Os Iron Maiden voltaram ao básico com o primeiro álbum dos anos 1990. Mas estavam prestes a entrar num período de turbulência que colocaria... Iron Maiden: como “No Prayer for the Dying” marcou o fim de uma era

Os Iron Maiden voltaram ao básico com o primeiro álbum dos anos 1990. Mas estavam prestes a entrar num período de turbulência que colocaria o futuro da banda em dúvida.

Para os Iron Maiden, 1989 devia ser supostamente um ano de folga bem merecida. O último álbum, o aclamado “Seventh Son of A Seventh Son”, tinha sido o mais ambicioso de todos. A maioria das bandas teria posto os pés de molho, congratulado-se por aquilo que conquistou e reunindo-se novamente 12 meses depois, descansados e revigorados.

Mas pôr os pés de molho não era o estilo dos Iron Maiden. Para Steve Harris, uma boa parte do ano foi dedicada à edição de “Maiden England”, um concerto em vídeo captado na digressão de “Seventh Son…”, o qual também realizou.

Os colegas Adrian Smith e Bruce Dickinson não estavam menos irrequietos. O primeiro lançou ASAP, um projecto paralelo de hard rock que o levou ao microfone. O segundo tinha lançado uma música a solo, a gloriosamente excessiva “Bring Your Daughter… To the Slaughter”, na banda-sonora do filme slasher “A Nightmare on Elm Street 5: The Dream Child” e estava em processo de gravação de um álbum longe do conforto da nave-mãe. «A intenção», explicou mais tarde ao biógrafo oficial da banda, Mick Wall, «era fazer algo que não farias em Maiden. Caso contrário, qual seria sentido?»

Quando os Iron Maiden se reuniram em Novembro de 1989 para a luxuosa festa de lançamento de “Maiden England”, todos pareciam estar de bom humor. Havia planos para a banda se reunir num futuro não muito distante, para se começar a trabalhar no novo álbum, um disco que seria uma reacção, de volta ao básico, à escala grandiosa de “Seventh Son…”.

Enquanto os cinco membros de Maiden assistiam a diversos jornalistas e tipos da indústria musical a esvaziar o bar gratuito e a empanturrarem-se com o bom e velho fish and chips britânico, o futuro parecia promissor. Mal sabiam eles que estavam prestes a entrar no capítulo mais turbulento da história da banda – aquele que veria a saída de Smith e Dickinson.

O plano para o oitavo álbum dos Maiden era simples: trabalhar rápido, sem brincadeiras. Harris ficou impressionado com a franqueza de “Bring Your Daughter… To the Slaughter” e percebeu que os Maiden beneficiariam com a mesma abordagem. Na verdade, gostou tanto da música que pediu a Dickinson para não incluí-la no seu álbum a solo, para que os Maiden pudessem regravá-la, com o que o vocalista a concordar.

«Fiquei feliz que o Steve tenha gostado tanto de algo», disse Dickinson. «Na verdade, regressei para começar o novo álbum como um pequeno duende muito animado.»

Dickinson lançou “Tattooed Millionaire” em Maio de 1990. Pode não ter apresentado “Bring Your Daughter…”, mas tinha muitos outros destaques, incluindo a abertura épica com “Son of A Gun” e o pop-metal hínico da faixa-título. Deixando de lado aquela voz inimitável, tinha pouca semelhança com o seu emprego principal – a sua abordagem estilística errática abrangia tudo, desde a reflexiva “Born In ’58” à estridente rock n’ roll “Dive! Dive! Dive!”. A qualidade pode ter sido variável, mas resultou para o que tinha sido projectado e tirou Dickinson da sua zona de conforto que era Maiden.

Adrian Smith não se saiu tão bem. O guitarrista era um compositor de hard rock clássico de coração, e o álbum de estreia de ASAP, “Silver and Gold”, reflectiu isso. Mas a voz e a personalidade de Smith não eram tão grandes quanto as de Dickinson, e os fãs de Maiden não estavam totalmente prontos para algo que se distanciava tanto do projecto estabelecido. “Silver and Gold” causou uma onda de interesse no seu lançamento em 1989, mas depois desapareceu sem deixar rasto.

A sua falta de sucesso coincidiu com o crescente desencanto de Smith com a vida nos Iron Maiden. O guitarrista também estava preocupado que ASAP tivesse «enviado os sinais errados… Estavam preocupados que eu não gostasse mais de metal».

Como qualquer bom líder, Steve Harris percebeu a situação do seu colega. Os dois eram bons amigos, mas as prioridades profissionais de Harris estavam com Maiden. O baixista convocou uma reunião e perguntou se Smith queria continuar na banda. Quando ele respondeu que não sabia, Harris tomou a decisão por ele – embora contra a sua vontade. «Fiquei arrasado por ele não querer mais estar ali, mas pensei: ‘Temos de ser fortes quanto a isto’», recorda.

De maneira tipicamente pouco sentimental, os Maiden não perderam tempo em substituí-lo. Janick Gers era um amável músico de Hartlepool que tocou com o vocalista de Deep Purple, Ian Gillan, com a banda NWOBHM White Spirit e com o vocalista de Marillion, Fish. Mais importante: tinha tocado recentemente em “Tattooed Millionaire”. Gers foi convidado para uma audição, mas encaixava tão bem que lhe disseram que o lugar era seu após apenas três músicas.

Esta urgência estendeu-se ao novo álbum. Optando por gravar no Reino Unido pela primeira vez desde “The Number of the Beast”, de 1982, a banda reuniu-se novamente com o produtor de longa data Martin Birch. Em vez de um estúdio tradicional, optaram por trabalhar num celeiro, na propriedade de Harris, em Essex. O processo de gravação durou apenas três semanas.

«É principalmente mais agressivo do que os álbuns anteriores», disse Harris na altura. «Acho que alguns dos nossos fãs ficaram desapontados com a orientação musical que tínhamos adoptado recentemente. Portanto, acho que ficarão satisfeitos ao ver que estamos a voltar a um estilo mais agressivo e poderoso. A banda ainda tem o fogo.»

Em retrospectiva, esse fogo não se traduziu no álbum. “No Prayer for the Dying” foi feito com nobres intenções, mas nunca explodiu. A inaugural “Tailgunner” era um hino dos clássicos Maiden Boys, na veia de “Aces High” e “Where Eagles Dare”, mesmo que não escalasse as alturas dos seus antecessores. O single “Holy Smoke” derrubava escabrosamente os televangelistas norte-americanos, a versão de “Bring Your Daughter… To the Slaughter” chocalhou com uma dureza metálica e a ascendente faixa-título permanece como um clássico desconhecido no período médio da banda. Mas outras músicas, como “The Assassin” e a pesada “Mother Russia”, careciam da energia e do poder que definiam os Maiden.

Lançado a 1 de Outubro de 1990, “No Prayer for the Dying” alcançou o segundo lugar no Reino Unido e o nº 17 nos Estados Unidos – ambos abaixo do predecessor “Seventh Son of A Seventh”. Todavia, o segundo single “Bring Your Daughter…” daria aos Maiden o nº 1 – era claro que algo estava fora do normal.

«Tentámos fazer com que o álbum soasse o mais ao vivo possível», Harris recordou mais tarde. «Para mim, não saiu muito bem. Mas, novamente, depende de com quem estás a falar. Algumas pessoas acham que é nosso melhor álbum e outras acham que é o pior. Não acho que seja o nosso melhor, mas certamente não é o nosso pior.»

Apesar de todas as suas falhas, “No Prayer for the Dying” teve sucesso a um nível: reposicionou os Maiden para a próxima década. A sonoridade que volta ao básico é anterior ao surgimento do grunge, ele próprio uma reação ao excesso dos anos 1980. Ironicamente, o homem que liderou esse movimento, Kurt Cobain, rabiscou logótipos de Iron Maiden nos seus cadernos escolares quando era mais novo.

Mas a explosão do grunge aconteceria em poucos meses, e, de qualquer maneira, os Iron Maiden tinham muito em que pensar. O principal passava por corrigir a rota que tinham traçado com “No Prayer…”. Isso pode explicar em parte por que é que Harris escolheu ser co-produtor, ao lado de Martin Birch, no álbum seguinte.

De volta ao celeiro de Harris – agora convertido num estúdio adequado, apropriadamente chamado de Barnyard –, gravaram o nono álbum “Fear of the Dark” num ritmo mais lento do que o antecessor. Os resultados foram mais polidos, mesmo que “Be Quick or Be Dead” e “From Here to Eternity” ainda crepitassem a energia que Harris esforçou a recuperar na última vez. Mas também ofereceram algumas canções mais longas, notavelmente a faixa-título de sete minutos que rapidamente se tornaria uma das favoritas ao vivo.

Porém, a maior mudança surgiu com a capa. Rod Smallwood percebeu que o visual dos Maiden tinha de ser actualizado para a nova década e decidiu que um pouco de sangue-novo era necessário. «Queríamos actualizar o Eddie para os anos 90», explicou Smallwood. «Queríamos tirá-lo do tipo de criatura de terror das bandas-desenhadas e transformá-lo em algo um pouco mais directo para que se tornasse ainda mais ameaçador.»

“Fear of the Dark” seria o primeiro álbum dos Iron Maiden a não apresentar a arte de Derek Riggs, o homem que criou a mascote dos Maiden tantos anos antes. Por sua vez, a imagem de um Eddie vampírico numa árvore foi ilustrada pelo artista de fantasia Melvyn Grant.

Os fãs de Maiden não ficavam incomodados com a mudança se as posições nas tabelas fossem as indicadas. “Fear of the Dark” restaurou os Maiden à posição nº 1 no Reino Unido e alcançou a 12ª posição nos EUA – o mesmo que “Seventh Son of A Seventh Son” (continua a ser o álbum mais vendido da banda na América).

Os Maiden deram início à digressão de “Fear of the Dark” a 3 de Junho de 1992 com um concerto secreto sob o nome The Nodding Donkeys na minúscula Oval Rock House em Norwich. A 22 de Agosto voltaram ao festival Monsters of Rock, em Castle Donington, Leicestershire, onde a actuação anterior tinha sido prejudicada pela morte trágica de dois fãs. Desta vez fizeram uma performance vintage de Maiden para a eternidade, convidando até Adrian Smith a subir ao palco para tocar “Running Free”.

Nos bastidores, porém, o problema estava a formar-se. Após o término da digressão, Bruce Dickinson viajou para Los Angeles para começar a trabalhar no seu segundo álbum a solo. Rod Smallwood visitou o vocalista no estúdio. Foi quando Dickinson lançou uma bomba: queria deixar os Iron Maiden.

«Era tudo uma questão de sair do que era um regime bastante confortável», explicou mais tarde. «Trabalho árduo, gente boa, relativamente seguro, bem gerido. Tudo coisas sobre as quais as pessoas diriam: ‘Que trabalho confortável.’ Essa era a minha vida nos Iron Maiden. Pensei: ‘Não é suficiente. Sou muito novo para assentar.’»

O anúncio de Dickinson confundiu Harris. Pela primeira vez na sua carreira profissional, o baixista não tinha certezas sobre o futuro dos Iron Maiden. Ligou a Dave Murray e disse ao seu velho amigo que não sabia se a banda continuaria.

«Eu tinha dúvidas se deveria continuar ou não», recordou Harris. «Pensei: ‘Não tenho força.’»

O próprio Murray não teve tais escrúpulos. «Estávamos todos sentados a conversar», disse o guitarrista. «Foi provavelmente a primeira conversa realmente longa e séria que tivemos em anos. De repente, fiquei farto de falar sobre isso e disse: ‘Olhem, por que raio devemos de desistir só porque ele o está a fazer? Ele que se lixe. Por que é que ele nos há-de fazer parar de tocar?’ Realmente não tinha pensado sobre aquilo. Apenas saiu.» A conversa estimulante de Murray funcionou. Harris teve o ímpeto de que precisava para continuar a banda.

Os Maiden tinham mais uma digressão programada durante a Primavera e o início do Verão de 1993. Sempre profissional, Steve Harris recusou-se a cancelá-la e a banda deu o ousado passo de anunciar a saída de Dickinson numa conferência de imprensa pouco antes do início da digressão, presumindo que funcionaria como uma hipótese para os fãs se despedirem do vocalista. Rapidamente, ficou claro que a realidade era muito diferente. A atmosfera nos concertos era constrangedora na melhor das hipóteses.

«Não havia uma boa onda», Dickinson admitiu mais tarde. «Saíamos do palco e era como uma morgue. Os fãs de Maiden sabiam que eu tinha desistido, sabiam que aqueles eram os últimos concertos e, de repente, percebi que, como o frontman, estás numa situação quase impossível.»

Pior, as tensões nos bastidores entre Dickinson e os futuros ex-companheiros tinham chegado ao fundo do poço. Tal foi em parte devido à visão de Harris de que o vocalista não estava a dar tudo de si.

«Todos pensámos que ele estava realmente fora e que não estava a actuar», disse o baixista. «A pior coisa era que se ele tivesse feito merda durante toda a digressão, a modos que entenderias, mas eram tempos específicos. Foi tão calculado. Queria mesmo matá-lo.» O vocalista refutou as afirmações, mas a animosidade iria manter-se depois de ter deixado a banda.

Bruce Dickinson deu o último concerto com Iron Maiden a 28 de Agosto de 1993, no Pinewood Studios, nos arredores de Londres. O concerto foi filmado como um especial da MTV e apresentava o ilusionista Simon Drake, que concluiu o espectáculo apropriadamente, a matar Dickinson. Tal reflectia muito bem como o resto dos Maiden se sentia.

A partida de Dickinson marcou o fim de uma era para a banda – aquela que viu estes heróis de East End a escalarem alturas que só podiam ter sonhado. Substituí-lo não seria fácil. Mas Steve Harris e os Iron Maiden nunca se tinham esquivado de um desafio e não estavam prestes a fazê-lo agora.

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