O pioneiro do dungeon-synth sobre os álbuns que o tornaram no músico que é. Mortiis: 10 álbuns que mudaram a minha vida

O pioneiro do dungeon-synth fala sobre os álbuns que o tornaram no músico que é hoje.

No que diz respeito à compra de discos, Mortiis descreve-se como «um perigo para mim próprio». O pioneiro do dungeon-synth é um nerd sem vergonha quando se trata de comprar vinis raros.

«Acho que o máximo que gastei em algo foram 1500 euros numa versão verde-escura / oliva do “Black Metal” dos Venom», diz o homem nascido Håvard Ellefsen. «Algumas dessas bootlegs são tão raras que, sem Discogs ou grupos de Facebook, a maioria de nós não teria hipótese de encontrá-las.»

Mortiis, é claro, ascendeu à infâmia como baixista original dos fundamentais Emperor no início dos anos 1990, antes de embarcar numa carreira a solo com próteses aprimoradas.

O seu som alterou-se da atmosfera húmida de discos antigos, como “Født til å Herske”, às influências industriais mais endurecidas de álbuns posteriores como “The Grudge”, de 2004, e “The Great Deceiver”, de 2016.

«Estes álbuns que escolhi não são necessariamente os meus favoritos», diz sobre os discos que musicaram a sua vida. «Só precisam de ter um certo significado para mim nalgum momento.»

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TANGERINE DREAM – HYPERBOREA (1983)
«Este é o primeiro álbum dos Tangerine Dream que ouvi. Não é necessariamente o meu período favorito deles, mas foi o que me atraiu para eles. O material inicial era realmente soundscape-y, muito mais experimental, mas aqui começaram a ficar um pouco mais atmosféricos, futuristas. Começaram a incluir todas aquelas melodias e ganchos nas suas músicas, algo de que gosto porque sempre fui um fraco por uma boa melodia.»

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NINE INCH NAILS – THE FRAGILE (1999)
«Este disco significou muito para mim e para muitas outras pessoas. Ouvi-o quando duvidei muito do que estava a fazer – estava nessa bifurcação da minha vida, em que não tinha a certeza se iria entrar em modo autodestrutivo, sem me importar com nada e parar com a música, ou se tentaria algo completamente diferente com a minha própria música e sentir-me bem comigo mesmo. Na verdade, recebi-o do Danny Lohner [o então multi-instrumentista dos NIN], e ouvi-o provavelmente cem vezes, apenas para analisar todas as coisas que estavam a acontecer nele. Foi um óptimo disco de se ouvir, mas, ao mesmo tempo, percebi que eu nunca seria tão bom.»

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ENIGMA – LE ROI EST MORT, VIVE LE ROI! (1996)
«Eram alemães, uma espécie de grupo pop da new age. Eram os mestres do som em camadas e soavam como nada que se tinha ouvido antes. Este foi o terceiro álbum – é incrivelmente denso, mas também pop e atmosférico e misterioso. Existem todos aqueles coros e camadas de reverberação, mas por baixo de tudo há músicas muito boas, e isso põe Enigma no topo para mim.»

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VENOM – WELCOME TO HELL (1981)
«Adoro o “Black Metal”, acho que o “At War With Satan” é excelente, e também adoro o “Possessed”. Mas este tem músicas melhores do que qualquer outro disco que eles fizeram. Tem aquela vibração de uns Motörhead malévolos – é perverso e sujo como o caraças. Só que parece que eles não percebem que estão a fazer um álbum! O que inspirou Emperor sobre Venom não foi tanto a música mas a vibe geral – eles estavam mais-além e não queriam saber de nada. E as letras dos Cronos eram fantásticas (…). Ele era o Jim Morrison do black metal.»

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W.A.S.P. – W.A.S.P. (1984)
«Tinha dez anos quando foi lançado. Ouvia Kiss desde os quatro anos. O meu irmão, que era dois anos mais novo do que eu e nunca teve um pingo de interesse em música, recebeu-o no Natal em cassete. Pensei, ‘uau, o que é que os meus pais me vão dar?’. Abri o meu presente e era a porra dos Huey Lewis and the News . É do tipo, ‘nem me conhecem, pois não?’. Ainda acho que é um dos melhores álbuns de estreia de todos os tempos. “School Daze”, “L.O.V.E. Machine”, “I Wanna Be Somebody” – meu, é tudo excelente. Os concertos ofuscam tudo o resto, mas o Blackie Lawless é um óptimo compositor. “Wild Child” [single dos W.A.S.P. de 1985] apareceu-me na rádio no carro há umas noites e pensei, ‘meu, este gajo é incrível!’.»

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PENTAGRAM – PENTAGRAM (1985)
«Os Pentagram têm uma biografia muito confusa – existiam desde o início dos anos 1970 com uma variedade de formações, separaram-se e reformaram-se mais do que uma vez. Este foi o álbum de doom metal mais cativante, fuzzy e bem escrito desde “Master Of Reality” [Black Sabbath]. O Bobby Liebling tem aquela voz realmente distinta – não vão confundi-lo com ninguém. E como conseguiu manter-se vivo, não entendo. Iggy Pop nem se compara a ele. Há um documentário sobre ele [“Last Days Here”] – olhem apenas dois segundos para a cara dele. É a rosto do crack

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IGGY POP AND THE STOOGES – RAW POWER (1973)
«Falando do Iggy. Descobri-o em meados dos anos 1990, quando ainda se conseguia entrar numa loja de discos e encontravam-se coisas boas, e isso custaria mais do que uma nota de cinco. Estava a tornar-me um pouco mais horizontal nos meus gostos musicais, e estava a cavar mais fundo para trás para ver quando é que a cena começou. O David Bowie produziu “Raw Power”, e não vou dizer que soa óptimo, mas soa incrível – é pesado e agressivo, e o Iggy tem a energia de dez homens adultos num pequeno corpo. Durante três anos seguidos, rodei-o em todas as after-parties

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MINISTRY – PSALM 69: THE WAY TO SUCCEED AND THE WAY TO SUCK EGGS (1992)
«Fiquei realmente dividido entre “The Mind Is A Terrible Thing To Taste” e “Psalm 69”, mas em termos do que mais me inspirou, provavelmente é este. Tenho uma quantidade insana de inspiração nele. Definitivamente, fui um bocado Ministry na “Scalding The Burnt”, que está no “The Great Deceiver” [de 2016]. Apanha coisas como “Jesus Built My Hotrod” – é um álbum mais metal. Isso não significa que é melhor, só significa que tentei copiá-lo mais.»

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SKINNY PUPPY – TOO DARK PARK (1990)
«São uma banda antiga do industrial e inspiraram uma grande quantidade de bandas. “Too Dark Park” diz tudo no título – é um dos seus discos mais sombrios. Há uma fantástica programação de sintetizadores rítmicos misturada com alguns sons orgânicos. Achei que era absolutamente fantástico. Ouvia muito isto em meados dos anos 1990. Analisei-o quando estava a gravar “The Smell Of Rain” [de 2001]. Obviamente, falhei totalmente, porque nada nesse disco soa como Skinny Puppy.»

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ANGEL WITCH – ANGEL WITCH (1980)
«Este é o disco que praticamente me apresentou a primeira vaga do heavy metal britânico. É um disco com aquele conteúdo melódico fantástico. Tocavam brilhantemente para uma banda que só existia há alguns anos. Não há uma única música que não seja realmente poderosa. Só descobri esta cena quando fui morar para a Suécia nos anos 1990 e comecei a sair com uns tipos mais velhos que compravam discos desde o início dos anos 1980. Mostraram-me coisas como Angel Witch e Demon, e assim descobrem-se todas essas bandas porreiras e obscuras como Bashful Alley e Traitor’s Gates – todos uns miúdos vindos de estranhas aldeias da Inglaterra que fizeram um single e separaram-se. Depois os portões abrem-se e descobres 4000 [vinis de] 7″ que foram lançados entre 1979 e 1982 que são impossíveis de encontrar. É como se todo um novo universo se abrisse. Um universo muito caro se coleccionares discos.»

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“Spirit of Rebellion” é o álbum mais recente de Mortiis e está disponível AQUI.

Consultar artigo original em inglês.