Entrevista a Pupil Slicer. Pupil Slicer: mais do que um nome engraçado
Foto: Andy Ford

«É um álbum muito pessoal e há muita catarse envolvida.»

Kate Davies sobre “Mirrors”

O nome pode fazer-te enjoar e a música é completamente aterrorizante, mas os Pupil Slicer criaram o álbum de estreia mais empolgante em muito tempo. O trio sediado em Londres formou-se há apenas três anos e quase por acidente, como explica a vocalista/guitarrista Kate Davies.

«No início era tudo um pouco pela diversão. Tinha composto uns horríveis riffs de death metal que não combinavam com a banda em que estávamos na altura», conta. «Não estávamos a gastar muito tempo a escrever coisas, mas depois o vocalista original desistiu, e eu e o Josh [Andrews, bateria] pensámos: ‘Agora temos este projetco com um nome engraçado e estamos a receber muitas ofertas para concertos, então o que faremos?’ Pensámos na música de que gostamos, e para nós é Dillinger Escape Plan, Converge e Rolo Tomassi, esse tipo de bandas. Achámos que podíamos basicamente escrever o que quiséssemos e tentar a nossa sorte.»

O resultado desse pragmático passo em frente pode ser ouvido no esmagador “Mirrors”. Como trio feroz, completado pelo baixista/vocalista Luke Fabian, soam a tudo de uma só vez e a nada que já tenhas ouviu antes. Impiedosamente extremo – com uma dívida óbvia para com o grindcore, com o death metal e com o hardcore negro dos Converge –, músicas como os singles “L’Appel du Vide” e “Wounds upon My Skin” também roçam o ruído problemático, o ambiente meloso e ocasionais momentos melancólicos de arrepiar a espinha. Por vezes, são cruelmente rígidos e destrutivos. Noutras vezes, o pandemónio parece espontâneo e genuinamente perigoso.

«Acho que é metade por metade», diz Kate. «Há músicas, como a “Wounds upon My Skin”, que foram totalmente improvisadas. Era eu e Josh a tocar no quintal dele – ele fazia uns preenchimentos de bateria ao início e eu estava apenas a fazer riffs por cima disso. Depois eu voltava para o computador e esperava fazer uma música daquilo. Com coisas como “Stabbing Spiders” ou “Save the Dream”, “Kill Your Friends” – são muito mais premeditadas e técnicas. Escrevo tudo sozinha, depois mostro-lhes e dizem: ‘Isto é ridículo!’ Mas aprendem na mesma! [risos]»

Em contraste ao nome conscientemente ridículo, os Pupil Slicer têm muita inteligência e substância que reforçam a intensidade da sua música de esfolar caras. Kate é uma alma pensativa e de fala suave, que admite abertamente as constantes batalhas contra a depressão e a ansiedade. Embora principalmente poéticas e metafóricas, as letras de “Mirrors” vêm claramente de um lugar sincero e profundo. Entretanto, a subjacente brutalidade absoluta soa como um eufórico acto de catarse.

«É um álbum muito pessoal e há muita catarse envolvida», afirma Kate. «Não quero escrever directamente sobre as minhas próprias experiências porque isso pode ser demasiada exposição, por isso escrevi duma forma mais vaga, mas consigo ligar as coisas diretamente nas letras. Ao mesmo tempo, tentei fazer com que as letras tivessem um significado mais geral, sobre a sociedade ou os problemas que acontecem no mundo. De certa maneira, é sobre ansiedade em geral, portanto as músicas podem ser sobre a minha experiência específica, mas alguém com ansiedade ou depressão poderá encontrar uma ou outra maneira de se ligar a isso.»

«Assim que for possível, tocaremos o máximo que conseguirmos. Sentimos falta disso.»

Kate Davies

Como resultado, quando a banda conseguisse finalmente levar o seu espectáculo para a estrada, o tamanho das plateias deveria ter multiplicado pelo menos dez vezes. Como com toda a gente, os planos dos Pupil Slicer para 2021 e o lançamento do álbum de estreia foram para o galheiro por causa desta irritante pandemia, mas o lançamento de “Mirrors” gerou um burburinho ensurdecedor nos círculos do underground.

«Vai ser interessante ver como serão os próximos concertos, porque não damos um desde antes de assinarmos [com a Prosthetic Records]», diz Kate. «O último teve apenas 50 pessoas e foi do caraças! Mas estamos à caça de festivais para o próximo ano e potenciais digressões. Parece que não haverá nada no final deste ano. Se houver concertos, tocaremos! Assim que for possível, tocaremos o máximo que conseguirmos. Sentimos falta disso.»

A menos que tenhas uma atitude perigosamente relaxada em relação às tuas finanças, provavelmente não apostarias que uma banda chamada Pupil Slicer se tornará um grande sucesso. Mas como os tempos recentes nos ensinaram, tudo é possível e o inesperado está frequentemente à espreita. Kate e os seus companheiros produziram um dos álbuns mais visceralmente electrizantes que qualquer um de nós ouvirá este ano. Por vezes, as ideias mais idiotas são as melhores.

«Costumávamos ouvir pessoas a dizer: ‘É um nome horrível para uma banda! Como é possível?’», ri Kate. «Mas agora estamos a fazer com que as pessoas sigam mais além. No outro dia, alguém disse: ‘Estão a esforçar-se para ser a coisa mais brutal possível!’ Houve quem dissesse que deve ser uma referência a “Un Chien Andalou”, o filme surreal de Salvador Dalí [e Luis Buñuel]. Reparámos quando arranjámos o nome, mas depois de pensarmos que é um nome muito engraçado para uma banda, é algo que faz as pessoas falarem de qualquer maneira!»

Consultar artigo original em inglês.
Lê a review a “Mirrors” aqui.