Realizado por Rubika Shah, “White Riot” (2019, 2020) é um documentário que nos conta a história dos anos mais efervescentes da organização política (sem... White Riot: quando o punk inglês lutou contra os nazis

Realizado por Rubika Shah, “White Riot” (2019, 2020) é um documentário que nos conta a história dos anos mais efervescentes da organização política (sem concorrer a eleições) e cultural Rock Against Racism (RAR), fundada em 1976 em Inglaterra.

Com um título sacado de uma música dos The Clash (que, como se sabe, era irónico, assim como “Guilty of Being White” dos Minor Threat), o documentário, para além da bonita estética com recortes de jornais da época montados digitalmente sem perderem nuances punk e com imagens restauradas, é-nos principalmente narrado, via entrevista, por Red Saunders (fundador do movimento), mas também por alguns dos seus colaboradores, de fotógrafos a tipógrafos, músicos e outros activistas, que fizeram parte não só da RAR mas também da fanzine Temporary Hoarding, publicação que é muito requisitada durante o filme, tanto para recolhimento de textos como devido à importância que teve na imprensa underground no Reino Unido.

Inicialmente apenas uma ideia, o movimento RAR partiu para a prática quando Eric Clapton apoiou publicamente as ideias anti-imigração do deputado e posteriormente ministro conservador Enoch Powell – primeiro com uma carta para a revista NME, depois com concertos. Declarações inflamatórias e de simpatia para com fascismo por parte de David Bowie e Rod Stewart também incitaram Red Saunders e todo o seu grupo a fazerem a luta contra o racismo com ainda mais fervor.

Numa altura em que, em meados dos anos 1970, ocorriam cada vez mais ataques e assaltos de índole racista contra negros e asiáticos (principalmente indianos e paquistaneses) e o partido de extrema-direita National Front ganhava simpatizantes (incluindo no circuito punk), as barricadas da RAR não se montavam só em concertos mas também nas ruas, em contra-manifestações perante o grupo encabeçado por Martin Webster.

As razões eram simples: o FMI tinha acabado de entrar no Reino Unido, cortes estavam a ser feitos aos mais carenciados e a National Front punha as culpas nos imigrantes… Onde já vimos isto? Tantas vezes e tão perto de nós… Ironia das ironias: a Grã-Bretanha era apenas, ou tinha sido, o maior império global que não olhava a cores de pele ou culturas diversas para implementar as suas leis e ordens, e muitos desses imigrantes (alguns já de segunda e terceira geração) eram simplesmente fruto do desbravar imperial de Sua Majestade. Do outro lado, a RAR, e outras organizações como a Anti Nazi League, defendiam precisamente o oposto: seres humanos não podem ser perseguidos por terem uma tez diferente do branco europeu. E como também já se viu ao longo dos anos, seja nos EUA ou até em Portugal, o tratamento policial era bastante diferente: de um lado escoltavam a extrema-direita em segurança, do outro espancavam os antifascistas e as minorias raciais.

Numa passada nem sempre acelerada, algo até comum à calma e suavidade com que os intervenientes partilham as suas memórias, o ponto alto do documentário, e da própria RAR, acontece quando nos são oferecidas as palavras e as imagens do dia 30 de Abril de 1978, data em que se marchou desde Trafalgar Square até ao Victoria Park (em East London, forte reduto da National Front) para um concerto com nomes como Steel Pulse, Tom Robinson Band e The Clash, estes que actuaram com Jimmy Pursey, dos Sham 69, para que se sanassem as acusações de que o vocalista poderia ter ligações ao fascismo. À frente de cerca de 100000 pessoas, Red Saunders exclamou: «This ain’t no Woodstock, this is the Carnival against the fucking nazis!»

Documentário obrigatório para quem adora absorver o máximo de informação fidedigna, e neste caso em especial sobre a cultura punk, “White Riot”, ao longo de cerca de 80 minutos, leva-nos de volta a 1976 e 1978, mas sempre com o coçar atrás da orelha de que pode muito bem ser 2020. E, da mesma forma que documenta uma fase da política e cultura europeias, mostra também que a música pode ser politizada e um veículo de causas que mudem o mundo para um lugar mais tolerante, amigável, apaziguador e unido. «Black & White unite & fight!»

“White Riot” faz parte do cartaz do festival de cinema Porto/Post/Doc. Estará exibição no dia 21 de Novembro, às 20h15, no Passos Manuel (Coliseu do Porto). Sabe mais no website oficial e no Facebook. Podes ver o documentário online AQUI.