Entrevista a Necrophobic. Necrophobic: um medo irracional do escuro
Foto: Century Media Records

«Aprendi muito com músicos como George Lynch, Warren DiMartini e Van Halen. Isso tornou mais fácil para mim escrever o que quero. Sem limitações de como posso tocar guitarra.»

Sebastian Ramstedt

Muitos ainda se devem lembrar da última passagem dos suecos Necrophobic por Portugal, em Agosto de 2019. Embora o renovado Vagos Metal Fest não incida com muito vigor no black metal – algo perfeitamente compreensível, tendo em conta a natureza do seu público e o desprezo generalizado pelo género em Portugal –, por vezes adorna o seu cartaz com nomes menos óbvios, caso dos Necrophobic. O resultado final foi uma resposta esmagadoramente positiva da parte dos festivaleiros. Muitos tiveram o seu primeiro contacto com a banda no ano passado e o seu concerto foi considerado um dos melhores de todo o evento. A presença muito activa em palco e uma dose de black metal proprietário foram quanto bastou para surpreender um festival regularmente averso ao estilo.

Em 2020, os Necrophobic regressam com “Dawn of the Damned“, o melhor trabalho da banda até à data. As bandas clássicas beneficiaram da pandemia em que nos encontramos, já que o cancelamento de concertos ao vivo levou muitas delas a regressar ao estúdio e a trabalhar em novo material cuja qualidade excede as nossas expectativas. Foi esse o caso dos suecos, que muito beneficiaram desta situação calamitosa que vivemos, pelo menos a julgar pela imensa qualidade que podemos testemunhar no novo registo. Sebastian Ramstedt, guitarrista da powerhouse nórdica, dedicou alguns minutos de conversa à Metal Hammer Portugal e aproveitou para pôr tudo em pratos limpos: «De certa forma, a pandemia funcionou a nosso favor. Já tínhamos escrito e gravado tudo antes do vírus atacar, mas tínhamos tempo ilimitado para pormenores e mistura. Desta vez pudemos mesmo pensar nas coisas e não houve stress com o delinear da coisa. Normalmente, estamos na estrada enquanto tentamos promover o novo álbum, o que pode ser muito stressante. Mas é uma excelente altura para trabalhar no novo material. Escrevi muito durante o confinamento. Nem tudo se encaixa no conceito dos Necrophobic, mas tentei tirar o melhor proveito destes tempos estranhos.»

O que nos leva a afirmar acima que este disco é o melhor da carreira dos Necrophobic assenta no facto de que a banda cresceu imenso em termos técnicos. “Dawn of the Damned” apresenta um trabalho de guitarra como nunca o ouvimos nesta banda e, até no black metal, é algo muito inovador e distinto, com um som que tanto parece blackened death metal a tempos como logo nos recorda de alguns guitar heroes de bandas glam dos anos 80, por estanho que possa parecer. Mas funciona. Existem solos memoráveis que se juntam a riffs violentos e apelativos, o que nos propõe as duas hipóteses clássicas: ou foi algo espontâneo ou concertado. Apostamos na segunda. «[risos] Às vezes questiono-me se as pessoas fazem a ligação com o metal de Los Angeles por causa das minhas publicações nas redes sociais, em que tenho explorado a época do hair metal mais recentemente. Mas sim, aprendi muito com músicos como George Lynch, Warren DiMartini e Van Halen. Isso tornou mais fácil para mim escrever o que quero. Sem limitações de como posso tocar guitarra. O que esses guitarristas fazem é usar toda a guitarra, tanto para riffs como para solos, ao passo que os guitarristas de metal extremo ficam presos em powerchords nos primeiros sete trastes. Quis ir além disso e, para obter inspiração, observei os maiores entre os maiores.»

«É, de longe, o nosso disco mais inovador.»

Sebastian Ramstedt

Outra parte que ressoa neste trabalho é a carga épica. Ouvindo “The Infernal Depths of Eternity” somos invadidos por uma nostalgia dos anos 90, por clássicos como “Far Away from the Sun”, “The Somberlain” ou “The Nocturnal Silence”. A derradeira parte de guitarra é um dos momentos mais épicos que ouvimos ultimamente e o somatório indica que os Necrophobic se esforçaram como nunca, adicionando mais camadas do que anteriormente. Embora a banda não seja particularmente conhecida como uma força inovadora, este disco é o seu trabalho mais inovador. «É, de longe, o nosso disco mais inovador, sim, e, de certa forma, fazemos algo que nenhuma banda de black metal fez antes. Nunca ouvi este tipo de guitarra dentro do género. Na verdade, o riff final é do Johan [Bergebäck, guitarra ritmo]. Ele assinou poucos riffs neste álbum, mas são todos simplesmente fantásticos. O final do tema é provavelmente a minha parte preferida do álbum. É meio estranho que comece com um acorde maior, mas, quando mergulha no Mi menor, o resultado é justamente esmagador. Isso confere à música uma nova profundidade.»

«Somos fãs de Destruction desde meados dos anos 80 e isto foi um sonho que se tornou realidade.»

Sebastian Ramstedt sobre a participação de Schmier no álbum.

Além de toda a inovação presente no disco, a banda ainda fez questão de convidar Schmier, o frontman dos Destruction, para a faixa “Devil’s Spawn Attack”, a faixa final do novo trabalho. Um álbum que começa de forma muito sólida com “Aphelion” teria de terminar com um pontapé nos testículos. O convite fez com que o trabalho tivesse um pouco mais da aura dos anos 80, algo tão difícil de criar naturalmente hoje em dia. «Foi uma grande honra para mim trabalhar com ele! Somos fãs de Destruction desde meados dos anos 80 e isto foi um sonho que se tornou realidade. Escrevi a música em apenas algumas horas e fui para a cama. Quando acordei e a ouvi, percebi que continha aquele toque clássico do thrash metal alemão. Disse à banda que devíamos perguntar ao Schmier se ele gostaria de participar no disco. Ele gostou da música imediatamente e teve um desempenho fantástico. Gosto particularmente que ele o tenha feito fiel ao seu estilo dos anos 80, com os gritos agudos e tudo o mais. É uma das nossas músicas preferidas deste disco, com certeza!»

2020 foi um annus horribilis transversal a todas as gerações, incluindo a nossa. A COVID-19 deu cabo dos planos a toda a gente, mas consta que a Suécia teve uma abordagem alternativa à pandemia, o que nos levou a crer que as bandas continuaram a sua vida na Suécia como se nada fosse. Não foi bem esse o caso, como nos revela Sebastian: «Aqui também não podemos tocar ao vivo. Que tempos estranhos. Mas a abordagem da Suécia é diferente na maneira como o governo não força as pessoas a ficarem dentro de casa, embora ressalve que, ainda assim, devemos agir de forma responsável. Em última análise, acho que o número de mortos será similar em todos os países. Mas a vantagem que temos é que não destruímos a nossa economia durante esse período. Eu fui trabalhar durante todo esse tempo.»

«Vagos foi um concerto óptimo!»

Sebastian Ramstedt

Os Necrophobic celebraram 30 anos de actividade em 2019 e aproveitaram para agraciar Portugal com um concerto fantástico que muito devemos à organização do Vagos Metal Fest. Partindo do princípio que as coisas irão melhorar em 2021, é certo que a banda investirá o tempo necessário para promover “Dawn of the Damned”. Ficou a dúvida sobre o regresso dos suecos a Portugal. «Absolutamente, queremos tocar em todo o lado! Falando em Vagos, foi um concerto óptimo! Estamos a planear as digressões e concertos como se não houvesse vírus e estamos a ensaiar o concerto ao vivo actualmente. Mas não posso avançar muito mais do que isto, como é fácil de entender. Estaremos prontos quando o mundo ‘abrir a loja’ novamente!»