A história de "Thrash Killing Machine" dos Pitch Black. Pitch Black “Thrash Killing Machine”: irredutíveis thrashers, a história do álbum
Pitch Black na era de “Thrash Killing Machine” (Foto: André Henriques, cortesia da banda)

Formados em 2001, para contarmos a história dos primeiros anos de Pitch Black temos de recuar até 1995 quando apareceram os Withering. Em 1996, Ricardo Rocha (voz), Álvaro Fernandes (guitarra), Pedro Vieira (guitarra), Ricardo Barbosa (baixo) e João (bateria) gravaram e lançaram a primeira maquete “Another Reality”, seguindo-se mais registos do género, incluindo ensaios e concertos, sendo que a “Promo Tape ’98” deverá ser o título mais evidenciado nestes breves anos de existência.

Os Withering apresentavam muito death metal nas guitarras e algum alt-metal (aquele que vinha dos EUA) nas vozes, estando a banda ainda pouco focada naquilo que seria realmente o thrash metal dos futuros Pitch Black. «O nosso percurso inicial foi pautado por incertezas dada a falta de maturidade e inexperiência», recorda Álvaro Fernandes à Metal Hammer Portugal. «Dá a impressão de que não sabíamos muito bem se tocar thrash metal ou death metal. As nossas principais influências na altura eram Sepultura, RAMP, W.C. Noise, Fear Factory, e depois o resultado era uma mistura de todas essas influências. Éramos novos e inexperientes.»

Em 1999 dão-se grandes mudanças na vida dos nortenhos com os Withering a desmantelarem-se aos poucos. «Ficámos sem o nosso vocalista e um dos fundadores da banda. Vimo-nos forçados a procurar um novo», começa. «Entretanto, também ficamos sem o nosso guitarrista Pedro e, mais tarde, sem o baterista João. Algo tinha de ser feito, e, depois de encontrarmos os devidos substitutos, decidimos fazer uma reestruturação. O novo line-up abriu outros horizontes e começámos a definir muito melhor a nossa direcção musical. Depois também havia o problema do nome, que, nos finais dos anos 90, começava a ser demasiadamente conotado com sonoridades doom e black metal. Então abandonámos o nome que usávamos e foi aí que veio a mudança. Nessa altura pensámos que após uma paragem de dois anos, com uma renovação de line-up e uma sonoridade musical mais definida, faria todo o sentido termos um novo nome. A banda sempre foi a mesma, apenas mudámos o nome.»

De 1999 a 2001, pouco se soube de Álvaro Fernandes & Cia. no que diz respeito a bandas e os primeiros anos de Pitch Black não foram muito diferentes de Withering em relação a lançamentos – uma maquete em 2002 e um single em 2003. Mas o caldeirão já estava a começar a aquecer, o fogo e a lenha já crepitavam. «O primeiro álbum [de Pitch Black] começou a ser gravado em 2003 e começámos a trabalhar nele quase imediatamente a seguir à entrada do Chico [Martins, bateria] e do Pedro [Gouveia, voz] por volta de 2001/2002. Se bem que, diga-se, com a incerteza do lançamento vir a ser consumado», sublinha. «Isto porque entrámos em estúdio sem editora e já com um novo guitarrista também, o Sérgio [Vilas Boas], que gravou o álbum connosco. A ideia era enviar os temas para editoras depois de terminadas as gravações e aí já tínhamos tempo para recear à vontade», diz a rir quando questionamos se tinham receio de Pitch Black estar a seguir o mesmo caminho de Withering quanto à inexistência de um longa-duração. «Mal tivemos a primeira pré-mistura, começámos a enviar material – ainda recebemos algumas respostas mas todas negativas.»

Finalmente, a 18 de Março de 2005 sai “Thrash Killing Machine”, primeiro álbum de Pitch Black e considerado por uma vasta parte da comunidade metal nacional como o melhor trabalho thrash alguma vez feito em Portugal. “Disturbing the Peace”, “Divine Not Human” e “Standards of Perfection” são três baluartes do álbum e até do próprio estilo no nosso país.

«Olho para trás com saudosismo e orgulho, claro», responde Álvaro quando perguntamos sobre o passado. «Se não me falha a memória, “Disturbing the Peace” foi o primeiro tema que compusemos, “Standards of Perfection” foi o segundo e “Divine Not Human” foi precisamente o terceiro. Creio não estar enganado. A nível pessoal foi algo bastante marcante, até porque o álbum de estreia surge 10 anos após a formação da banda. Foram 10 longos anos de batalha. Na fase de Withering gravámos duas demo-tapes nos estúdios Rec N’ Roll, lançámos também uma demo ao vivo no bar Palha D’Aço do Porto, umas rehearsal-tapes e ainda figurámos em bastantes compilações em cassete e CD. No entanto, passámos todo esse tempo sem conseguir uma editora – inclusive tivemos uma ou duas promessas que nunca se concretizaram. Na altura era impensável suportarmos uma edição auto-financiada de um álbum. Nem para gravar num estúdio tínhamos dinheiro quase, quanto mais. Claro que 10 anos depois já era diferente. Percebemos que se ninguém editasse o nosso trabalho, cabia a nós mesmos fazê-lo. Felizmente encontrámos a Recital. E, claro, é também um orgulho ter um álbum nosso tão bem-recebido e ser considerado um marco importante na cena musical portuguesa. Isso era algo que nunca esperávamos.»

Naqueles primeiros anos do novo milénio, a Internet, com todas as suas plataformas e softwares, ainda não era o oceano de possibilidades que é hoje. E uma entidade importante na cena nacional foi a Recital Records, que editou precisamente “Thrash Killing Machine”. Álvaro é peremptório sobre o assunto: «Penso que uma boa parte do público não tem noção do quanto hoje todos temos a agradecer à Recital. Não por ignorância, claro, mas porque não estão dentro do negócio ou não têm noção do que se passa por trás. A Recital foi a primeira editora a apostar realmente em bandas e nos seus trabalhos em larga escala. E quando falo em apostar, refiro-me principalmente à vertente financeira. Daí a quantidade de lançamentos que deixou no seu catálogo.»

Black Widows, Ethereal, Demon Dager, Heavenwood, Hyubris, In Solitude, Oratory, Seven Stitches e The Ransack são apenas algumas das bandas lançadas pela Recital Records a par de Pitch Black.

Álvaro continua: «Claro está que se houver dinheiro para investir, consegue-se editar vários trabalhos e não apenas três ou quatro por ano. Parte dos frutos desse investimento vinha também do trabalho de distribuição que faziam. Na altura, chegaram a distribuir para as lojas de todo o país, praticamente todas as principais editoras de metal mais conhecidas (e não só). E faziam um excelente trabalho. Muitos dos CDs que muita gente, que comprava música na altura, tem hoje nas suas colecções foi, muito provavelmente, graças à Recital.»

A torrente de lançamentos da editora de Santo Tirso chegou mesmo a ser impressionante, mas nem tudo era um mar de rosas, como Álvaro assegura. «Talvez um dos grandes problemas de todos os trabalhos que lançaram foi as próprias bandas não saberem ter aproveitado a oportunidade que tiveram entre mãos. Tanto que algumas já nem existem. Outras sim, souberam-no fazer. A Recital dava uma oportunidade às bandas de verem os seus trabalhos editados, a partir daí cabia às mesmas prosseguirem com o seu trabalho e aproveitar a rampa de lançamento. Foi o que fizemos. Quem me dera ter ainda hoje uma Recital no panorama nacional.»

Em faixa de auto-estrada paralela ao sucesso da editora, sempre na redline, os Pitch Black andavam por todo o país – e o mais incrível é que nunca era cansativo assistir a mais um concerto destes irredutíveis thrashers. «A energia [agora] já não é a mesma, não com mais 15 anos em cima, isso posso garantir», dá mais uma gargalhada. «Guardo muitas recordações desses tempos e desses concertos. Percorremos praticamente todo o país de uma ponta a outra. O concerto de 2005 no Steel Warriors Rebellion foi marcante, pois o ambiente que se viveu foi intenso, a tenda estava cheia e a adesão foi avassaladora. Por acaso temos a filmagem na íntegra desse concerto no nosso canal de YouTube [ver no fim]. Num outro evento marcante, partilhar o palco com The Haunted e Hatesphere foi fenomenal e também a primeira vez que abrimos um concerto para grandes nomes. Tocámos depois com Nuclear Assault e Exodus, e ver o Rick Hunolt, um dos meus guitarristas preferidos, dar o concerto com uma t-shirt nossa é algo que não esquecerei. Outro com a primeira visita de Tankard ao nosso país foi igualmente inesquecível. Um concerto, que também não esqueço, foi no Porto Rio – o PA foi à vida e tivemos de tocar apenas com o som do backline. Resultou no público todo colado a nós, para conseguirem ouvir melhor, e foi caótico do início ao fim com a casa repleta de pessoal. São imensas as recordações, sem dúvida.»

De volta ao presente em 2021, “Thrash Killing Machine”, com todo o seu estatuto de culto e até de relíquia, ganha uma nova vida com uma reedição em vinil e cassete pela Rastilho Records, editora altamente prolífera e veterana que tem deixado a sua marca no punk e no metal português desde 1996.

«Editar o “Thrash Killing Machine” em vinil era algo que já estava pensado desde que saiu o CD», confessa Álvaro Fernandes. «A masterização que fizemos para a edição nesse formato foi feita poucos anos depois de ser lançado o CD. A Recital era quem ia editar o vinil, mas depois estávamos a chegar à altura de gravar o segundo álbum [“Hate Division”, 2009] e tivemos receio que as coisas se sobrepusessem. Foi então que decidimos manter essa ideia em stand-by. Até agora.»

O plano partiu de Pedro Vindeirinho, da Rastilho, passando à acção quando telefonou a Álvaro. «Fez-nos uma proposta, partilhou as suas ideias comigo e fomos trabalhando a partir daí. Pessoalmente tenho muito gosto em trabalhar com a Rastilho, não só porque sigo a editora desde o início mas também porque, actualmente, não há ninguém melhor a trabalhar o formato em vinil. A edição em cassete foi um extra. Também queríamos fazer isso há algum tempo – como tal, aproveitámos o balanço e juntámos tudo no mesmo.»

Está na altura de reviver “Thrash Killing Machine” em todo o seu esplendor, mas o caminho não pode ir em direcção a um beco sem saída, muito menos haver um repouso nos louros do passado. Nuno Quaresma foi apresentado como novo vocalista em 2019 e um split com Booby Trap e Buried Alive foi lançado em 2020 pela Firecum Records. Para quando um novo longa-duração? «Não será para já ainda», assinala o guitarrista. «Estamos a dar os primeiros passos na composição de novos temas, vamos trabalhar a partir daí e, posteriormente, lançar um novo álbum. Para quando é que não sabemos, mas, em termos de edições de novos trabalhos de estúdio, será esse o próximo passo.»

A reedição em vinil de “Thrash Killing Machine” pode ser adquirida aqui.