Metal, com raízes no rock mais duro dos 1960s e no punk dos 1970s, sempre foi um género musical suportado por... Top 5: as bandas norte-americanas anti-sistema

Metal, com raízes no rock mais duro dos 1960s e no punk dos 1970s, sempre foi um género musical suportado por uma comunidade ostracizada pela sociedade geral, e por ideias diferentes das que eram suposta normal social. Essa posição, ainda que muitas vezes esquecida por quem apenas gosta do riff e pouco se importa com a mensagem, continua firme em diversos nichos. Por isso, escolhemos cinco bandas norte-americanas anti-sistema.

Wolves In The Throne Room (WITTR)
Formados em 2002, os WITTR são mais do que black metal atmosférico ou post-black metal, representando mesmo uma região e um novo rótulo musical. Oriundos do Estado do Washington, onde se ergue a Cordilheira das Cascatas que se estende até ao Canadá, a banda fundada pelos irmãos Aaron e Nathan Weaver é pioneira do que ficou conhecido como Cascadian Black Metal. Com o intuito de canalizar as energias paisagísticas e o misticismo do Noroeste Pacífico, lançaram o primeiro álbum “Diadem of 12 Stars” em 2006. O que parecia ser apenas um hype, tornou-se em algo firme que nunca mais saiu dos radares da imprensa e dos fãs. Cada vez mais conhecidos, foi com “Celestial Lineage” (2011) que mais seguidores angariaram através de um álbum ritualista e furioso ao mesmo tempo. Depois de uma experimentação ambient com “Celestite” (2014), a banda voltou a pegar nos amplificadores e na distorção eléctrica tão metal para, em 2017, editarem o fantástico “Thrice Woven”, um álbum que mantém as raízes da banda mas de uma forma mais madura, introspectiva como nunca antes e altamente melódica. Para além das tradições pagãs (que são cada vez mais extra-EUA no conceito de WITTR), a ecologia é um ponto forte na visão da banda.

Lançamentos mais relevantes: “Two Hunters” (2007), “Celestial Lineage” (2011), ” Thrice Woven” (2017)
Lançamento mais recente: “Thrice Woven” (2017)

Panopticon
Oriundo do Estado do Kentucky, este projecto de Austin Lunn está geograficamente longe do Estado do Washington para se rotular como Cascadian Black Metal, mas está próximo sónica e conceptualmente. Criado em 2007, as primeiras experiências assentam muito em sludge metal, mas a evolução própria chega ao black/folk metal com o quinto álbum “Kentucky” (2012). Neste disco, Lunn interpreta a luta dos mineiros, não só através de temas originais que falam da região mas também através de covers de músicas populares compostas e cantadas pelos sindicatos, como é o caso da famosa “Which Side Are You On?”. Se títulos como “Social Disservices” (2011) já davam conta de uma postura política, “Kentucky”, com o seu conceito esquerdista e sindicalista, não deixa qualquer margem para dúvidas. A partir dessa época, Panopticon tornou-se uma banda icónica no panorama undeground relacionado ao black/folk metal, lançando álbuns muitíssimo bem recebidos como “Roads to the North” (2014), “Autumn Eternal” (2015) e “The Scars of Man on the Once Nameless Wilderness I and II” (2018).

Lançamentos mais relevantes: “Kentucky” (2012), “Autumn Eternal” (2015)
Lançamentos mais recentes: “The Scars of Man on the Once Nameless Wilderness I and II” (2018, LP), “The Crescendo of Dusk” (2019, EP)

Falls Of Rauros
Contemporâneos das duas bandas anteriores, os Falls Of Rauros são originais do Estado do Maine, no lado oposto dos EUA em relação ao Estado do Washington que fica a Noroeste. No entanto, novamente, é uma banda com um conceito e som semelhantes a WITTR, ainda que com um nome retirado do universo fantasioso de Tolkien. Nos seus cinco álbuns, os norte-americanos prezam a natureza e vão contra a industrialização desenfreada que todos os dias destrói a fauna e a flora. Anarquismo é outro ideal encontrado nos versos da banda. «Diria seguramente que muito do espírito que guia a banda é a relação individual com adversidade», conta Aaron Charles. Essas contrariedades, diz-nos, passam pela «ideia de que todos os dias acordas num mundo físico, mas tens de pôr a armadura para encarar o mundo simbólico: as algemas da finança e a adoração omnipresente do dinheiro, trabalho insatisfatório, interacção social mecânica, oceanos de trivialidade». [in arquivos Ultraje] Tudo isto pode ser desmitificado com o álbum “Vigilance Perennial” (2017).

Lançamentos mais relevantes: “Hail Wind and Hewn Oak” (2008), “Vigilance Perennial” (2017)
Lançamento mais recente: “Patterns in Mythology” (2019)

Junius
Da cidade de Boston, Estado do Massachusetts, a banda de Joseph Martinez incorpora elementos de post-metal e rock atmosférico. Com “Eternal Rituals For The Accretion Of Light” (2017), o grupo encerrou uma trilogia e mostrou aquilo que realmente professa: ecologia, antifascismo, anticapitalismo, anti-guerra e busca espiritual – como é evidente no vídeo da faixa “Clean The Beast”. Pela altura do lançamento do terceiro disco, Martinez contava: «Penso que, quanto à minha geração nos EUA, nunca tivemos que lidar com algo como Trump. Está tudo com medo de protestar, e se alguém parte a janela de um Starbucks já pensam que é demasiado ‘violento’. Não creio que as pessoas percebem que vão ter que fazer algo mais do que apenas ficarem furiosos e partilhar qualquer coisa no Facebook. Tens de sair e protestar. Evitar violência se possível, mas se Trump ultrapassar os seus limites e se as suas políticas perseguirem a tua família, então os cidadãos dos EUA têm de tomar o país. Obviamente que isto é o pior cenário, mas precisamos de manter a violência no bolso e esperançosamente nunca usá-la.» [in arquivos Ultraje]

Lançamentos mais relevantes: “Reports From The Threshold Of Death” (2011), “Eternal Rituals For The Accretion Of Light” (2017)
Lançamento mais recente: “Eternal Rituals For The Accretion Of Light” (2017)

Khôrada
Com base no Estado do Oregon, Khôrada é a banda formada pelas cinzas dos saudosos Agalloch. Pela mesma altura que John Haughm surgia com os agora extintos Pillorian, os seus ex-colegas emergiam com este novo projecto. Don Anderson, Jason William Walton, Aesop Dekker e Aaron John Gregory (Giant Squid) afastaram-se do black metal e com “Salt” (2018) expandiram a sua criatividade para planos afectos ao post-rock e ao progressivo, sempre com a guitarra de Anderson e as letras políticas de Gregory a operar o leme. Aquando do lançamento do até agora único disco, Don Anderson explicava: «Trump é uma parte daquilo que o ambiente enfrenta e a contínua acumulação de riqueza por uma quantidade muito pequena de pessoas ricas, mas ele também é uma consequência de questões muito maiores, como a negação das alterações climáticas ou o racismo na nossa cultura e sociedade americanas. Mas como uma declaração provocativa: sim, é [um álbum] anti-Trump, mas apenas porque já somos profundamente anti-racistas, feministas, pró-LGBT, pró-ambiente e profundamente cépticos em relação ao capitalismo.» [in arquivos Ultraje]

Lançamentos mais relevantes: “Salt” (2018)
Lançamento mais recente: “Salt” (2018)