“Divine Intervention”, o sexto disco de originais dos Slayer foi o primeiro álbum da banda a ser lançado depois do trio que marcou a... Slayer “Divine Intervention”: fúria cirúrgica

“Divine Intervention”, o sexto disco de originais dos Slayer foi o primeiro álbum da banda a ser lançado depois do trio que marcou a era dourada da instituição do thrash metal norte-americana, um trio do qual fizeram parte clássicos incontornáveis como “Reign in Blood” (1986), South of Heaven” (1988) e “Seasons in the Abyss” (1990). “Divine Intervention” chegou às lojas no dia 27 de Setembro de 1994, quatro anos após o lançamento de “Seasons…”, tendo marcado o maior gap entre álbuns de estúdio até ao momento para os Slayer e é um disco que, por entre outras razões, nunca será esquecido na discografia da banda por ter sido o primeiro sem a presença do icónico baterista Dave Lombardo.

As razões que levaram à primeira saída de Dave Lombardo dos Slayer remontam a desentendimentos gerados em 1992 quando o baterista se ausentou da estrada durante duas semanas, na véspera de datas importantes, para estar presente no nascimento do seu primeiro filho. De acordo com o vocalista/baixista Tom Araya, a falta de compromisso nos ensaios da banda foi algo que também criou problemas a Lombardo: «Primeiro, encontrávamo-nos todos no bar e depois íamos para os ensaios. Algumas vezes nem chegávamos a ir para os ensaios e o Dave não gostava disso. Ele queria ensaiar, mas nós nem sempre conseguíamos sair do bar!» A desmotivação de Lombardo começava também a ser evidente durante os concertos, algo que era notório para o guitarrista Kerry King: «Se estás nos Slayer tens de fazer sacrifícios. Tens de estar a 100%. O Dave aparecia nos concertos e lixava tudo ao não tocar tão bem como podia tocar. Ele não estava ao nível do que queríamos.»

«Três músicos e um baterista não é uma banda. Nunca melhorou, e à medida que os anos avançaram só ficou pior!», confessou Araya. «Quanto tempo mais tínhamos de aturar isto? Tomámos uma decisão e decidimos avançar para os próximos 10 anos da banda.» Essa decisão recaiu obviamente na substituição permanente de Lombardo pelo ex-baterista de Forbidden e Testament, Paul Bostaph, cuja estreia com a banda no festival Monsters of Rock em 1992 fez todos os fãs pensar que Lombardo ainda não tinha saído dos Slayer à conta da precisão e ferocidade do baterista em palco. Tom Araya comentou em relação a Bostaph: «A resposta dos fãs foi incrível! O Paul não teve problemas nenhuns em adaptar-se à banda. É um tipo articulado e não é unidimensional. Ele entra nas discussões e quer discutir todos os problemas. Isso é importante!»

Os Slayer entraram no estúdio Oceanway em Los Angeles, com um line-up renovado e com o produtor Toby Wright, tendo já escrito a maioria do disco antes do começo das gravações. O resultado acabou por ser aquele que pode ser encarado não só como um dos discos mais rápidos e agressivos dos Slayer, assim como o disco mais tecnicamente desafiante de toda a carreira da banda, algo notório pelo facto de todas as músicas, à excepção de “213”, terem sido escritas por inteiro ou em parte por Kerry King, cujo estilo de escrita sempre assentou em composições mais intrincadas e tecnicamente complexas do que as de Jeff Hanneman. Reflectindo no material de “Divine…”, Tom Araya disse o seguinte: «Uma das razões pelas quais o material é tão rápido tem a ver com o Kerry. Ele compôs praticamente todo o material. O Kerry tem uma tendência para compor músicas mais viradas para o punk, muito rápidas e agressivas. Quando o Kerry trabalha na maior parte do material, tende sempre a sair um pouco mais rápido do que o normal.»

Quase como uma demonstração de força e de vida nova na banda, o álbum começa com “Killing Fields”, tema no qual Paul Bostaph se apresenta com um portentoso solo de bateria a abrir as hostilidades, e o que ouvimos nos primeiros segundos desta música é um exemplo perfeito de tudo o que se segue nos restantes 36 minutos de “Divine Intervention”: um assalto brutal aos sentidos com um festival de riffs técnicos e velozes executados magistralmente pelo duo perfeitamente interligado de guitarras de Kerry King e Jeff Hanneman. Foi também a primeira vez que Tom Araya escolheu cantar num estilo vocal diferente: «As vozes são muito agressivas e gritadas. Em algumas músicas optei pelo estilo do “Seasons”, e esse é o tipo de canto que quero manter nos Slayer, mas tenho pequenos efeitos na voz em todas as músicas… É um tipo de vocalização com compressão e alguma distorção, muito semelhante ao que os U2 fizeram no “Zooropa”.»

O estilo vocal que Araya introduziu neste disco, e que se viria a manter no futuro dos Slayer, manifestou-se com raiva em músicas como “Sex, Murder, Art”, um festim de riffs técnicos que serve de pano de fundo a uma manifestação de uma relação tortuosa na qual existe um prazer sádico em infligir dor, na devastadora “Dittohead”, uma das músicas mais rápidas de sempre dos Slayer que representa simultaneamente um ataque à permissividade do sistema judicial dos Estados Unidos em relação à condenação de homicidas e também noutros disparos de fúria e energia, como em “Circle of Beliefs”, no single “Serenity in Murder” e na avassaladora faixa final “Mind Control”.

“Divine Intervention” é também um disco que introduziu outra novidade na altura, na forma do que poderá ser visto como o mais perto que os Slayer alguma vez estiveram de fazer uma música de amor. “213”, a única faixa composta inteiramente por Jeff Hanneman, tem no seu título uma referência ao número do apartamento do infame serial-killer americano Jeffrey Dahmer, local para o qual ele levou e torturou várias das suas vitimas. Há uma clara diferença entre “213” e o restante material no disco, não só por ser a música de compasso menos acelerado, mas também por ser a faixa do disco com a maior infusão de melodias e riffs arrepiantes, no estilo do que Jeff Hanneman fazia no seu melhor ao compor para os Slayer.

Ao falar sobre os temas de “Divine Intervention”, Tom Araya comentou: «Muitas das músicas foram inspiradas simplesmente por ver a TV da altura. E também por odiar a vida! [risos] É um álbum que lida com a realidade de uma forma brutalmente extrema e, seguindo a toada conceptual de alguns dos temas já apresentados em “Seasons…”, foca-se ainda mais no exercício desmesurado de poder por parte do governo e na exploração das lacunas da sociedade contemporânea, visíveis entre os anos de 1990 e 1994, deixando cada vez mais para trás o foco no satanismo que era prevalecente nos primeiros discos da banda. No entanto, também fiéis a si mesmos, músicas como “SS-3”, e as já abordadas “213” e “Sex, Murder Art”, pintam igualmente retratos de mentes criminosas distorcidas, à semelhança do que os Slayer já nos tinham trazido em clássicos como “Angel of Death” ou mesmo “Dead Skin Mask”.

Toda a ênfase na exposição de uma realidade dura e crua tornou “Divine Intervention” um disco difícil de vender por parte da editora, especialmente num período em que o metal tradicional não estava nos seus melhores dias, mas este foi também outro aspecto em que “Divine…” representou um ponto de viragem no sentido em que abriu um novo e importante precedente para a independência criativa dos Slayer. De acordo com Tom Araya, «quando fizemos o “Divine Intervention”, foi a última vez que tivemos uma reunião com uma editora em que nos sentámos e lhes demos ouvidos em relação ao que queriam fazer do disco… Eles disseram-nos: ‘precisamos de um hit!’, e nós dissemos: ‘têm aqui onze músicas, e se não consegues encontrar um hit, então estão lixados porque isto é aquilo que vos vamos dar’. Dissemos mesmo: ‘Escrevam vocês o hit e nós gravamos.’ Isto calou o gajo e foi a última vez que tivemos reuniões destas.»

A promoção do disco não foi fácil e Tom Araya queixou-se deste facto na altura: «Ninguém está a ajudar. A maior parte das vezes temos de pedir que escrevam uma peça sobre nós. Para a imprensa, rádio e MTV não existimos. Tivemos de confiar no passa-palavra através dos fãs nas ruas, que continuam a ser a nossa audiência mais forte.» No entanto, apesar de a banda ter tido pouca promoção nos meios convencionais, foram justamente os fãs que fizeram com que “Divine Intervention” fosse o primeiro disco dos Slayer a chegar ao top 10 norte-americano. A controvérsia gerada em torno dos temas “SS-3” (relativo à ideologia nazi), “Serenity in Murder”, “213” e “Mind Control” fez com que “Divine Intervention” se juntasse ao infame lote dos discos banidos na Alemanha, mas é fácil de ver, na perspectiva dos dias de hoje, que toda a brutalidade e extremismo presentes num disco no qual os Slayer encaravam todos estes temas de um ponto de vista artístico, ajudou a que, no fim do seu ciclo de venda, este tivesse movimentado mais de 400.000 cópias só nos Estados Unidos.

“Divine Intervention” foi um disco cuja importância não pode ser subestimada. Representa a primeira grande afirmação daquele que viria a ser o modus operandi dos Slayer; ou seja, a recusa em mudar radicalmente de estilo, apesar dos tempos, ao contrário do que contemporâneos como Metallica e Megadeth fizeram nos anos 1990 para sobreviverem e continuarem relevantes na era do grunge, metal/rock alternativo e no surgimento do nu-metal. Esta decisão resultou também na inteligente apropriação de um espaço deixado vago pelos Metallica já no seu disco homónimo de 1991, transformando os Slayer e os mais recentes Pantera nos mais fortes candidatos a assumirem o trono do metal agressivo em meados da década.

Alex Henderson, do All Music, descreveu esta situação da melhor forma possível: «Em vez de fazerem algo como imitarem os Nirvana, Pearl Jam, Nine Inch Nails ou os Ministry, os Slayer recusaram-se a soar a algo mais para além de Slayer. Responderam a este novo ambiente simplesmente a tentarem ser a banda mais pesada que podiam ser.» Tom Araya também comentou na altura: «Os Slayer serão sempre os Slayer. Não escrevemos hits. Não escrevemos material para a rádio. Escrevemos Slayer. Os Slayer serão sempre rápidos e pesados. Slayer vão sempre ser Slayer!»

Por fim, embora muitos afirmem que a era clássica de Slayer acabou no “Seasons in the Abyss”, podemos dizer que foi muito possivelmente na altura do “Divine Intervention” que lançaram o último disco mais impactante da sua carreira. “God Hates Us All”, de 2001, também teve a sua quota-parte de controvérsia aquando do seu lançamento no dia 11 de Setembro de 2001 e foi também um álbum que viu os Slayer a enveredarem por sonoridades ainda mais pesadas, mas, olhando para trás, com a possibilidade de ver este disco já no retrovisor e bem ao longe, nenhum outro conseguiu igualar a ferocidade de “Reign in Blood” contida num tão curto espaço de tempo como “Divine Intervention”. As palavras de Agosto de 1994 de Tom Araya continuam a ressoar ainda hoje: «Este disco é bastante intenso. É como o “Reign in Blood” de volta à estaca zero. Descobrimos que todas as outras bandas andaram preguiçosas e estava mais do que na altura de lhes dar a provar um pouco do verdadeiro remédio!»

Kerry King e Tom Araya expressaram recentemente alguma insatisfação no que diz respeito aos aspectos técnicos do som do disco, com King afirmando que «deveria ter sido prestada mais atenção à mistura» e Araya a referir que, de toda a discografia da banda, «é o único que não me importava de remasterizar». No entanto, continua a ser o álbum mais complexo de Slayer e, acima de tudo, um quadro infernal. Uma pintura de violência sonora representando o melhor equilíbrio entre técnica, peso e velocidade que Araya, King, Hanneman e Bostaph foram capazes de atingir, e que até hoje nunca mais voltaram a replicar. Será para sempre relembrado como sendo possivelmente, e contrariando a consagração da santíssima (ou profana…) trindade, o último grande disco de Slayer e como um clássico cujo som e temas se manterão actuais por anos vindouros.