Se “O Exorcista” e “Midsommar” tivessem um filho ilegítimo, a sonoplastia e o artwork resultariam precisamente nisto. Vile Creature “Glory, Glory! Apathy Took Helm!”

Editora: Prosthetic Records
Data de lançamento: 19.06.2020
Género: sludge/doom metal
Nota: 4/5

Se “O Exorcista” e “Midsommar” tivessem um filho ilegítimo, a sonoplastia e o artwork resultariam precisamente nisto.

A visibilidade que o doom metal ganhou nos últimos anos já se tornou um facto indiscutível, sobretudo quando se fala deste tópico no contexto do stoner/doom. Torna-se curioso como um dos géneros de música extrema inclui entre as suas tão distintas vertentes algumas das sonoridades mais sobre-exploradas, mas também mal-amadas. Neste grupo de mal-amados, inclui-se o funeral doom e o sludge, tornando ainda mais surpreendente que alguma banda consiga reunir de forma coesa os principais componentes de ambos.

Em “Glory, Glory! Apathy Took Helm!”, este duo canadiano, que se apresenta como angry queer gloom cult, oferece-nos a referida mistura com particular subtileza, recorrendo a tons mais densos e insofríveis, onde também se encaixa a palavra blackened, para nos transmitir uma mensagem não só positiva, mas sobretudo relevante. Caso o título do álbum e a descrição da banda não falem por si, relembramos que este duo se insere na lista dos que nos relembram de que a música nunca existiu, nem poderá existir, em ambiente inócuo (aka apolítico). O compromisso assenta no combate ao capitalismo, fascismo e ódio… mas também à apatia pessoal e política.

Identificam-se, ao longo de 43 minutos, as influências de Neurosis, Eyehategod e Isis, mas não serão estes os únicos factores a ter em conta quando se junta Vile Creature ao grupo dos irrotuláveis. A distorção da guitarra de KW, se é que não lhe deveríamos chamar baixo, é responsável pela manutenção de uma atmosfera com tanto de claustrofóbica como de drone-y, enquanto a bateria de Vic nos guia através de um slow crescendo pejado de contrastes, cuidadosamente equilibrado entre momentos hipnóticos e cáusticos. As texturas acumuladas estão convenientemente divididas entre o lado A, com três temas mais convencionais mas nem por isso menos emocionais, e o lado B, onde encontramos os dois temas que deram nome a este álbum. A transição inclui uma nota de aviso entregue por KW, para que se troque de lado, também inicialmente pensado para o formato de lançamento do álbum, e é então no lado B que nos confrontamos com a forma final de Vile Creature.

Se “O Exorcista” e “Midsommar” tivessem um filho ilegítimo, a sonoplastia e o artwork resultariam precisamente nisto. O desespero das vozes assume um compasso marcante ao longo de todo o disco, mas é a reunião desta dinâmica com a voz de Laurel Minnes e do seu coro Minuscule, e os arranjos de teclas de Tanya Byrnes (Bismuth), que permite ao registo assumir novas dimensões. Cinemático e intenso, melódico e dreamy, consegue rapidamente tornar-se digno de qualquer banda-sonora de filme. Palpável, memorável. Não é por acaso que se vê este trabalho ser lançado também em versão VHS – leram bem, Video Home System –, em que colaboram com Andrew Notsch para que se alinhem os compostos visuais adequados com as respectivas composições orgânicas. A mensagem é clara, o sentimento também.