Entrevista a Melvins. Melvins: das estrelas à sarjeta
Foto: cortesia da banda

«Sou uma ave-rara no que toca a política: sou pró-aborto, pró-legalização de drogas, pró-armas… Não tenho partidos e essa gente não é a minha gente.»

Buzz Osborne

À hora marcada, Buzz “King Buzzo” Osborne, vocalista e mestre de cerimónias dos Melvins, abre-nos a porta da sua casa em North Hollywood, Los Angeles. O clima e a insónia geral da Cidade dos Anjos convenceram Osborne a mudar-se de Washington mais para sul já há alguns anos. Se é verdade que chamam a Nova Iorque a cidade que nunca dorme, que dizer de Los Angeles, uma megacidade onde, se quisermos, podemos comprar um bife grelhado com ovos estrelados, um Maserati, uma pilha de 1000 DVDs ou uma remessa de contraplacado às 4 da manhã? É este o tão falado sonho americano, o poder adquirir tudo o que desejarmos a qualquer hora. Literalmente. «Mas vocês, os portugueses, foram os grandes descobridores, não é? A certa altura havia mercadores portugueses em todo o mundo. E descobriram os grandes caminhos marítimos! Pá, adoro a vossa costa! Quando tocámos aí, fomos às praias e adorei a cena, a paisagem!», diz-nos Buzz, visivelmente nostálgico com os bons tempos passados em Portugal. Diz o ditado que um homem se agarra pelo estômago, mas qualquer falante de língua portuguesa ficará babado ao ouvir uma pessoa que tanto respeita falar bem do seu país, seja ele Portugal, Brasil ou qualquer outro da CPLP. Está-nos no sangue, na cultura. E quando Osborne se entusiasma, uma entrevista passa a uma conversa descontraída. Conhecido pelas suas respostas curtas, a Metal Hammer Portugal conseguiu tocar em certos pontos que fizeram o homem falar até mais não.

E quisemos começar a entrevista exactamente com um tema muito importante do novo disco, “Working with God”, que representa o regresso dos verdadeiros Melvins – a quantidade de fucks que pelas nossas conta, ultrapassa as 100 repetições. Seria estúpido pensar que isto foi deliberado, mas é fantástico perceber que os Melvins pegaram num palavrão e fizeram com que a sua utilização ao longo do novo álbum resultasse tão bem. «A resposta ao novo disco tem sido muito boa e estamos bastante satisfeitos com o resultado. Mas tipo, 100 vezes?! Não fazia ideia que tinham sido tantas… impressionante! [risos] Mas eu gosto disso, a ideia foi mesmo essa.» “Working with God” reapresenta-nos Mike Dillard (bateria) aos Melvins, mas, mais do que isso, ele chega mesmo a escrever um tema no novo registo. Embora o contacto nunca se tivesse perdido com o Mike ao longo dos anos, é uma coisa completamente nova para ele reingressar nos Melvins, algo que deve ter tornado as gravações do disco interessantes.

«Queríamos mesmo que ele entrasse neste disco e que escrevesse temas connosco, foi sempre uma preocupação tendo em conta as circunstâncias. Ele envolveu-se muito neste disco e quero voltar a gravar discos com ele. Não é fácil, pois ele vive a mais de 2000km de nós, entendes? Torna tudo muito mais complicado. Começámos a escrever este disco mal começou a pandemia. E como já tinham passado cinco ou seis anos desde o último, e porque correu bem, decidimos que estava na altura de se voltar a gravar outro. Repara, estamos numa posição que nos permite fazer tantas coisas quanto nos apetecer. Não nos ficamos apenas pelos Melvins, como sabem.»

O humor quase adolescente e apatetado que ouvimos em “Working with God” é uma marca registada dos Melvins, mas também de muitas outras lendas que os rodearam, bandas vizinhas como Nirvana, Mudhoney e Soundgarden, bem como Foo Fighters, muito devido ao humor surrealista de Dave Grohl. O próprio nome da banda é uma anedota – o baixista Dale Crover trabalhava na secretaria de um supermercado da zona no qual havia um supervisor de quem ninguém gostava, chamado… Melvin. Acharam que era um nome ridículo o suficiente para baptizarem a sua banda e eis que nascem os Melvins. Isto quase parece ser um sentido de humor juvenil seco reservado àquela área geográfica de Aberdeen, Montesano, etc.. «Sempre fomos assim em miúdos e nunca nos fartámos de o ser. [risos]» Trata-se do mesmo tipo de humor que levaria Osborne a contactar a sua editora e os seus promotores para anunciar que os Melvins iriam fazer uma digressão de 51 datas em 51 dias e que recebeu a mesma resposta da parte de todos os contactados: «Isso é absurdo, tenham juízo!». E, ainda assim, os Melvins fizeram-na!

«Como não temos um manager, foi menos uma preocupação. Em parte, a editora gostou da ideia, gerou muita promoção, eles não queriam saber. Já o organizador da digressão ficou meio reticente a princípio, pois era bastante difícil e pensava que não iríamos conseguir terminá-la, que éramos malucos. Quando lhe mostrámos que era possível, ele gostou da ideia e alinhou. E fizemo-la. Não vou dizer que cada concerto foi melhor do que o outro, porque seria mentira. Tínhamos apenas uma coisa em mente – tocar 51 concertos em 51 dias, um em cada Estado (incluindo Washington, D.C.). Embora a produtividade tenha tendência a diminuir, posso dizer que, quando acabámos a digressão, estávamos no nosso auge, estávamos uma máquina monstruosa! Podíamos ter tocado mais datas em dias seguidos a essas 51 se quiséssemos, na boa. Podíamos ter tocado duas vezes no mesmo dia e no mesmo Estado, na boa.» Este é o tipo de coisas que, juntamente com discos como “Houdini” ou “Gluey Porch Treatments”, fez com que os Melvins influenciassem tantas e tantas bandas ao longo de 40 anos de actividade, caso dos Mastodon e de tantas outras, e de ainda terem apadrinhado o grunge e o sludge. «Não penso muito nisso. É bom isso ter acontecido, não me chateia. Ainda bem que fomos nós a influenciá-las e não bandas piores. [risos] Tenho muito coisa em que pensar e não me ajuda nada ouvir as pessoas dizer: ‘A culpa disto tudo é dos Melvins.’ Não me culpem que eu não tenho nada a ver com isso. [risos]»

E se, até este ponto, a entrevista tinha sido à boa e velha maneira do vocalista (ou seja, curta e grossa), a última pergunta/resposta valeu pela entrevista toda. Ao fim e ao cabo, só queríamos saber como é que os Melvins pensavam promover “Working with God” numa altura em que os concertos ao vivo são pouco mais do que uma miragem. Nada nos poderia ter preparado para, finalmente, conhecermos o verdadeiro Buzz Osborne. Em relação a vacinas, a política, ao Black Lives Matter (BLM), à polícia, às armas, ao aborto, às inquietações e dúvidas sobre a covid-19… Enfim, o menu completo.

«Tive uma vida artística bastante exuberante, mas levo uma vida muito conservadora: não bebo, não me drogo, estou casado há 27 anos…»

Buzz Osborne

Covid-19. «Repara, não fui vacinado e nem sequer sonho em ser elegível para tal. Os procedimentos de vacinação aqui na Califórnia são estranhos: uns obtêm-na, outros não. Não entendo, mas é um cenário muito estranho e não sei no que é que estão a pensar. Acho que os políticos têm menos interesse nas pessoas do que nas suas agendas políticas. Na minha visão, quem a quisesse, obtinha-a e pronto. Quem não quisesse, não a tomava. Isto é um bocado como aquela citação do Martin Luther King – tu não podes julgar uma pessoa que não seja pelo carácter, não podes julgar o livro pela capa, sabes? Aparentemente, não somos todos iguais. Embora não seja vacinado, não vou mudar o meu estilo de vida. Não sei em que devo acreditar, se devo ou não usar máscara. Se tiver de a usar, uso-a. Mas, por outro lado, existe em Los Angeles uma vasta população de sem-abrigo que não usa máscaras e não há grandes relatos de gente infectada. E estamos a falar de pessoas que convivem com muitas outras diariamente. Isto acontece porquê? Existe mais do que a ciência por detrás disto. Eles próprios não sabem com o que estamos a lidar concretamente. Não sou especialista, mas quero crer que eles basicamente não estão infectados porque estão no exterior, sei lá. Ninguém sabe, parece-me. Acho que, se te queres proteger, deves fazê-lo. Se eu quiser usar máscara, uso-a, é uma responsabilidade minha, ninguém tem de me forçar a fazê-lo. Ninguém sabe exactamente o que vai acontecer, isto é um pouco como prever o tempo. [risos] Acredito que a pandemia é real, que existe, mas que também vamos olhar para ela de forma totalmente diferente daqui a cinco anos. As minhas sugestões: protege-te, não te importes com o que os outros fazem e continua a fazer o que achas correcto. Vou continuar a usar a minha máscara, a manter a minha distância social e a desinfectar as minhas mãos.»

Texas e política. «Não me posso preocupar com o Texas. É um assunto referente a esse Estado e tenho a certeza de que os texanos não estão a levar as coisas às cegas, que eles não se deixam enganar pelos políticos. É infeliz o que se está a passar lá, mas não me surpreende. Tenho muito pouca fé nos representantes políticos que me representam e não admito que eles falem por mim – seja qual for o lado para o qual se inclinam, eu questiono tudo. Depois, sou uma ave-rara no que toca a política: sou pró-aborto, pró-legalização de drogas, pró-armas… [risos] Não tenho partidos e essa gente não é a minha gente. Acho engraçado quando me perguntam se apoio o Trump. Não! Ah, então apoias o Biden! Não! [risos] Não gosto de tomar lados. Consigo tomar as minhas decisões e não precisam de me dizer o que devo fazer.»

Vida pessoal. «Tive uma vida artística bastante exuberante, mas levo uma vida muito conservadora: não bebo, não me drogo, estou casado há 27 anos… Mas não me importo que o faças. A minha exuberância exprime-se através do meu coração. Droga e bebida não são a minha cena. Mas faz favor, droga-te e bebe à vontade! Acho que é uma decisão que só cabe a ti decidir. Queres comprar uma arma? Compra! Queres fazer um aborto? Faz! O que é que eu tenho a ver com isso? Se é o que queres, força! Isto se calhar é muito de liberal, não? [risos] A coisa é assim: vou-me proteger, vou proteger os meus, ser a melhor pessoa possível e ser paciente. Se puder começar com as coisas pequenas, acredito que consigo fazer a diferença.»

«Acontece que não gosto nem dos manifestantes do BLM, nem da polícia. Nenhum deles fala em meu nome.»

Buzz Osborne

BLM e polícia. «Adoro confundir as pessoas. [risos] Entendo ambas as partes do conflito, BLM e polícia. Acontece que não gosto nem dos manifestantes do BLM, nem da polícia. [risos] Nenhum deles fala em meu nome. Gostaria muito de acreditar que a polícia existe para defender os meus interesses enquanto cidadão, mas não acredito nisso. Também gostaria muito de acreditar que o pessoal do BLM faz falta e que estão cá para fazer o bem, mas não acredito nisso. A polícia é algo com que temos de viver, mas não gosto dela. Acho que os manifestantes da BLM têm o direito de se manifestar, mas não tenho de gostar disso. [risos] Não estou dividido, odeio-os todos. As pessoas interpretam que me oriento para um lado ou outro. Não. Para mim, são coisas triviais.»

Música e concertos ao vivo. «Sou um músico e tenho de me preocupar com a música, o meu trabalho é ser músico, foi esse o contrato que assinei. Temos planos em carteira para mais música e concertos, mas nada que não fique para 2022, provavelmente. Talvez os U2 possam dar um concerto no Texas. [risos] Talvez os Metallica possam ir dar um concerto à Islândia no seu jacto privado. [risos] Eu não posso! Vamos entrar em digressão, mas nunca antes de 2022, até por motivos de segurança. Se reparares, as pandemias do passado nunca demoraram menos do que dois anos. Não quer dizer que não consigamos tocar antes, mas é mesmo pouco provável. Já agora, onde é que se fala português sem ser em Portugal e no Brasil?»