Para um concerto que começou às 19:30 de uma segunda-feira, estranhou-se, mas positivamente, a quantidade de pessoas que já estavam a ver os Silver... Moonspell + Rotting Christ + Silver Dust (04.11.2019 – Porto)

Para um concerto que começou às 19:30 de uma segunda-feira, estranhou-se, mas positivamente, a quantidade de pessoas que já estavam a ver os Silver Dust. Assim, a sala grande do Hard Club foi recebendo cada vez mais público, ainda que de forma lenta, durante a actuação desta banda suíça que mistura gothic, heavy metal e alguma electrónica completada por sinfonia – portanto, ainda que o termo dark metal esteja a cair em desuso, é assim que podemos rotular o quarteto.

Suportados por uma forte componente cénica (um ecrã com interactividade predefinida) e teatral (as roupas eram oitocentistas), os Silver Dust, principalmente através do vocalista/guitarrista Lord Campbell, foram cativando a audiência nortenha. Na memória fica a reinterpretação do famoso tema principal de “Phantom Of The Opera” em que, de um lado, tínhamos o fantasma no ecrã e, do outro, Lord Campbell com uma guitarra de LEDs azuis, encenando-se assim um duelo moderno com muito shredding e electrónica em background. Outro momento a reter, que não funcionou na perfeição, passa pelos dois jump-da-fuck-up pedidos pelo frontman dos helvéticos, fazendo-nos obviamente pensar em “Spit It Out” dos Slipknot. Em suma, Silver Dust é uma banda composta por músicos competentes, mas que sem a faceta cénica facilmente perderiam o público que ainda estava a chegar e a aquecer lugar.

Regressados a Portugal, depois de terem cá estado em Fevereiro de 2018 com Carach Angren e Svart Crown, os Rotting Christ são uma daquelas bandas que é sempre bem-recebida em solo luso, e desta vez tiveram a hipótese de actuar para um maior aglomerado de pessoas em relação à última passagem. Apesar de “Heretics” (2019) ser o álbum mais recente, a setlist incidiu mais em “Κατά τον δαίμονα εαυτού” (2013), um álbum favorito do mentor Sakis Tolis, com interpretações de temas ritualistas em que se destaca “Κατά τον δαίμονα του εαυτού”, “In Yumen – Xibalba” e “Grandis Spiritus Diavolos”. “Rituals”, de 2016, também não foi esquecido através da cerimónia que é “Ἄπαγε Σατανά (Apage Satana)”. Chegada a hora de oferecerem “Societas Satanas”, tema original de Thou Art Lord, formou-se aquilo que sugeria ser uma wall of death mas que se tornou num circle-pit algo tímido que, mesmo assim, deixou uma amolgadela num dos participantes – gelo na cabeça resolveu, achamos nós. A conclusão desta visita foi obviamente composta por “Non Serviam”.

Pondo a irmandade sempre acima de tudo, os Rotting Christ de 2019 sofrem pela ausência de George Emmanuel (Lucifer’s Child) e Vagelis Karzis, ambos saídos do grupo ainda durante este ano. Quem já teve a oportunidade de ver a banda helénica em ocasiões anteriores sabe o poder que estes dois elementos forneciam à presença em palco, seja pelos portentos backing vocals ou pela postura energeticamente particular e imperial. Actualmente, os irmãos Tolis fazem-se acompanhar pelo baixista Kostas Heliotis, que ainda está à procura do seu lugar mas demonstrando muita entrega, e pelo guitarrista Giannis Kalamatas, que, se calhar, tem de deixar de pensar que é Zakk Wylde. Será, esperamos, uma questão de tempo até encontrarem a química pretendida, mas também é verdade que foi mais um excelente concerto de Rotting Christ.

Praticamente à hora definida, Fernando Ribeiro entrava em palco de chapéu à cangalheiro e lanterna em punho (não a dos afogados, mas a dos soterrados) para proferir que é sangue do nosso sangue e luz que se expande – o concerto dos Moonspell começava então com “Em Nome do Medo”. O mais recente disco de originais, “1755” (2017), seria assim revisitado ao longo de uma actuação de cerca de 90 minutos, com mais destaque para temas como “In Tremor Dei” (ao termos um impecável Ricardo Amorim a fazer de Paulo Bragança), “Ruínas” ou “Todos os Santos”, esta que foi apoiada por um crucifixo apetrechado por um laser, um artefacto que serviu para substituir “Herr Spiegelmann”, uma composição que, apesar de tudo, não era, de facto, esperada no alinhamento. Como os Moonspell nos têm habituado, durante a primeira fase dos seus concertos há a habitual incursão a “Irreligious” (1996), em que vamos do tédio de ver passar a vida com “Opium” em alusão a Fernando Pessoa aos ritos de Aleister Crowley em “Awake”. “Sin/Pecado” (1998), que terá reedição em Dezembro próximo, foi relembrado com “Abysmo”, “Night Eternal” com o seu tema-título, “Extinct” (2015) com “Breathe (Until We Are No More)” e “The Antidote” com o êxito “Everything Invaded”, podendo o Porto testemunhar o belíssimo solo de guitarra de Ricardo Amorim. Acto contínuo, os elogios ao público do norte por parte de Fernando Ribeiro foram uma constante, tendo sempre em conta que se tratava de uma segunda-feira. Cada vez mais próximos do fim, regressou-se ao passado sempre querido com “Mephisto” e “Vampiria”, esta que merecia aquele grito de desespero com mais afinco e convicção.

Brincando com a atitude rock n’ roll, o vocalista dos Moonspell acabaria por admitir – sem espanto – que depois de “Alma Mater” a banda iria sair e voltar a entrar. Assim, o backing-drop com as ruínas do Convento do Carmo iluminar-se-ia de vermelho e verde para se entoar o hino não-oficial de Portugal que, por momentos, foi roubado por um pedido de casamento no meio da plateia. Sem espalhafato, uma jovem adulta ajoelha-se, e, pensando nós que se tratava de um qualquer objecto perdido, era afinal a colocação do anel de noivado no dedo da companheira – a prova de que o metal é de toda a gente e para toda a gente!

Esperado como sempre, os uivos ouviram-se na última e usualmente intensa “Full Moon Madness”. Em 2019 já não há muito para relatar sobre este incontornável momento num espectáculo de Moonspell: o fim é sempre emotivo com um Fernando Ribeiro a auxiliar Mike Gaspar na bateria e Ricardo Amorim a solar a sua guitarra de maneira emocionante à frente e no meio do palco.

Sempre em ascensão, os Moonspell provaram mais uma vez por que são a maior banda metal portuguesa – não só demonstram uma categoria de elevado grau como ainda foram capazes de encher o Hard Club a uma segunda-feira com um concerto que faz parte de uma gigantesca digressão de 50 datas. Ainda faltam mais de 30… Haja força!