Uma brutal melancolia que se instala nos doces acordes de “The Beauty of Agony”. Mercury Circle “The Dawn of Vitriol” EP

Editora: Noble Demon
Data de lançamento: 14.08.2020
Género: dark metal / electro / ambient
Nota: 4.5/5

Uma brutal melancolia que se instala nos doces acordes de “The Beauty of Agony”.

Inquietação. Ao ouvir repetidamente esta mão-cheia de temas que compõe a estreia deste projecto finlandês, com membros dos Swallow the Sun, Hanging Garden, To/Die/For e Sleep of Monsters, é o sentimento que se instala. Composições maduras mas intrincadas, que não são metal mas revestem-se de uma negritude de meter respeito a muita ode ao abismo, acabam por soar a original. No entanto, rascunhamos num papel uma série de projectos que poderiam servir de fonte. Mas é bom demais para parecer uma manta de retalhos. No fundo, é tudo melancolia, uma brutal melancolia que se instala nos doces acordes de “The Beauty of Agony” ou através das malhas mais duras que os colocam em terrenos dos Swallow the Sun, como em “The Last Fall”. Ou ainda o exercício puramente electro-minimalista-ambient de “Black Flags”, com um refrão tão cantarolável, mas ao mesmo tempo tão… inquietante… ora aí está.

Não existem temas iguais, são todas composições completamente distintas, com abordagens totalmente diferentes, mas soam a homogéneo, o que se torna revelador da qualidade de composição de Jaani Peuhu, que consegue cruzar diferentes linguagens musicais e conferir ao resultado final uma graciosidade relevante. Há pormenores a descobrir a cada audição, nas várias camadas que perfazem cada uma das músicas que servem de base à voz de Peuhu, ali sempre num registo que não chega a ser doce, conseguindo escapar ao tortuoso. Sóbrio, essencialmente, sem precisar de ser exuberante, com letras que encaixam muito bem em toda a imagética a que se propõe “The Dawn of Vitriol”.

Se um álbum está já na calha para o final deste ano, podemos dizer que a parada encontra-se bastante alta. Este EP trouxe novidade, trouxe algo capaz de nos fazer arrebitar a orelha. Há algo de fora-da-caixa, num panorama saturado com tantos lançamentos a cada semana que passa. Não é preciso berraria, peso monolítico, ultra-tecnicismo ou ir na onda do momento. Se há virtude em “The Dawn of Vitriol” é nisso mesmo: ser diferente. Horizontes amplos. Mesmo carregados da escuridão que lemos nos versos de “The Beauty of Agony”: «These walls breathe loss / Memories / A void that grieves / Stuck in replay». Sim, replay, de forma intensa.