Mikaela Attard, ou simplesmente Mikaela, é o que se pode apelidar de artista completa, ou próximo disso, ao explorar ramos como... Mikaela, extrema e chocante: «É nossa responsabilidade mandar tudo cá para fora»
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Mikaela Attard, ou simplesmente Mikaela, é o que se pode apelidar de artista completa, ou próximo disso, ao explorar ramos como fotografia, moda e música. Oriunda de Malta, começou muito cedo: primeiro a ouvir os clássicos – como Black Sabbath, Led Zeppelin, Dio e Deep Purple – com a família, a aprender piano aos oito anos, depois a estrear-se com singles aos 13 e um EP aos 16, a formar-se musicalmente na Berklee College of Music, em Boston (EUA), e mais recentemente a dar-se a conhecer mais amplamente como vocalista dos Martyrium, capítulo este que já está no passado ao lançar-se definitivamente a solo com um metal híbrido entre death, black, groove e alternativo. «É incrível fazer metal, e a minha família entende-o», diz à Metal Hammer Portugal. «Não me lembro de alguma vez não ter música a tocar durante passeios em família e, na maioria das vezes, essa música era metal! Foi uma honra estudar numa escola tão prestigiada e um prazer ligar-me a músicos e mentores com ideias semelhantes e com ambições brilhantes para o futuro. O caminho aprofundou-se da produção, mistura, composição, arranjos e transcrições até ao meu estudo clássico. O crescimento da musicalidade e da independência ao aprender tantas habilidades e ferramentas foi algo que senti todos os dias e continuo a sentir conforme aprendo mais e mais. Procuro manter o meu coração e a minha mente abertos para o conhecimento. Sinto-me realizada a compor, portanto diria que, artisticamente, sou 100% livre ao compor o que quero. Na verdade, quando estava a trabalhar no próximo álbum, nunca disse que ia compor neste ou naquele estilo, e preferi fazer o que parecia certo para mim. A única limitação na vida, acho eu, é para quem permite [essa limitação]. Aprendemos coisas novas todos os dias, portanto amanhã teremos aprendido outra coisa e o dia seguinte será mais brilhante para viver e compreender. Portanto, quanto mais compomos, mais nos aproximamos do cerne e talvez as coisas fiquem mais claras, ou não. [risos]»

Malta é uma ilha mediterrânica com cerca de meio milhão de habitantes, e, ainda que esteja próxima do continente e com laços a territórios desenvolvidos como a Inglaterra, para Mikaela o seu país tem vários entraves para além dos geográficos, nomeadamente a mentalidade. «Imaginem o mundo dos anos 70 em que se tem de lutar todos os dias. Ao viajar e ao morar no exterior, aprendi essa diferença, e não estou a dizer que não há coisas incríveis a acontecer em Malta, mas no que diz respeito à música, há muito a ser feito para educar e promover uma mente-aberta cultural, especialmente em relação ao público em geral, para que este comece realmente a apreciar a liberdade artística no seu máximo. Provavelmente está em 25%, mas está a melhorar noutras cenas musicais, como clubes. Mas a maioria ainda ouve apenas Satanás quando alguém diz metal… [risos] Obviamente, há muito mais do que isso. Não existe indústria auto-suficiente, a menos que toques música comercial ou faça covers e sejas plantado em todos os patrocinadores ou companhias telefónicas possíveis. Não estou a atacar, e ainda bem para quem faz isso. O país é incrível pela quantidade de belas praias, actividades de mergulho e pelo sol, para quem gosta de calor, mas a sensação habitual que tenho desta situação musical é sufoco.»

O novo single “Bring Me Blood” é a mais recente proposta da maltesa e, através do vídeo que acompanha a música, representa tudo o que ela é: destemida, extrema e chocante. «Acho que um artista deve sentir sempre que tem permissão para expressar abertamente os seus pensamentos na magnitude que quiser», diz peremptoriamente. «Somos artistas por uma razão e acho que devemos explorar isso e dar o exemplo. Somos capazes de expressar emoções através da arte sónica e visual, literatura, fotografia ou qualquer outro ofício ou meio que toque as pessoas, o que é muito humanitário. Muitas vezes, se não fosse pela música e pelos artistas que eu adorava e que ofereciam um sentido de ligação e significado, a minha vida teria sido mais difícil, portanto acho que é nossa responsabilidade mandar tudo cá para fora, algo no qual muitas bandas tiveram e estão a ter sucesso.»

Visualmente, “Bring Me Blood” aparenta ter uma história a contar. Há doença mental, armas, rituais, nudez… É assim que Mikaela vê o mundo? Uma mistura de loucura? É muito mais do que isso e muito mais pessoal do que se imagina. «É sobre a superação», afirma. «Passei por uma experiência muito má na minha vida há uns dois anos, quando estava prestes a ser morta por um estranho – uma faca na minha garganta e na minha barriga. Ele quase escapou, mas não aconteceu. Passei por um tremendo choque e trauma, até perdi a minha voz durante duas semanas, a minha identidade foi revelada em todos os meios de comunicação locais e canais noticiosos sem o meu consentimento, violando a proteção de dados. E o tribunal demorou uns dois anos, quase não quiseram saber. Além de terem retirado uma das acusações, ainda reduziram a sentença do agressor a quase nada no recurso – depois do agressor ter cometido várias ofensas graves com outras pessoas. Então, como se pode imaginar, para mim, foi um monte de emoções. De lidar com um cenário excepcionalmente terrível a viver com isso, foi quase um inferno. Isso trouxe-me muito sangue e frustração por não ser compreendida, mas também me trouxe muito pensamento e concretização. Quis usar essa emoção para partilhar uma mensagem: não importa o momento sombrio que estás a passar, vais superá-lo, vais viver e vais tornar-te mais forte.»

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Num momento muito substancial para as mulheres no metal, que deixaram de ser vistas apenas como bonitas vozes e lindas caras na cena symphonic metal para começarem a dar cartas no panorama mais extremo (do powerviolence ao thrash e death metal), Mikaela deseja também desempenhar um papel como os seus ídolos femininos em Arch Enemy, Nervosa, Jinjer, In This Moment, Otep, Infected Rain ou Butcher Babies. «Espero conseguir chegar ao maior número de pessoas possível e ser capaz de inspirá-las a serem verdadeiras, a nunca desistirem, a lixarem todos os odiadores e quem tenta manipular, usar e abusar – especialmente de nós, mulheres –, aqueles que tentam objectivar-nos ou degradar-nos. Acreditemos sempre em nós. Espero inspirar as pessoas com as minhas experiências, ao enfrentar qualquer coisa e qualquer pessoa que nos tente lixar. Algumas pessoas saem impunes de homicídio porque não falamos. Falem, persigam os vossos sonhos e não deixem ninguém diminuir a vossa luz ou diminuir o vosso valor. É uma mensagem que nunca basta. É óptimo fazer parte do mundo internacional do metal por causa da irmandade, portanto vamos manter isto assim. Obviamente, espero transmitir o meu lado musical, gostos, percepções, conceitos e muito mais através das minhas criações.»

Depois do single seguir-se-á um álbum, que está agendado para sair no último trimestre de 2020. Intitular-se-á “Nocturne In Red”, tem a mão do requisitado Tue Madsen na produção, Marco Minnemann (The Aristocrats, The Sea Within, The Mute Gods, Necrophagist, Kreator) na bateria e Kyle Farrugia (Gruj) na guitarra e baixo. «Eu tinha tantas ideias, sons e texturas em mente que às vezes é realmente impossível expressar-me de forma translúcida! Trabalhei nas faixas – desmantelei muitas, consertei muitas e fiquei muito satisfeita e orgulhosa com as 10 faixas finais escolhidas», conta-nos. Trabalhar com Madsen «foi realmente uma bênção e um ar fresco», uma «inspiração e uma honra» depois de ter visto o dinamarquês a misturar Meshuggah tantas vezes e depois receber dicas online enquanto estudava. Quanto a Minnemman, trata-o como «lenda e querido amigo», tendo já anteriormente colaborado com o alemão no álbum “My Sister”. Todavia, a maioria das tarefas partiram de Mikaela: «Escrevi todas as músicas, letras, arranjos e efeitos; além de cantar, rosnar e berrar, toquei piano, órgãos, sintetizadores e qualquer ruído e sussurros estranhos extra. [risos]»

Sobre o conceito, a maltesa aponta «diferentes estados de espírito». «Há um grande simbolismo a ligar-se a todos os assuntos no artwork, como um cenário holístico composto por todos os assuntos e estados de espírito que as letras transmitem, como todos nos relacionamos com isso de maneira diferente, mas quando nos relacionamos com eles individualmente, não somos mais um indivíduo, somos um só. “Nocturne in Red” surgiu como um título perfeito para esta colecção. Sou uma amante da noite, gosto de como o mundo fala comigo à noite e é a essa hora que me sinto mais inspirada para escrever. É o que aconteceu ao escrever este álbum. Demorei muito para o produzir – muitas vezes, muitas pessoas perguntavam se tinha continuado depois de lançar o meu primeiro EP por volta de 2009. Agora sinto que esta é a minha melhor representação até hoje. Já comecei a escrever mais coisas para lançamentos futuros e, portanto, é definitivamente um momento emocionante – ser capaz de comunicar como vejo o mundo e ver o mundo a reagir de maneiras bonitas. ‘Nocturne’ é também um termo usado no vocabulário da música clássica, que esteve presente em a toda a minha infância, adolescência e até hoje, inicialmente através da minha formação clássica e agora também por escolha. A verdadeira definição é uma composição musical inspirada ou evocativa da noite, e remonta ao seu primeiro uso em “Notturno in D, K.286”, de Wolfgang Amadeus Mozart, tornando-se também popular através de Frédéric Chopin, que escreveu 21 dessas peças. Vermelho é uma cor que adoro e que me representa – um valor sonoro e com importância. É também a capacidade de ver a música em cores, a chamada sinestesia. A maioria das músicas está em tons de Lá e vejo a nota como vermelha.»

Musicalmente, Mikaela garante que podemos esperar «uma diferença». «Não tive limites a compor e pratiquei uma forma verdadeira de escrever chamada honestidade. As peças têm diferentes influências, percorrendo um grande espectro ao misturar-se deathcore, metalcore, progressivo, heavy metal, death, black, rock, clássico e groove. Há até um poema em maltês numa das canções para quem tiver curiosidade em saber como a minha língua nativa soa… Mas têm de ouvir com atenção… [risos] Estou ansiosa por partilhar esta colecção de peças com toda a gente.»