Todos sabíamos que os Behemoth teriam que surgir com um disco que fosse arrebatador não só musicalmente mas cujo título transmitisse de igual forma... Behemoth: o sagrado e o profano

DEUS, HONRA, PÁTRIA

«Porque não roubar um verso da Bíblia e para além de usá-lo distorcer também o seu significado?»

Todos sabíamos que os Behemoth teriam que surgir com um disco que fosse arrebatador não só musicalmente mas cujo título transmitisse de igual forma o mesmo espírito ultrajante de “The Satanist”, o álbum de 2014 que, com a sua notável execução musical e tendo como alicerce uma produção electrizante, seria acolhido pelos fãs como um dos melhores registos discográficos do colectivo polaco. Tal era do conhecimento de Nergal (vocalista, guitarrista e compositor da banda) que viu em “I Loved You at Your Darkest” o derradeiro sacrilégio por ser uma expressão cuja autoria é atribuída a Jesus Cristo. À Metal Hammer Portugal, o músico conta que «depois de termos lançado “The Satanist” e escolhido esse título para o disco, tinha consciência de que tínhamos que surgir com algo completamente diferente. Fizemo-lo pois a Bíblia foi sempre importante para a banda no sentido em que a leio muito para que possa encontrar lá algo que seja apelativo para a nossa a arte». Desta vez Nergal decidia ir um pouco mais longe e não se limitava apenas a encontrar um conceito que o inspirasse, como nos descreve. «Pensei: “Porque não roubar um verso da puta da Bíblia e, para além de usá-lo, distorcer também o seu significado?” Percebi que seria uma excelente ideia e pensei nela durante meses.» O tempo que Nergal dedicaria a alimentar esta opção traria igualmente uma série de dúvidas: «Não parava de pensar nisto e a dada altura perguntei-me se não seria melhor optar por algo mais tradicional, mas ainda bem que não o fiz», admite. «Sabia que era arriscado e que há pessoas que tendem a ser excessivamente conservadoras e não apreciam quando um artista abusa desta forma, algo que eu faço. Achei o título muito diferente, pelo que decidi avançar com ele.» Tal escolha criativa viria também a causar alguma confusão entre os fãs da banda, como explica: «É uma citação de Jesus Cristo e fez com que algumas pessoas ficassem confusas. Perguntavam-me: “O que é que aconteceu? Agora vão virar católicos?” [risos] Acho que resultou muito bem.»

Para alguém que viva num país que defenda que a religião não deve ter influência nos assuntos do Estado, talvez possa não entender a necessidade de ofender e provocar os crentes, direccionando o seu ódio ou energia para outras temáticas. Este não é o caso dos Behemoth, que vendo na Polónia um país conservador dominado pela religião e por uma sociedade cristã, consideram que o sacrilégio tem muito mais impacto: «Na minha opinião, o governo polaco e o presidente da Polónia chupam a pila à Igreja todos os dias», diz Nergal, acusando a sua raiva perante o governo do seu país. «Eles interferem nas nossas vidas. Recentemente tivemos esta situação relacionada com o aborto, em que o consideraram oficialmente ilegal. Ou seja, se um médico realizar um aborto será preso. Para mim, tudo isto só faz a Polónia recuar décadas e, ao invés de progredirmos e evoluirmos, estamos a dissolver-nos e a regredir. É um país estagnado. É errado, não nos leva a lado nenhum e odeio isso. Tenho as minhas razões para me sentir frustrado e manifesto essa frustração e raiva através da minha música, daí o título deste novo disco.» Depois do músico ter confessado que não se sente totalmente seguro no seu próprio país, assegurou que se não fosse pelo facto de a Polónia ser díspar a nível político e social, e que se tivesse nascido num país como a Austrália ou a Holanda, que oferecem outro tipo de liberdade, «provavelmente não faria o que faço agora». «Ainda assim», continua, «se os Behemoth tivessem nascido na Jamaica provavelmente tocaríamos reggae, só que eu nasci na Polónia, que está longe de ser o país mais perfeito da Terra, e odeio reggae. Acredito que encontraria o meu caminho, sabes? Se nasces artista acabarás por encontrar o teu espírito artístico independentemente da situação em que te encontras. A Polónia é um país muito complexo e complicado com o qual tenho uma relação de amor-ódio, pois para além de conseguir perceber que existe muito amor e muito potencial, também vejo o seu lado negro.»

A Polónia foi também palco de algumas controvérsias que afectaram o músico, senão vejamos: em 2010, Nergal enfrentava dois anos de prisão por rasgar uma Bíblia em palco e chamá-la de “livro de mentiras”, acabando por não ter de cumprir pena; em 2017, o governo polaco levava o compositor novamente aos tribunais devido ao design da t-shirt “The Republic Of The Unfaithful”, em que as autoridades legais tinham como base o desrespeito para com a Águia Branca presente no brasão de armas deste país, e que é visto como uma ofensa punida por Lei. Porém, do lado social nem tudo é mau: «Quando sou crítico para com o governo polaco, não tenho a intenção de criticar a sociedade», informa. «Há vantagens e desvantagens, lados bons e lados maus. Há muito boa gente na Polónia e recebo apoio da maior parte destas pessoas. Se eu tiver que caminhar pelas ruas de Varsóvia ou de outra cidade qualquer, o que vou encontrar na maior parte das vezes é simpatia e pessoas amigáveis, e raramente há reacções agressivas. De um ponto de vista geral, as coisas não são assim tão más mas estão longe de ser confortáveis.»

ROCK N’ ROLL

«[Os antifas] são o exemplo perfeito de uma organização desmiolada»

«O mundo está a reagir de uma forma excessivamente sensível a tudo, como podes ver por aquilo que se passa dentro da cena metal.» As palavras de Nergal surgem depois de a Metal Hammer Portugal o questionar se as pessoas estariam a tornar-se demasiado complacentes no que à religião diz respeito. «Dentro do metal tens pessoas a fazer coisas realmente muito estúpidas e como deves saber nem todos os rock n’ rollers são inteligentes. Além disso, até mesmo um tipo esperto pode fazer a escolha errada e fazer algo de muito estúpido. É tão fácil para as pessoas hoje em dia julgarem os outros. Coisas como “aquele é drogado” ou “os membros desta banda são agressores sexuais”. Limitam-se a ler os títulos e não investigam. Não lêem mais do que isso e não aguentam os cavalos. Tudo o que fazem é colocar um rótulo nas pessoas, algo que acontece muito actualmente. Odeio isso.» Era óbvio que Nergal precisava de extravasar alguma raiva, pelo que não interferimos no seu discurso: «Sabes, acabei de ler um livro excelente intitulado “Please Kill Me: The Uncensored Oral History of Punk”. É uma espécie de biografia do punk rock, especialmente aquele que foi feito na década de 1970, que era algo fora de controlo. É mesmo bom. Está muito bem escrito e ao ler pensava cá para mim que se todas as pessoas que passam a vida a queixar-se de tudo e mais alguma coisa tivessem vivido nesses tempos, ou então se fossem actualmente confrontadas por uma nova onda de punk rock, seriam completamente esmagadas. Era uma coisa muito violenta e caótica. Tudo o que eu peço às pessoas é que se acalmem, respirem fundo e pensem duas vezes antes de agir.» Não deixamos de pensar que Nergal se referia aos seus compatriotas Decapitated quando lançou o exemplo da banda que é julgada pela opinião pública como nada mais do que um agrupamento de agressores sexuais. Para os que não se recordam, a banda fundada em 1996 seria formalmente acusada de rapto e violação pelas autoridades dos EUA aquando da sua passagem pelo continente norte-americano para promover “Anticult” (2017). Retiradas as acusações por terem surgido provas que sugeriam a inocência dos membros da banda, os Decapitated regressariam à Polónia após três meses de prisão. Entre os músicos que se juntaram ao debate online encontrava-se Nergal, que serviu-se das redes sociais para publicar uma declaração onde demonstrava o seu apoio à banda. Nergal recordava agora esses tempos conturbados: «Estou satisfeito pelos Decapitated estarem em casa e por terem reactivado a banda. Estão a tocar novamente e a restaurar a sua posição», começa por dizer. «Por outro lado, estou muito chateado por constatar que o veredicto foi dado de forma a que a banda não possa regressar aos Estados Unidos e obter justiça junto da mulher que causou todos estes problemas. Eles deveriam receber milhões de dólares do governo norte-americano como reembolso por tudo aquilo o que aconteceu. Estão livres mas não podem fazer nada quanto a isso e deveriam poder ir lá e fazer justiça.» O músico admitiu também ter estado envolvido em situações em que fãs procuraram aproveitar-se do seu estatuto: «Nada a uma escala assim tão grande. As coisas correram melhor», explica. «Tivemos muita sorte em alguns casos, pois nos dias que correm vai tudo parar às redes sociais. Fazes alguma coisa e depois percebes que alguém filmou tudo. Nos anos 1990 e no início dos anos 2000, as coisas não eram assim e fazíamos um monte de merdas nos bastidores ou no autocarro de tour. Agora não podes fazer nada sem que tenhas logo os antifas atrás de ti.» Mencionar os antifas (grupos anti-fascistas) suscitou um novo surto de raiva em Nergal: «[Os antifas] são o exemplo perfeito de uma organização desmiolada», refere. «Vê lá tu que encontraram uma foto de quando participei num filme chamado “AmbaSSada” [2013], em que fui actor e vesti um uniforme nazi. Pegaram nisso e alegaram que eu era nazi. Eu fiquei tipo “vão-se foder seus cabrões, não sabem do que falam”. Limitaram-se a ver a fotografia e não quiseram conhecer o contexto. Então vão atrás de bandas como a nossa, ou como os Marduk ou os Watain, e alegam que somos nazis. Mas porque razão não fazem o mesmo com os Metallica? Existe uma fotografia no Google com o Lars [Ulrich] e o James [Hetfield] a fazer o Sieg Heil [saudação nazi], então porque não há um problema com isto?» Depois de um breve momento para se recompor, é Nergal quem dá resposta à sua própria pergunta: «O mundo está cheio de oportunistas e é tudo muito superficial e merdoso. Querem capitalizar a atenção ao perseguirem alvos fáceis. Não podem atingir os Metallica porque são demasiado grandes. Os advogados dos Metallica acabavam com os antifas se eles fossem por aí.»

De volta à religião, quisemos saber se este sentimento anti-religioso de Nergal poderia ter o seu fim à vista e se o passar dos anos poderia, de alguma forma, desvanecê-lo. «Não sei o que vai acontecer nos próximos dez anos», responde calmamente. «Talvez fique mais sereno, talvez relaxe mais... Todos os dias o mundo dá-me razões para ficar zangado e criar música. Talvez venha a ter filhos e eles acabem por me acalmar ou tornar-me ainda mais frágil.» Frágil? O Nergal? «Sim, sou muito frágil», confessa. «Mas tenho um escudo que utilizo para me proteger e não deixar que as pessoas vejam a minha fragilidade, pois isso seria perigoso. Talvez um dia desista. Espero que não. [risos] O sentimento anti-religioso é um excelente combustível para a arte e preciso mesmo dessa centelha para me fazer seguir em frente.»

Ainda que os Behemoth tenham as suas raízes no black metal, aquilo a que chamamos de direcção musical pouco ou nada significa para a banda e, para este disco, Nergal – na companhia do baixista Orion e do baterista Inferno – deixou as influências de Mayhem e Morbid Angel de lado e abriu caminho para o rock dos AC/DC, mostrando assim que os Behemoth não estão presos a géneros musicais. «Penso sempre da mesma forma e não foi diferente com este disco», refere à Metal Hammer Portugal. «Procuramos sempre redefinir o nosso som, procuramos sempre utilizar ferramentas diferentes e seguir outra direcção. Ainda que estejamos sempre dentro do mesmo subgénero e sob o domínio dos Behemoth, queremos expandir os nossos limites, e isso não foi diferente com “I Loved You at Your Darkest”. A diferença é que desta vez fomos mais aventureiros.» Nergal admite também reconhecer que a marca Behemoth é maior do que qualquer estilo musical que lhes possa ser atribuído e sente, como artista, liberdade suficiente para explorar diferentes paisagens sonoras. «Crio as minhas próprias regras, e se sou escravo de alguma coisa então será das minhas regras e não de fórmulas musicais. Se eu decidir manter-me dentro do género do heavy metal, isso significa que o amo e que quero manter-me fiel a ele, pelo que posso dizer que de certa forma sou livre», rematando: «É esta a minha vontade e foi isto que eu quis ser. Diria que isso faz de mim um artista livre.» Nergal estabelece também uma comparação entre as bandas do presente e as dificuldades que formações como a dos Behemoth enfrentaram no passado: «Lembro-me de ter recebido a minha primeira carta da Pagan Records, que dizia que queriam lançar as nossas cassetes e produzir o nosso primeiro CD», recorda. «Pensei: “Foda-se, isto é excelente!” Mas hoje em dia basta teres uns dois mil euros e já produzes o teu próprio CD. Está ao alcance de toda a gente. Nessa altura tínhamos 16 ou 17 anos e não tínhamos um cêntimo em nosso nome. Tudo o que tínhamos era o amor e a paixão pela música, e ter uma oportunidade como esta foi tudo para nós.» O compositor realça também a dificuldade que as novas bandas têm em afirmar-se e crescerem o suficiente para actuarem em estádios com lotação esgotada: «Talvez seja um sinal dos tempos», reflecte. «Contudo, acho que existem algumas bandas com potencial para crescerem ainda mais. Falo em nomes como Ghost, Gojira ou Mastodon, que crescem a um ritmo constante, e espero que os Behemoth estejam entre elas. É triste ver o afastamento dos Slayer mas alguém terá que ocupar o seu lugar, e trabalho arduamente para que um dia possa atingir esse nível, se tivermos a sorte e o tempo do nosso lado, pois o tempo passa muito rápido.»

Nergal vê o futuro dos Behemoth com muito positivismo, realçando que ainda há espaço para crescer: «A nossa prioridade é criar coisas que nos motivem e que sejam inspiradoras para nós, ponto final. Tudo o resto, como entrar nos tops da Billboard, claro que seria porreiro mas não é para isso que continuamos com os Behemoth. Mas sim, a nível criativo e estético, há muito mais para explorar.» Antes de darmos lugar às despedidas, questionámos Nergal muito rapidamente acerca do seu estado de saúde (de recordar que o músico foi diagnosticado com leucemia em 2010). «Sinto-me excelente!», responde. «Estou em forma, saudável e pronto para partir tudo!» Esperemos que assim seja.

Entrevista recuperada do artigo Ultraje Magazine.