Vinte e três anos depois de ser lançada a ideia para uma obra orquestral, Hansi Kürsch e André Olbrich cortam finalmente a meta com... Hansi Kürsch (Blind Guardian): «Considero “Legacy Of The Dark Lands” a minha obra-prima»

Vinte e três anos depois de ser lançada a ideia para uma obra orquestral, Hansi Kürsch e André Olbrich cortam finalmente a meta com “The Legacy Of The Dark Lands”, um épico acompanhado pela Prague FILMharmonic e que é a sequela directa do livro “Die Dunklen Lande” do escritor alemão Markus Heitz. Em conversa com Hansi Kürsch, a Metal Hammer Portugal quis saber que tipo de pressão teve de suportar e como se deve comportar um vocalista metal perante uma orquestra. «Musicalmente não houve pressão, porque sempre que lançamos um álbum estamos muito convictos do que estamos a fazer. Quando estávamos a compor estas músicas e quando estávamos a trabalhar nelas, tivemos uma boa sensação. Mas a pressão, para mim, surgiu quando comecei a cantar e tive de lidar com uma orquestra em vez de uma banda metal. Estávamos muito convictos da música e tínhamos uma boa sensação, e sempre que fazemos um álbum estamos certos a 100% de que as canções são óptimas. Como vocalista de metal, ‘lutar’ contra uma orquestra é diferente de lidar com uma banda metal – que é ao que estou habituado, porque há muita distorção, todos os instrumentos são gravados separadamente, portanto tenho acesso total a tudo o que quero ouvir. Mas a trabalhar com uma orquestra, tens a faixa de toda a performance, por isso não posso dizer para nos livrarmos das flautas ou dos metais, que geralmente são prejudiciais aos vocalistas. Tenho de viver com isso, com as dinâmicas que acontecem numa orquestra, assim como com a afinação. Quando se actua com uma banda metal é tudo afinado da forma como uma banda metal é afinada, e faz-se muita afinação com todos os instrumentos. A orquestra fala uma língua completamente diferente e dita as regras em termos de harmonia. Portanto, foi um desafio para mim, e, claro, quando iniciado, senti a pressão sobre como manter isto da melhor forma e surgir com um resultado que fosse satisfatório para toda a gente.»

Com a pressão e a disciplina obrigatória ultrapassadas, decerto que Hansi descobriu as maravilhas de cantar ao lado de uma orquestra ao invés de uma banda metal. O alemão confessa que, quando todos os problemas estavam resolvidos e quando se percebeu a essência da orquestra, pôde prestar atenção à sua performance e assim soltar-se. «Por mais estranho que pareça, quando os problemas estão resolvidos em relação à dinâmica e ao simples facto de que há apenas uma única performance e tenho de me adaptar a isso, há mais espaço para as vozes do que numa banda como Blind Guardian, porque é tudo orquestrado de uma maneira metal em Blind Guardian. As guitarras melódicas do André [Olbrich] estão por todo o lado e às vezes ocupam não só a mesma gama em que estou a cantar, [mas] também as mesmas posições na música. Portanto, há uma disputa constante quando se ‘luta’ contra uma banda metal que, por assim dizer, já é metal orquestrado. A orquestra é diferente, conforta mais a performance das minhas vozes. Quando todos os problemas estavam resolvidos e quando percebemos a essência da orquestra, pude mesmo prestar atenção à minha performance e pude soltar-me.»

Sabendo que “The Legacy Of The Dark Lands” foi, e ainda é, um empreendimento gigantesco, as lembranças e comparações com o fantástico “Nightfall in Middle-Earth”, de 1998, são inevitáveis, porque, nessa altura, esse álbum foi verdadeiramente visto como um colosso do power metal. Será, para Hansi, “The Legacy Of The Dark Lands” a jóia da coroa desde 1998? «Sim, diria que sim. Tem um tamanho e beleza narrativa que não conseguíamos obter desde “Nightfall in Middle-Earth”. Se não mais alto, poria [o novo álbum] no mesmo nível que “Nightfall in Middle-Earth”. Até certo ponto, se mergulhares no material, perceberás que, musicalmente, fala o mesmo tipo de linguagem que o “Nightfall…”, só que [agora] sem a banda, por assim dizer. O que eu fiz no “Nightfall…”, tentei aperfeiçoar neste álbum; portanto, sobre as vozes, considero [o novo álbum] a minha obra-prima de certeza.»

E por falar em “Nightfall in Middle-Earth”, quem também regressou às lides foram os narradores desse trabalho. O vocalista dos Blind Guardian revela que teve dificuldades em reencontrá-los, mas tudo acabou em bem. «Demorou um bocado até conseguir estabelecer contacto com eles, porque eu andei atrás deles, pelo menos, dois anos e não tive qualquer hipótese e sucesso para chegar a contacto com eles. Procurava em todo o lado menos nas redes sociais. Com as redes sociais não demorou mais do que 30 minutos até eles responderem, e acho que bastaram mais duas horas para termos uma data.»

Voltando ao início, recorde-se que este registo de Blind Guardian Twilight Orchestra é a sequela de um livro da autoria de Markus Heitz, um escritor que tem pouca, ou nenhuma, visibilidade em Portugal, mas que é aqui apresentado por Hansi Kürsch como um dos autores de fantasia mais conhecidos da Alemanha contemporânea. «Diria que é o autor de fantasia mais famoso dos últimos 10, talvez 20 anos. Li muitos dos seus livros e tem um estilo muito diverso – vai desde fantasia à Tolkien a material histórico e criminal. Ele cobre e é capaz de dominar todos os estilos, e isso maravilha-me muito. Quando nos estávamos a aproximar do início – ou pelo menos das gravações da orquestra quase há 10 anos –, falámos de conceitos e percebi que, com um projecto tão grande como este, não me sentiria confortável para surgir com a minha própria história. Contactei o Markus Heitz para fazer parte desta aventura, e, uma vez que é um fã de Blind Guardian desde a sua infância, alinhou logo. Foi uma boa colaboração e fez desaparecer muita pressão – ter o conceito sobre os meus ombros era pressão.»

“Legacy Of The Dark Lands” foi lançado a 8 de Novembro de 2019 pela Nuclear Blast e podes ler a review acedendo AQUI.