"Dawn of the Damned" é o apogeu dos Necrophobic. Necrophobic “Dawn of the Damned”

Editora: Century Media Records
Data de lançamento: 09.10.2020
Género: black metal
Nota: 4.5/5

“Dawn of the Damned” é o apogeu dos Necrophobic.

Ainda que “Mark of the Necrogram” seja um disco sólido, nada faria prever que “Dawn of the Damned” estivesse tanto, mas tanto, à frente do anterior. Dois anos decorridos entre os dois discos, “Dawn of the Damned” é uma ode ao que o melhor satanic death metal sueco nos ofereceu desde o primeiro dia. Após um concerto em 2019 no Vagos Metal Fest que fez virar todas as cabeças na direcção do palco em que os Necrophobic desfiaram malha após malha da sua amarga arte, “Dawn of the Damned” será a confirmação para quem ainda se sinta indeciso sobre o que viu nesse festival.

Desta feita, tudo cresceu no universo dos Necrophobic: seja por um som geral e produção imaculados, seja pelo trabalho de guitarras simplesmente superior, ou até pela evolução da qualidade de composição, o quinteto sueco faz um all-in por saber que tem uma mão vencedora. Tudo começa com “Darkness Be My Guide” e o seu genial riff que entra nos nossos ouvidos e mais não sai – digam o que disserem, são pormenores como este que transformam um tema simples num hino. Alie-se a isso um metralhar incessantemente perfeito de bateria, um refrão simples e permanente e, principalmente, solos de guitarra virtuosos e bastante melódicos, e ficamos sequer sem saber bem o que dizer. Até porque conhecemos os Necrophobic desde o seminal “The Nocturnal Darkness” e não estávamos preparados para isto.

“Dawn of the Damned” segue pelo caminho clássico do tema rápido entrecortado pelo tema mais lento (e dizemos mais lento sabendo o risco que corremos, pois lentidão é coisa que não assiste aos Necrophobic com frequência). O vocalista Anders Strokirk tem um desempenho fenomenal a cada instante, mesmo na qualidade das letras, mas, refiramos o que referirmos, regressamos sempre ao trabalho de guitarras, principalmente pelo que ouvimos nos solos. Sebastian Ramstedt, o homem das seis cordas quase totalmente responsável pelas composições do novo disco, parece sofrer de gigantismo ao longo de todo o registo. Se um indivíduo com 2 metros já parece ser muito alto, imaginem um com 2,75 metros.

O guitarrista cresceu de forma descontrolada nos últimos dois anos e, pelo caminho, decidiu experimentar misturar satanic death metal com os ares do hair metal de LA e dos guitar heroes, onde pontuam nomes como Mötley Crüe, Van Halen, Yngwie Malmsteen, entre outros. O resultado final traduz-se em maravilhosos solos técnicos e sempre melódicos durante todo o LP. É fácil apontar exemplos de onde os encontrar: “Darkness Be My Guide”, “Mirror Black”, “Tartarian Winds, “The Infernal Depths of Eternity”, “Dawn of the Damned”, “The Shadows”, “As the Fire Burns”, “The Return of A Long Lost Soul” ou “Devil Spawn’s Attack”. Caso não tenham percebido, acabámos de indicar todas as músicas do disco. Qualquer uma é um exemplo de virtuosismo por parte de Sebastian. O elevado investimento do músico nos arranjos de guitarras transporta os Necrophobic para o nível seguinte dentro do género que praticam.

No entanto, o outro factor que nos faz render a “Dawn of the Damned” é a carga épica que nele encontramos. Foquemo-nos no tema mais bem-conseguido do álbum, “The Infernal Depths of Eternity”. Tudo nesta música nos faz recordar os saudosos Dissection, era “The Somberlain”, ainda que com uma produção muito melhor: o feeling geral, a fúria, o som inimitavelmente sueco, a velocidade desenvergonhada e a estrutura sólida desta música já chegariam para a inscrever como uma das melhores de sempre no género. No entanto, é a partir da marca dos 5:36 minutos que ganha uma aura de imortalidade, tal é a bagagem épica a que assistimos. Imaginem, se conseguirem, um filme épico na vossa cabeça, uma cena grandiosa causada por um excerto musical com menos de dois minutos. É isto que “The Infernal Depths of Eternity” nos transmite. Há outros exemplos de momentos épicos noutras faixas, mas murcham todos à sombra deste.

Nem tudo é ouro, porém. Embora todos os temas de “Dawn of the Damned” estejam muito acima da média dentro do género, há aqueles que não causam tanta emoção quanto os principais e que depressa esquecemos em detrimento destes. A boa notícia é que se trata não mais do que dois temas menores, ainda que muito bons. Para o final fica a homenagem dos Necrophobic ao thrash teutónico de meados dos anos 1980, um estilo e uma estirpe específica essenciais para o black metal como o conhecemos, com toda aquela agressividade e crueza primitivas pelo qual ficou tão bem conhecido. O convidado não poderia ser outro que não Schmier (Destruction), que neste tema transpira profusamente thrash da velha-guarda, não fosse esse um dos padrinhos do género. Os agudos que o vocalista alemão atinge também podem ser considerados um dos momentos épicos do disco, sem dúvida.

“Dawn of the Damned” é o apogeu dos Necrophobic, é o “Master of Puppets” ou o “Reign in Blood” do quinteto sueco sem grande margem para dúvidas. Por mais que a velha-guarda mais kvlt eleja sempre (e compreensivelmente) “The Nocturnal Silence” como o porta-estandarte da banda, “Dawn of the Damned” é uma declaração de amadurecimento pessoal e profissional que catapultam os nórdicos para patamares mais elevados. Agora, queremos ver quando, como e se funciona toda esta grandeza ao vivo, dizemos nós deste lado, com esperança que seja brevemente. Até lá, “Dawn of the Damned” é o tipo de disco que deve ser comprado sem audições prévias e sem reservas, que é da maneira que nos atinge ainda com mais força. Exemplar.

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