Entrevista com Hermano Marques, dos portugueses Earth Drive. Hermano Marques (Earth Drive): «Acreditamos que o que é honesto e feito com muita paixão, mais cedo ou mais tarde terá a sua gratificação»

Na altura em que conversámos com Hermano Marques, porta-voz e guitarrista dos Earth Drive, em antecipação ao lançamento do novo “Helix Nebula”, e o questionámos sobre o motivo que levou à escolha do título, estávamos longe de imaginar este futuro que hoje é presente e a muitos anos-luz desta nova realidade que veio subitamente transformar o mundo e mudar tudo no quotidiano em redor. Segundo nos esclareceu, a Nebulosa da Hélice, também conhecida como The Cosmic Eye, situa-se «na constelação de Aquário e, de acordo com algumas crenças astrológicas, estamos neste momento num processo de mudança da Era de Peixes para a Era de Aquário» e «que isso se enquadrava perfeitamente no contexto emocional de transformação e mudança em que a banda se encontrava». Durante o processo de renovação da banda, «“Helix Nebula” foi um nome que surgiu ainda na altura em que estávamos a concluir o “Stellar Drone”. O nome ficou-nos sempre na cabeça sem que percebêssemos ainda que mensagem ou história tinha para nos contar. Enfrentámos depois do lançamento do “Stellar drone” algumas dificuldades com a saída do Luís [Eustáquio, um dos membros-fundadores] e a mudança era, de facto, algo que nos iria marcar profundamente».

Transformação e mudança é o que o Cosmos nos pede hoje, agora e já. Num instante em que nos vemos obrigados a isolar o presente e a adiar o futuro, fica o convite à viagem no tapete voador dos Earth Drive pelo espaço interestelar do heavy psych e stoner-rock de “Helix Nebula”, «interiorizando o sentido e o propósito deste álbum como algo transcendente e também representativo da transformação, do despertar e até da mudança social a que assistimos». Acreditemos, tal como eles, que o que é feito «com muita paixão, mais cedo ou mais tarde terá a sua gratificação. Às vezes, essa gratificação pode chegar das mais variadas formas, e, muitas vezes, nem sequer é entendida como tal».

«Sentimos que continuamos a conservar com muito cuidado tudo o que nos educou até aqui, mas muito curiosos e interessados em tudo o que nos vai surpreendendo e influenciando para que se mantenha sempre fresca uma atitude dinâmica e progressiva durante o processo criativo.»

Hermano Marques

Helix Nebula” parece ter deixado de fora aquelas jams de dez minutos que constam dos outros discos. Na vossa opinião, em que é que o novo álbum se distingue dos registos anteriores?
Não nos consideramos muito uma banda de jams. No entanto, tal como todos as bandas, fazemos algumas quando iniciamos os ensaios para aquecer um pouco e para sentir o que sai de cada um naquele dia. Se houver algo ali pelo meio que sintamos que valeu a pena e que tenha ficado gravado, voltamos a ouvir e a tentar perceber o que podemos fazer com essa ideia. Por vezes também trazemos alguma ideia de casa e fazemos uma jam ao redor dessa ideia para a desenvolver com o input de cada um de nós. É um processo muito dinâmico e interessante. Acreditamos que o que distingue este disco dos outros é apenas a ‘vida’ que transpirou através deste processo artístico. Quer pelas mudanças nas vidas pessoais de cada um, quer também pelo acolhimento de um novo membro na banda. Tudo isso influenciou a sonoridade do disco, tal como as influências do que andámos a ver, a ouvir e a ler.

O que acham do estado actual do mercado para bandas que se insiram no género stoner-rock, considerando o circuito de salas de concertos e de festivais nacionais e internacionais, e também o público apreciador de música pesada?
Existe, de facto, um conjunto enorme de bandas hoje em dia que se expressa através destas influências, e muita gente que se identifica com o som e com o ambiente ao redor destes festivais. Sentimos que é algo fantástico e muito reconfortante. Há cada vez mais boas cenas em Portugal de vários estilos e muito boa gente a tentar fazer crescer a música ao vivo, e isso é mais importante do que cada um dos estilos, géneros ou mercados. Cada artista, cada promotor, editora, público, etc., deve seguir e sentir o que lhe é realmente gratificante e fazê-lo com paixão sem necessidade de seguir esta ou aquela moda para ter sucesso. Acreditamos que o que é honesto e feito com muita paixão, mais cedo ou mais tarde terá a sua gratificação. Às vezes essa gratificação pode chegar das mais variadas formas e muitas vezes nem sequer é entendida como tal.

A cena metal e as bandas que surgiram nos anos mais recentes parecem cada vez mais permeáveis e receptivas a novas tendências menos características do género. Concordas? Consideram-se mais conservadores ou progressistas nesta matéria?
A arte é uma representação simbólica de tudo o que os artistas vivem em determinada sociedade. Sendo a actualidade caracterizada por uma variedade de informação constante e cada vez mais acessível, é natural que, enquanto pessoas e artistas, nos sintamos a navegar em imensas coisas diferentes, ficando realmente permeáveis, como referiste, a cada vez mais influências que se impregnam e que, efectivamente, durante o processo catártico da criação, tudo se misture e dê origem a algo original, criativo. É muito interessante que as bandas se estejam cada vez mais a expandir em novos horizontes sónicos e estéticos, para que se estendam e descubram novos caminhos que os artistas sempre sugeriram, e este público em específico também sempre procurou algo novo que o estimulasse perante a sua elevada exigência. É uma altura entusiasmante para a música. Sentimos que continuamos a conservar com muito cuidado tudo o que nos educou até aqui, mas muito curiosos e interessados em tudo o que nos vai surpreendendo e influenciando para que se mantenha sempre fresca uma atitude dinâmica e progressiva durante o processo criativo.

No novo “Helix Nebula” abordam, nalgumas das faixas, temáticas esotéricas ou religiosas de tendência budista. Fazem-no porque é uma área que vos inspira ou porque se consideram religiosos e praticantes dessas filosofias?
Talvez consigamos responder a essa pergunta explicando que “Helix Nebula” foi um nome que surgiu ainda na altura em que estávamos a concluir o “Stellar Drone”. O nome ficou-nos sempre na cabeça sem que percebêssemos ainda que mensagem ou história tinha para nos contar. Enfrentámos depois do lançamento do “Stellar Drone” algumas dificuldades com a saída do Luís, e a mudança era, de facto, algo que nos iria marcar profundamente. Durante o processo de renovação da banda, “Helix Nebula” mantinha-se como o possível nome do novo trabalho. Entretanto, percebemos que esta nebulosa se situava na constelação de Aquário e que, que de acordo com algumas crenças astrológicas, estamos neste momento num processo de mudança da Era de Peixes para a Era de Aquário. Nesse momento percebemos que isso se enquadrava perfeitamente no contexto emocional de transformação e mudança em que a banda se encontrava. Este insight foi, de facto, um momento especial e, de certa forma, deu-nos uma força tremenda, interiorizando o sentido e o propósito deste álbum como algo transcendente e também representativo da transformação, do despertar e até da mudança social a que assistimos. Enquanto pessoas e artistas, interessa-nos sempre algo que nos proporcione evolução no sentido de nos tornarmos as nossas melhores versões, e, como tal, o desenvolvimento pessoal, fundamentalmente, através da arte é sempre uma mais-valia.