Parece que foi numa outra vida que os britânicos Venom cunharam o termo “black metal” e emergiam como uma das bandas mais influentes da... “In Nomine Satanas”: A relevância dos Venom em 2019

Parece que foi numa outra vida que os britânicos Venom cunharam o termo “black metal” e emergiam como uma das bandas mais influentes da chamada New Wave Of British Heavy Metal. Chegados a 2019, a banda de Cronos ostenta 40 anos de história e um percurso marcado por mudanças radicais ao nível da sonoridade e da formação.

Fotografia: Ester Segarra

O estreante “Welcome to Hell”, de 1981, atribuiria aos Venom uma posição respeitável dentro da cena metal, tal foi o impacto e o domínio que teria na fundação do metal extremo, com as bases para o thrash, death e black metal a serem aí lançadas. “Welcome to Hell” seria igualmente influente na composição do seu sucessor, “Black Metal” (1982), que assinalava a chegada de uma nova geração. Com o heavy metal britânico a produzir bandas que aos olhos de Cronos (voz/baixo) eram vistas como versões mais jovens de Saxon, Judas Priest e Iron Maiden, os Venom adoptavam como missão encontrar uma sonoridade que fosse diferente de tudo o resto, dando início a uma jornada em busca da autenticidade musical. A fórmula passou por simplificar a estrutura do heavy metal até só deixar à vista a ferocidade e a agressividade patente no género, com o shredding das guitarras a criar a atmosfera caótica que viria a ser mais tarde reformulada por Euronymous, dos noruegueses Mayhem, e a voz de Cronos a posicionar-se cada vez mais perto do registo atormentado que viria a defini-lo.

Dois anos depois, e já com as bases do metal extremo lançadas, “At War with Satan” dava seguimento à revolução que os Venom traziam ao panorama da música pesada, com um metal extremo bem mais afinado e com os 20 minutos do inovador tema-título a ocupar o lado A do disco. Com o estatuto de lendas assegurado, os Venom escorregariam pela primeira vez com discos como “Possessed” (1985) e “Calm Before the Storm” (1987), alienando os fãs com uma sonoridade cliché e com a identidade satânica a ficar aquém do que se esperava. O guitarrista Jeff “Mantas” Dunn deixava a banda durante o interregno dos dois álbuns e regressava para a edição de “Prime Evil”, em 1989, que dava sinais de ser uma aposta ganha e colocava os Venom de volta ao ataque… Mas sem Cronos. Para o seu lugar, entrava Tony “Demolition Man” Dolan, colaboração que estender-se-ia por mais dois álbuns, até 1992, e futuramente com os Venom Inc..

Até 2006, e depois de muita turbulência, o catálogo dos Venom consistiu maioritariamente de compilações que pareciam ser intermináveis, álbuns ao vivo e regravações das glórias do passado, com o clássico trio composto por Cronos, Mantas e Abaddon (bateria) a reunir-se entretanto em 1995 para uma tour europeia e para a edição de “Cast in Stone” dois anos depois. Este seria o último trabalho com a formação original, e a turbulência que havia agitado o mundo dos Venom no passado voltava para os assombrar em definitivo.

Outrora profetas do metal extremo, os Venom são hoje um monstro bastante diferente. A manter a mesma formação desde o disco de 2011, “Fallen Angels” (o seu 13º), os Venom de Cronos denunciam a ausência do contributo de Mantas enquanto compositor, conseguindo ainda assim abrir um novo capítulo numa história errática mas imortal. Através da sua música, os Venom deram-nos heavy, black, death, thrash e speed metal, e ainda que não tenham conseguido voltar aos tempos majestosos dos três primeiros discos, a formação actual tem vindo a conseguir produzir trabalhos sólidos o suficiente para manter o legado vivo. É uma banda que nunca desistiu de evoluir; afinal de contas, eles próprios beberam influências de clássicos da década de 1970 como Queen, David Bowie ou Rush. Nunca quiseram ser uma versão reduzida dos Black Sabbath ou dos Judas Priest e conceberam algo único até então.

Quarenta anos depois, em 2019, a instituição que é Venom prova que nem só as bandas vivem das velhas glórias, com a constante procura dos fãs a justificar o mercado das reedições e outras edições de coleccionador, assim como a afluência aos festivais para ouvirem os temas com que cresceram. Depois da edição da boxed set “In Nomine Satanas” em Abril passado, hoje sai uma versão mais reduzida em duplo vinil, onde os temas de uma outra geração agora remasterizados voltam a lembrar-nos da importância que o colectivo teve para o metal.

“In Nomine Satanas”, assim como outros lançamentos dos Venom, pode ser adquirido em Portugal através da Rastilho. O último longa-duração da banda recebeu como título “Storm the Gates” e foi editado em 2018 pela Spinefarm Records. O álbum também pode ser adquirido nos formatos CD e vinil através da Rastilho.