o que o título realmente indica: um manifesto de como se pode revolucionar a música, mesmo a mais extrema e ortodoxa. Podendo os Amaranthe ser vistos como porta de entrada para o metal, como Limp Bizkit, Linkin Park ou Papa Roach foram em 2000, isso só pode ser acolhido como motivo de orgulho para todas e todos nós.

Metal e punk surgiram como um movimento rebelde, que destoa do plano geral e que sai da norma, mas ao longo dos tempos essa norma tornou-se, em certa medida, ortodoxia exagerada e cega, havendo, por vezes, um ódio por aquilo que não é metal, que não é riff pesado e que não é ritmo blast-beat. Facto: por mais que o nu-metal seja olhado de soslaio, o que é certo é que foi esse subgénero que começou a devolver o metal às lides comerciais e de 2000 em diante o nosso amado estilo de música renasceu. Há mais fãs de black metal porque as novas bandas revolucionaram o género ao trocarem dissonância, velocidade e ódio por melodias atmosféricas e pensamentos existencialistas, o death metal está melhor do que nunca com jovens bandas a beberem dos 1990s mas, ao mesmo tempo, a darem um aroma contemporâneo e o metal melódico começou a introduzir electrónica.

Tudo isto tem acontecido desde há cerca de uma década, e nesse grupo de novos criadores sem medo aparecem bandas como Sonic Syndicate (agora The Unguided) ou Amaranthe. Enquanto os primeiros misturaram os riffs de At the Gates e In Flames com os refrãos melódicos de Killswitch Engage e com elementos electrónicos, os segundos pegaram na energia do power metal e tornaram-o ainda mais cativante com três diferentes vocalistas e paredes sonoras compostas por arranjos pop. A realidade, quer se goste ou não, é que isso colou e há cada vez mais bandas fazê-lo e a alcançar sucesso – Babymetal, Leprous, Voyager, Metalite ou Amahiru são bons exemplos. Os milhões de views no YouTube ou no Spotify falam por si – Amaranthe, por exemplo, tem à data deste artigo cerca de 27 milhões de views no vídeo de “The Nexus”. Gostar de um bom sintetizador não faz de ti menos fiel ao metal – Fenriz (Darkthrone) já admitiu que gosta de trance music e Teloch (Mayhem) tem em Bergeton o seu projecto synthwave. Dois dos mais extremos criadores de metal mostram assim que dogmas não são bem-vindos.

Mas estamos aqui para falar de “Manifest”, o novo álbum dos suecos Amaranthe que, novamente, nos oferecem o seu metal melódico embebido em camadas de música electrónica e paisagens pop. Uma coisa é certa e perceptível desde o início da carreira da banda: é impossível ficarmos tristes ou em baixo quando Amaranthe começa a tocar. Não é metal positivista, até porque o lado negro da vida também é abordado, mas é duma energia contagiante sem igual. Estudiosos da música, Olof Mörck sabe como criar um bom riff cheio e intenso que soe luzidio, assim como solos de alto calibre, mas será o trio vocal que, ao nível orgânico, mais destaque ganha. Enquanto Henrik Englund Wilhelmsson nos conduz a uns In Flames com os seus berros musculados, Nils Molin encaixa-se no metal melódico de uns Evergrey e Elize Ryd é a voz feminina multifacetada que nos insere nos campos da pop. Parcela a parcela, no cômputo geral tudo isto é introduzido num caldeirão de criatividade destemida suportada por batidas metal vs rock vs pop, guitarras metal e estratos de arranjos synthpop e electro que dão uma cor garrida à música dos Amaranthe.

Sempre atentos à forma como o mundo gira, os Amaranthe, apesar da sonoridade, não são uma banda pop ao nível lírico – claro que os sentimentos contam, mas não os bacocos. A crise ambiental não é novidade na carreira dos suecos, voltando-se a abordar a temática com “Do or Die”, faixa que fecha o álbum e que tem a particularidade de se tornar num pequeno regresso de Angela Gossow, antiga vocalista de Arch Enemy e actual agente. Por seu turno, “Viral”, que era inicialmente indicada para criticar as redes sociais, tornou-se num hino que também insere a pandemia da COVID-19 nos seus versos e “Archangel” interpreta o poema “Paraíso Perdido” de John Milton (1608-1674). Depois há ainda espaço para a balada “Crystalline” e para um momento sem fronteiras em “BOOM!” em que se ouvem breakdowns à deathcore e um debitar de palavras quase à rap.

“Manifest” é o que o título realmente indica: um manifesto de como se pode revolucionar a música, mesmo a mais extrema e ortodoxa. Ainda não sabemos se é efémero ou não, e a pandemia não ajuda muito a essa conclusão, mas a verdade é que os Amaranthe já lançaram seis discos em nove anos, estão cada vez mais populares e quebram barreiras atrás de barreiras. Podendo ser vistos como porta de entrada para o metal, como Limp Bizkit, Linkin Park ou Papa Roach foram em 2000, isso só pode ser acolhido como motivo de orgulho para todas e todos nós.