"Scriptures" é um trabalho de death metal directo e afiado destinado ao moshpit e aos seus aficcionados. Que é como deve ser, afinal. Benediction “Scriptures”

Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 16.10.2020
Género: death metal
Nota: 4/5

“Scriptures” é um trabalho de death metal directo e afiado destinado ao moshpit e aos seus aficcionados. Que é como deve ser, afinal.

Exceptuando o regresso do clássico vocalista Dave Ingram, em “Scriptures” os Benediction mantêm o tradicionalismo pelo qual ficaram sobejamente conhecidos desde a formação da banda, no final dos anos 1980. Após clássicos essenciais como “Subconscious Terror”, “The Grand Leveller” ou “Transcend The Rubicon”, discos fundamentais para a cimentação do death metal, a banda sofreu o típico síndrome de prateleira: cada novo disco era apenas ‘mais um disco’, sem inovação, sem algo que fizesse o ouvinte ansiar por mais. 2020 é ano de “Scriptures”, um registo que tem toda uma aura mística à sua volta: a capa, o título religioso, 12 temas (um número profundamente ligado a religiões e mitos, tais como o Hinduísmo, o Judaísmo e o panteão dos deuses gregos) e títulos como “We Are Legion”. Todo este simbolismo parece anunciar uma nova era para os Benediction, mas nada poderia ser mais ilusório.

Em poucas palavras, “Scriptures” é um disco de death metal clássico, ponto final. Não existem floreados, violinos, solos e momentos complexos inumanos (mesmo que “Rabid Carnality” tenha um destes, curto mas bom) ou uma mensagem dentro de uma mensagem – é um trabalho de death metal directo e afiado destinado ao moshpit e aos seus aficcionados. Que é como deve ser, afinal. Bandas como Benediction fazem questão de nos lembrar que, embora a qualidade técnica não seja o seu foco principal, a vaga mais velhinha ainda tem muito para oferecer na forma de groove (“Stormcrow”, “In Our Hands, The Scars” e, principalmente, “Progenitors Of A New Paradigm” e os seus excelentes e espessos riffs), claramente providenciado por Giovanni Dürst, o novo baterista que imprime mais andamento aos velhotes, e de truques muito batidos, como um urro certo na parte certa, mas que, embora vistos e revistos, resultam sempre em momentos auditivos e de emoção sólidos – como, por exemplo, os momentos iniciais do baixo em “Tear Off These Wings”, um piscar de olho quase pornográfico a outro momento maior do death metal clássico, a eterna “Scum”.

Regressando a Ingram, poucos outros vocalistas entenderiam tão bem o conceito dos Benediction como o homem que os ajudou a catapultar para o sucesso mundial com dois dos discos anteriormente mencionados. Ingram está de pedra e cal, um pouco como se nunca tivesse saído da banda, mas apenas feito uma longa pausa. A entoação e a potência do frontman ecoam em todo o registo e reconhecemo-lo aos segundos iniciais de “Iterations Of I”, que dá o pontapé-de-saída do novo trabalho. A dupla de guitarras Brookes/Rew adaptou-se de molde a acomodar o regressado vocalista, mas sem perder a enchente de riffs inspirados e clássicos com que sempre nos brindaram.

“Scriptures” consegue reavivar o interesse nos Benediction por vários motivos, alguns já referidos. A qualidade magistral da produção – sem falhas, sem experiências – é digna de uma obra sem adulteração feita por quem entende do assunto, que é como quem diz: metal para metaleiros. E nós, os metaleiros, muito agradecemos aos Benediction por isso.