A nova banda do guitarrista Jairo “Tormentor” Guedz, ex-The Mist e primeiro guitarrista dos icónicos Sepultura, estreou este ano e conquistou... Jairo Guedz (The Troops of Doom): «Falei com Max, Iggor e Paulo. Pedi-lhes a bênção e gostaram da ideia»

A nova banda do guitarrista Jairo “Tormentor” Guedz, ex-The Mist e primeiro guitarrista dos icónicos Sepultura, estreou este ano e conquistou grandes elogios na imprensa. “Troops Of Doom” é o nome da música dos Sepultura que saiu originalmente no álbum de estreia, “Morbid Visions” (1986), mas que ficou conhecida no álbum seguinte, “Schizophrenia” (1987), como regravação, já com Andreas Kisser na guitarra. A nova banda brasileira de death metal conta com Alex Kafer (voz e baixo), Marcelo Vasco (guitarra), Alexandre Oliveira (bateria) e o próprio Jairo Guedz, que concedeu esta entrevista à Metal Hammer Portugal. The Troops of Doom estrearam-se com o EP “The Rise of Heresy“, que saiu na Europa pela editora portuguesa Hellven Records e no Brasil pela Voice Music.

O novo projecto, que ganhou grande repercussão na imprensa nacional e internacional, teve início há pouco mais de quatro anos. «Chamei o Shagrath (Dimmu Borgir) para as vozes e o Alex Kafer assumiria apenas o baixo, o Marcelo Vasco na outra guitarra e um baterista ainda sem nome. Na altura, todos gostaram da ideia, mas a agenda do Shagrath estava muito preenchida, com digressões de Dimmu Borgir e o lançamento de Chrome Division, e ele mesmo nos disse que seria impossível fazer isto. Eu não queria uma banda de estúdio, nunca foi a minha intenção. Então resolvemos guardar na gaveta e esperar mais uns anos. Em Março de 2020, no início da pandemia, o Alex procurou-me para retomarmos o projecto, mas desta vez como banda, e começámos a trabalhar nisso. Chamei o Marcelo e o Alexandre Oliveira, e demos início aos trabalhos. Acredito que tivemos a mesma iniciativa ao mesmo tempo, eu e o Alex.»

A proposta da banda pretende trazer um som mais old-school e directo dentro do death metal. Questionado sobre as diferenças nessa sonoridade entre a cena de hoje e a dos anos 80, Jairo diz: «Hoje as coisas são bem mais plásticas, menos roots do que nos anos 80. Todos procuram uma nova sonoridade, algo que seja inédito. Nós, em The Troops of Doom, não queremos descobrir a roda ou trazer algo de inédito para o mercado. Somos e seremos uma banda de death/thrash dos anos 80, com as mesmas influências que eu tinha naquela época. Um amigo produtor dos Estados Unidos disse-me: ‘A tua banda hoje é exactamente o que seriam os Sepultura se não tivesses saído.’ Acho que ele entendeu o recado!»

The Troops of Doom revisita algumas faixas que Jairo gravou com Sepultura nos anos 80, e trabalhar este material após tantos anos foi uma óptima experiência para os músicos e algo que muitos fãs precisavam de ouvir. «Além de me encher de orgulho, pude relembrar aquele tempo, cada momento… Vamos regravar ainda algum material de minha autoria com Sepultura daquela época, e, quem sabe, tocar ao vivo algumas das minhas músicas também. Quando decidimos fazer isto, fiz questão de entrar em contacto com cada um dos meus amigos envolvidos naquelas obras – Max, Iggor e Paulo. Pedi-lhes a benção para continuar este projecto e todos gostaram muito da ideia. Isso deixou-me mais tranquilo para realizar este trabalho!»

«Continuar em Sepultura seria muito bom… Mas isso também inclui todo o lado mau.»

Jairo Guedz

Sobre participar nos primeiros anos de Sepultura, visto o sucesso e a representatividade que alcançaram, Jairo não sente nenhum arrependimento por ter saído da banda, e continua muito amigo dos irmãos Cavalera, Paulo Xisto e Andreas Kisser. «Exactamente por ser hoje o único que continua a transitar entre todos eles, tendo muito respeito de todos eles, não me arrependo das minhas escolhas. Continuar em Sepultura seria muito bom, teria todo o sucesso e dinheiro, a experiência impagável de estar na estrada por tanto tempo, as amizades… Mas isso também inclui todo o lado mau, tudo de negativo que acontece numa banda, o break-up do grupo nos anos 90… E por isso não me arrependo de nada! Tenho todos como meus amigos, e isso não tem preço.»

Escolher o line-up para um banda não é tarefa fácil. Jairo conta como foi feita a escolha dos membtos de The Troops of Doom. «O Alex e o Marcelo já faziam parte da equipa há alguns anos, quando tivemos esta ideia. Foi tranquilo trazer todos de volta. O nosso problema era um baterista que fosse tão focado na banda e no trabalho quanto nós somos e, ao mesmo tempo, uma pessoa de bem, low-profile! O Alexandre Oliveira toca comigo num outro projecto chamado The Southern Blacklist, e já somos amigos há alguns anos. Ele foi a melhor opção.»

Com tantos anos de carreira, e sendo um dos pioneiros no cenário brasileiro, Jairo vê a a cena underground actual muito diferente. «Lembro-me de passar horas do dia e da noite sentado na cama com o Max e o Iggor nos anos 80, a escrever cartas à mão para todo o mundo todo, a gravar cassetes para enviar para países de todo o planeta, e passava meses à espera de respostas…Foi assim que os Sepultura fizeram o seu nome fora do Brasil, antes mesmo das digressões! Hoje, por um lado, é tudo mais rápido e fácil, mas, por outro, temos de aprender novas tecnologias todos os dias, saber como se divulga um álbum, uma live, um concerto… As editoras não são as mesmas e os processos de gravação mudaram completamente… Temos de nos adaptar. Mas os metalheads andam por aí, como sempre andaram, basta juntar três ou quatro bandas bacanas, famosas ou até mesmo locais, e o show nunca pára.»

O EP de estreia, “The Rise of Heresy”, teve óptima repercussão no mundo todo, e a banda não esperava toda essa recepção por parte da imprensa e dos fãs. «Ficámos assustados, de verdade! Não esperava essa reacção, e menos ainda de várias partes do mundo. Agora é trabalhar no full para lançar em 2021 e continuar esta estrada da melhor maneira possível, levando a nossa música aos fãs do mundo inteiro!»

O EP foi lançado no Brasil em formato CD, e tem lançamento em Portugal em CD e LP numa edição especial pela Hellven Records. Jairo conta como foi fechar com a editora portuguesa. «Os fãs brasileiros também terão a versão em LP em breve! A Hellven foi um achado. Eles trabalham com honestidade e respeito, da forma que gostamos de trabalhar sempre. Temos uma ligação directa e qualquer coisa que preciso basta falar com eles. Este lançamento abrirá portas a The Troops of Doom em toda a Europa, só podemos agradecer esta parceria.»

Finalizando, Jairo conta um pouco sobre os planos para o futuro, e sobre a esperada digressão, para quando o mundo se normalizar. «Estamos com uma agência de espectáculos em Espanha que já firmou alguns concertos para a banda em Novembro de 2021 em Portugal e Espanha. Agora estamos à espera de marcar mais na agenda dessa digressão por outros países. A Hueso Producciones, de Epanha, é responsável pelos nossos concertos na Europa e está a receber pedidos para concertos de The Troops of Doom de outros países interessados.»