Quando falamos em mulheres no universo metal, pensamos imediatamente em Angela Gossow, Alissa White-Gluz (ambas com ligações a Arch Enemy), Tarja Turunen (ex-Nightwish) ou... Female Fronted Metal? Elas respondem!

Quando falamos em mulheres no universo metal, pensamos imediatamente em Angela Gossow e Alissa White-Gluz (ambas com ligações a Arch Enemy), Tarja Turunen (ex-Nightwish) ou no power-trio Nervosa. Mas há muito mais! Em Portugal, nomes femininos também já começam a ocupar posições centrais, como Patrícia Andrade (Sinistro), Rute Fevereiro (Enchantya), Muffy (Karbonsoul), Inês Freitas (Burn Damage), Beatriz Mariano (Okkultist) ou Diana Rosa (11th Dimension) e Raquel Subtil (Secret Chord), com quem falámos para darmos voz a quem está nesse papel ao invés das discussões facebookianas.

A premissa desta conversa tem exactamente a ver com a realização do Female Front Fest, que aconteceu em Portalegre no passado dia 14 de Junho, contando com Astray Valley, 11th Dimension e Secret Chord no alinhamento. «Foi uma grande iniciativa que abraçámos desde logo com grande entusiasmo. Só esperamos que continuem com o evento durante muitos anos!», exclama a vocalista dos Secret Chord. Mostrando-se bastante feliz pelo convite, a vocalista dos 11th Dimension fala de uma «organização absolutamente irrepreensível, condições impecáveis e público que foi uma loucura». «Quanto à ideia de ser um festival de bandas ‘female fronted’, considero que isso é apenas um tema, como poderia ter sido outro qualquer. Pessoalmente, talvez não fosse a minha primeira escolha para um tema, mas respeito essa opção». Já lá vamos…

Female fronted metal passou a ser um chavão incontornável que, erroneamente, leva uma parte da audiência a considerá-lo um estilo musical e não apenas uma etiqueta. Raquel Subtil elabora. «Todos sabemos que chama a atenção mas, na minha opinião, todos têm uma ideologia errada sobre isso. Honestamente, a maioria é muito influenciada por ideologias e opiniões (pouco fundamentadas) de outros; não são capazes de pensar positivamente em relação a iniciativas como foi o caso do Female Front Fest. Toda a questão que se tem criado em torno do ‘female fronted’ é o facto de se achar que é um género, como se ouve muito por aí. Na verdade, a ideia não é essa. ‘Female fronted’ é uma especificidade, uma característica; pode-se até dizer [que é] um método de marketing, porque infelizmente em Portugal pega e faz publicidade por ser o que é, por se achar que é um género. A verdade é que nunca vi na descrição de nenhuma banda a classificação ‘female fronted’! É engraçado como o povo gosta de inventar desculpas para o que não gosta. Sinceramente, se não gosta de ouvir mulheres a cantar (clean ou growl), não vai aos eventos. Ponto. Difamar e desvalorizar o trabalho de quem se lembra de ‘nós’ é muito infantil.» Para a artista oriunda da região de Coimbra, tudo se resume a «muita polémica e discussão relativamente a esta questão, e, muitas vezes, as pessoas não sabem sequer fundamentar os seus comentários».

No caso de se poder referir que o rótulo é desprestigiante, Diana Rosa reitera que esta «é uma palavra demasiado forte, e não acho que seja caso para tanto, mas é uma expressão injusta». «Tenho mixed feelings em relação a esta expressão, e posiciono-me desavergonhadamente num ‘se não os podes vencer, junta-te a eles’»; todavia, «lá porque existe uma vocalista mulher, uma banda não deveria ser resumida a isso, e o foco principal tem que continuar a ser a música».

Por outro lado, a frontwoman dos 11th Dimension não nega a realidade e sabe que o nicho female fronted metal existe, afirmando, aliás, que «é nas comunidades online de female fronted que se vê o nome e o trabalho da banda ser mais divulgado, partilhado e até incluído nos rankings de melhores álbuns». «Portanto», remata, «ainda que eu não compreenda o fenómeno a 100%, não sou ingrata ao ponto de rejeitar uma comunidade que sempre me tem valorizado. Também é inegável que o marketing funciona: se ao usar essa tag a minha música vai chegar a novas pessoas que gostam de ouvir vozes femininas, então que assim seja, e não tenho problemas em usá-la de vez em quando, enquanto veículo».

Continua a ser evidente que a comunidade metal é um ambiente dominado por homens; não por ser conservador e misógino, mas porque simplesmente há mais pessoas do sexo masculino do que feminino, bastando olhar para a discrepância entre bandas com homens e com mulheres ou observar a demografia de um festival. Sobre se a ascensão da mulher no metal é uma luta real ou se representa apenas alguns grupos que querem aproveitar a questão dos direitos, a porta-voz dos Secret Chord não acha que, pelo menos, se trate da segunda opção. «Estamos no Séc. XXI e, apesar de ainda haver muitas pessoas com a cabeça fora do lugar, a maioria entende os direitos da mulher e respeita-os.» «A mulher, no mundo do metal, é sem dúvida uma guerreira», acrescenta Raquel. «Bandas com vocalista feminino, por norma, não são o primeiro recurso para festivais/eventos em Portugal, infelizmente. Existem raros casos mas, por regra, não são a ‘primeira opção’. Entristece-me toda esta questão que envolve a mulher neste nosso mundo do metal, pois, como todos sabem, actualmente existe uma panóplia de mulheres que fazem clean e growl, são versáteis e tentam procurar agradar qualquer tipo e género de público e nem essas são a ‘primeira opção’, não são destacadas, nem são motivo de orgulho.» Uma coisa é estar ali em palco, a mandar tudo o que se sente cá para fora e dar o melhor de si, mas mesmo naquele ímpeto de energia muitas questões extra-actuação se colocam, como Raquel Subtil confidencia: «É uma constante luta e é fácil desistir e terminar com os projectos porque não se consegue ter estrada, as bandas não se conseguem fazer ouvir. Secret Chord tem enfrentado batalhas, tem lutado muito para chegar onde chegou e vai continuar a fazê-lo. Temos conseguido ter agenda e espalhar o nosso som por vários cantos do país mas é preciso muito trabalho e dedicação de cada um de nós para o conseguirmos. Portalegre foi mais uma conquista e foi também uma das razões que nos levou a aceitar de tão bom grado o convite: foi mais um cantinho de Portugal conquistado!»

Em relação às amostras demográficas, a representante dos 11th Dimension diz que «é um facto que existem mais homens do que mulheres no metal, de ambos os lados do palco, mas a meu ver não há vítimas aqui e nem acho que isso seja propriamente um problema», porque, «em termos de público, a diferença já vai estando um tanto ou quanto mais esbatida». Para Diana Rosa, «se não há mais mulheres a ouvir metal ou a ir a festivais, isso resume-se a uma questão de gosto pessoal, porque não há absolutamente nada, nem ninguém, que impeça uma mulher de apreciar metal hoje em dia. Se o rácio de público não é 50-50, paciência, é o que é e não culpo ninguém por isso». Pragmática e sem rodeios, mas há sempre uma mágoa inerente às pontes que ainda faltam construir. «Sobre a presença de mulheres em bandas, tenho pena que ainda haja tão poucas comparativamente aos homens, mas a verdade é que também não há absolutamente nada que impeça uma mulher de se dedicar à música, se ela assim o quiser.» Mais do que respostas para estas questões, a cantora e modelo fotográfica tem perguntas. «Porque é que não há mais mulheres a interessarem-se por tocar instrumentos neste estilo e a querer integrar bandas de metal? Honestamente não sei, mas sei que não há por aí nenhuma conspiração masculina para impedir mulheres de entrarem em bandas de metal – há sempre alguns trolls, definitivamente, mas não causam assim tanta mossa. Não se trata de uma questão de ‘elas vs eles’. Se queremos mais mulheres no meio, temos de ser nós mulheres a querer pertencer a esse meio e a trabalhar para isso, porque as portas estão abertas a quem quiser entrar e der provas de que é bom naquilo que faz.»

Os 11th Dimension têm em “Paramnesia” o primeiro e único álbum lançado em 2018. Os Secret Chord têm-se dedicado aos EPs, com “Dimensions of a Dream” (2017), e à promoção do single “Wraith of Oblivion” (2018).

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