“Like No Tomorrow” é o garage rock com um ácido na língua e a deixar crescer o cabelo. É rock harmonioso... Wedge “Like No Tomorrow”

Editora: Heavy Psych Sounds
Data de lançamento: 15.01.2021
Género: classic rock / garage rock / psychedelic rock
Nota: 4/5

“Like No Tomorrow” é o garage rock com um ácido na língua e a deixar crescer o cabelo. É rock harmonioso com doçura e muita cor.

A cápsula do tempo projecta-nos para a década de 60, inícios de 70. Mas não param por aqui. “Like No Tomorrow” é o garage rock com um ácido na língua e a deixar crescer o cabelo. É rock harmonioso com doçura e muita cor. É o terceiro filho dos Wedge com a produtora italiana Heavy Psych Sounds, em que os três multi-instrumentistas alemães se unem para fazer faísca: Kiryk Drewinski segura a magnitude da voz, da guitarra e da harmónica, Holger “The Holg” Grosser agarra a percussão com agilidade, enquanto o baixo e as teclas são magia de David Götz.

É um disco bem-disposto, rico em brilho e em fuzz, e onde as teclas fazem papel de alma. O instrumental espaçoso que não consegue parar quieto opõe-se às letras que ruminam na inquietação do tempo presente, com uma consciência cronicamente realista. É também um realismo esperançoso, e embora os tópicos mais pessimistas das letras sejam difíceis de ignorar, o entusiasmo da música também é-o. Os Wedge entram no novo ano com a mente preocupada, mas de indicador e dedo do meio levantados em cada mão.

“Computer”, a faixa de arranque, abre o álbum com um movimento viciante, em que os vocais sobrepostos atingem uma capacidade quase épica, com um toque Flower Power nas teclas que causa logo uma boa primeira impressão. O ânimo não cai nas sete faixas seguintes, com que oferecem mais que muitos exemplos de melodias e riffs carregados de energia. A progressão é uma forma de serpentar esquisita, imprevisível, com muito balanço, e, imaginemos, uns tiques corporais. As acrobacias nas passagens e nas alterações de tempo e ritmo que logo aqui vemos não vão a lado nenhum, não enquanto “Like No Tomorrow” estiver a tocar. Em contraste, as letras falam de dependência e subordinação tecnológica com preocupação.

A faixa que se segue, “Playing a Role”, tem o núcleo de uma música rock a pender para o mais clássico, a dar ares de banda sonora de um coming of age film sobre um adolescente com pouca vontade de se conformar. Simples e catchy, é também uma música que na sua progressão se faz dissolver numa sucessão inteligente de melodias sumarentas e truques psicadélicos antes de recuperar a exuberância inicial que a termina.

“Queen of the Night”, uma música dancy que quando termina já deixou toda a gente com falta de ar mas a pedir por mais, e “U’n’l”, que gira em torno de uma inspiração mais bluesy, são faixas que trazem a coolness do rock’n’roll e riffs alucinantes que deixariam Jimmy Page de sorriso na boca.

A abrir com um riff enrolado lindíssimo, “Blood Red Wine” esbate um pouco as luzes. A cores escurecem e tudo pulsa num espaço estranho e carnavalesco. Ajudado pelo instrumental, o humor torna-se aqui mais conturbado, sendo a solução (e problema) o vinho tinto. Drewinski diz-nos na letra: «I swear there is no love for me, I’m half the man I’d like to be. I always thought I was a dancer, but was I just a happy drinker?»

Já “Across the Water”, em que a letra nos fala sobre a emigração motivada por um contexto de guerra, recupera a confiança com uma sonoridade envolta numa névoa sonhadora e pacífica, com tonalidades spacey, muito ritmo e muito groove.

Uma viagem no tempo sabe sempre bem. Perante a saturação, existe em resposta uma tendência comum para encontrar consolo no passado. Isto é verdade tanto para a música, em que o retorno à nossa listagem pessoal de favoritos pode tornar-se reconfortante – represente isso o que represente para cada um –, como o é para a nostalgia, onde recorrer às nossas memórias favoritas nos consegue trazer alguma tranquilidade. Este disco sugere algo de semelhante. Com uma sonoridade antiquada que aqui nos sabe bem voltar a ouvir, tem como semente a tensão do presente, e o seu titulo propõem-nos: na falta de orientação para suportar o presente ou delinear algum trajecto futuro, o melhor será viver sem considerar o dia de amanhã.