Três das maiores lendas do thrash metal apresentaram-se, a 12 de Setembro, no Hard Club (Porto). Com a chancela de qualidade da Prime Artists,... Overkill Killfest Tour 2019 (12.09.2019 – Porto)
Destruction (Foto: João Correia)

Três das maiores lendas do thrash metal apresentaram-se, a 12 de Setembro, no Hard Club (Porto). Com a chancela de qualidade da Prime Artists, os Overkill, Destruction, Flotsam and Jetsam e Rezet deram arranque à digressão europeia Overkill Killfest Tour 2019, o que só poderia significar uma coisa: comparência imprescindível para qualquer fã de thrash metal da velha-guarda, daquele que fez tanta e tanta gente pegar pela primeira vez num instrumento musical. Cinco anos passados sobre o último Overkill Killfest, também com passagem por Portugal, Bobby “Blitz” Ellsworth e seus companheiros de armas decidiram visitar-nos novamente, cientes da devoção do público português. Além disso, e sempre que pode, Bobby dá um pulinho ao nosso país, incognito.

«Adoro Portugal, pá, é o melhor país da Europa. Já cá passei férias várias vezes com a minha esposa; vocês têm o melhor peixe do mundo, têm Super Bock…», confidenciou o vocalista à Metal Hammer Portugal. A entrega é mútua, a julgar por uma sala 1 inicialmente despida de público, mas que, à subida ao palco dos Flotsam and Jetsam já se encontrava meio-cheia, a três-quartos aquando da prestação dos Destruction e, no final, praticamente cheia e com o público a entoar um dos novos sucessos dos Overkill. A Metal Hammer Portugal já não fazia a reportagem de um evento 100% thrash metal há bastante tempo, e por isso ficámos surpreendidos com a diversidade de público que fez questão de marcar presença no Hard Club – desde os novos fãs adolescentes de heavy metal à faixa etária dos entas. Não era para menos: todas as quatro bandas lançaram o seu último álbum em 2019; logo, as expectativas estavam ainda mais elevadas para ouvir como funcionam os novos temas ao vivo.

As primeiras balas foram disparadas às 19 horas em ponto pelos Rezet, a banda alemã que anda na estrada com os três monstros do thrash. Com 15 anos de existência, encontram-se a promover “Deal With It!”, lançado em Fevereiro do corrente. É um conjunto que pratica thrash clássico muito agressivo, à boa maneira dos anos 1980 (incluindo a prestação em palco), e que conseguiu realizar algo difícil, que foi abrir para três colossos sem serem aborrecidos ou desinteressantes, o que é muito nos tempos que correm. Já nesta altura pudemos contar com um bom som, que, no entanto, apenas melhorou com o início do concerto dos Flotsam and Jetsam na ronda de digressão de “The End Of Chaos”, editado em Janeiro último.

Com este novo disco, os naturais do Arizona voltaram a acumular pontos de relevância, algo que já tinham feito com o anterior “Flotsam And Jetsam”, o disco que trouxe os thrashers progressivos para a ribalta, algo que já não acontecia desde “Cuatro” (1993). Com uma carreira de altos e baixos, ultimamente, os Flotsam and Jetsam encontraram novamente o caminho dos justos, com “The End Of Chaos” a provar que ainda há muito para dar por parte dos norte-americanos. O quinteto iniciou as hostilidades com “Prisoner Of Time”, claramente o tema mais forte do último registo. A versão de “Iron Maiden” ajudou a somar mais pontos. «É uma das bandas que mais adoro», disse Knutson a um público visivelmente interessado na actuação. Com uma qualidade sonora perfeita e um volume rigorosamente estudado, a banda teve ainda tempo de revisitar clássicos como “Hammerhead”, “I Live You Die” e, obviamente, “No Place For Disgrace”, um dos clássicos seminais da banda. Em palco, e para não variar, Michael Spencer roubou as atenções de todos os elementos da banda, incluindo do vocalista, ou não fossem os Flotsam and Jetsam reconhecidos pela importância da viola-baixo que é acompanhada pelas guitarras. Concerto memorável e um regresso em cheio por parte dos mestres americanos.

Mas uma pessoa não vive só de thrash americano, não quando o alemão tanto deu ao longo dos últimos 35 anos. Para o provar entraram em palco os Destruction, uma das divisões Panzer mais temidas da frente alemã. O primeiro obus veio na forma de “Curse The Gods”, um dos mais famosos temas do speed/thrash alemão, a começar pela imortal intro que a banda utiliza para iniciar os seus concertos. Ao contrário da banda anterior, os Destruction subiram um pouco mais o volume para terem a certeza de que as pessoas ao fundo da sala ouviam perfeitamente temas clássicos como “Nailed To The Cross” e clássicos futuros como “Born To Perish”,  “Inspired By Death” e Betrayal”, estes últimos extraídos de “Born To Perish”, lançado no mês passado. Como se não bastasse a visão imponente de Schmier a ocupar quase meio palco, perante um discreto mas sempre concentrado Mike, realce ainda para os dois novos reforços do contingente germânico: o guitarrista Damir Eskić e o baterista Randy Black, que trouxeram ao som dos Destruction uma necessária vitalidade e ainda mais técnica e energia. Depois das novas músicas, e como não poderia deixar de ser para uma banda com um historial tão rico como esta, as sturmtruppen regressaram aos clássicos com “The Butcher Strikes Back” e “Thrash ‘Till Death”. Para o final, Schmier perguntou: «Estão preparados para os Overkill? Querem Overkill?» Dito isto, deram início a “Bestial Invasion”, do clássico “Infernal Overkill”. Assim como já os tínhamos visto no princípio do ano, os Destruction apresentaram-se coesos e cientes dos temas que agradam às massas. Melhores do que isto, só mesmo com o Mad Butcher em palco, coisa que acontece muito pontualmente. Fora isso, simplesmente perfeitos.

Era chegada a vez dos Overkill. E que dizer de um dos conjuntos mais reverenciados de sempre na história do heavy metal, ainda mais quando apresentam um festival em seu nome? Oriundos do Garden State, a alcunha de Nova Jérsia, lar da maior comunidade portuguesa emigrada nos Estados Unidos, os Overkill andam a dar festas sem parar desde o princípio dos anos 1990. Nesta passagem da digressão por Portugal, os norte-americanos promoveram o seu mais recente trabalho, “The Wings Of War”, lançado em Fevereiro deste ano, que tem colhido as mais altas críticas por parte dos fãs e da imprensa especializada. A banda atacou imediatamente com “Last Man Standing”, tema inicial desse trabalho, o que causou o caos, com slam e crowdsurfing a brindar a banda.

As origens dos Overkill são o caso mais clássico do panorama heavy metal: provenientes da classe operária, da school of hard knocks, ou seja, da escola da vida, a banda não esconde as suas raízes e tem até orgulho nelas, retratando-as em temas como “Ironbound”. Uma viagem de Manhattan até Portugal demora 20 minutos de comboio. O Ironbound, o bairro operário com mais portugueses por metro quadrado na América, começa na Ferry St. e na Portugal Avenue, a verdadeira casa dos Overkill. Assim, não é de estranhar que tivessem dado o nome do bairro a um disco e um tema, e tão pouco que o público português seja tão querido à banda. “Hello From The Gutter” é outra música que associa as dificuldades ultrapassadas pelos membros da banda. Os clássicos a sério começaram à quarta música, com a imortal “Elimination”, de “The Years Of Decay”. A banda reviu ainda discos como “Necroshine”, sempre entremeando clássicos antigos com os novos temas (“Head Of A Pin”).

A determinada altura, Bobby dirige-se ao público. «Peço desculpa, o meu português é péssimo. Na verdade, até o meu inglês é péssimo! Mas a minha linguagem gestual… A minha linguagem gestual está óptima!», diz, erguendo o dedo do meio e dando mote à clássica versão dos The Subhumans, “Fuck You”. Para finalizar, a banda desfiou a música feelgood de 2019: “Welcome To The Garden State”, mais uma referência ao estado de Nova Jérsia.

“Welcome to the Garden State,
The best damn place in the USA,
You may not agree, you bitch and moan,
I’ve been everywhere but it’s never like home.”

«Considerem-se todos cidadãos honorários do grande Estado de Nova Jérsia», atirou, divertido, o vocalista para o público com o seu timbre vocal sobejamente conhecido.

Assim se cumpriu a data inaugural de uma digressão em que membros das bandas conviveram com o público antes, entre e depois dos concertos no ambiente sempre relaxado do Hard Club. Uma das vantagens da primeira data é que os membros das bandas estão frescos e cheios de paciência. Só quem não foi não sabe o que perdeu. Numa época em que não sabemos ao certo o que está para vir, podemos sempre contar com os velhinhos para nos guiarem. Se tiverem oportunidade de apanhar uma das restantes datas na Europa, não pensem duas vezes.