Àquilo que se calhar já podemos considerar como pop-culture, o ano de 1999 está estritamente relacionado ao Bug Y2K, mas tirando o problema de... Iron Maiden, 1999: Dickinson e Smith regressam à Dama de Ferro

Àquilo que se calhar já podemos considerar como pop-culture, o ano de 1999 está estritamente relacionado ao Bug Y2K, mas tirando o problema de os relógios de metropolitanos e afins terem regressado a 1900 quando se passou de 31 de Dezembro de 1999 para 1 de Janeiro de 2000, há algo particular que o universo metal guarda no coração no que a ’99 diz respeito – nesse derradeiro ano do antigo milénio, Bruce Dickinson e Adrian Smith regressavam a Iron Maiden!

Nascido em 1957, Adrian Smith, vindo dos Urchin (banda de onde já conhecia Dave Murray) entrara na Dama de Ferro em 1980, participando na fase mais criativa dos Iron Maiden ao contribuir nos seus melhores álbuns – aqueles anos 80 foram verdadeiramente de ouro. De acordo com o livro “Iron Maiden: Run to the Hills, the Authorised Biography” (Mick Wall, 2004), Adrian, sem banda, estava a decidir o que fazer a seguir até que Harris e Murray lhe deram a hipótese de ingressar nos Iron Maiden. Depois de uma audição positiva, faria a sua estreia num programa de televisão alemão, começando a auxiliar na composição de temas como “Gangland”, “The Prisoner” e “22 Acacia Avenue”, faixas pertencentes ao álbum “The Number Of The Beast” (1982). Em 1990, Smith abandonava a banda de heavy metal por não estar satisfeito com o rumo que se estava a tomar em direcção a “No Prayer for the Dying” (1990), segundo descrito no livro “Dos Para Triunfar” (César Fuentes Rodríguez, 1997). Contribuindo ainda para a faixa “Hooks in You”, foi substituído por Janick Gers.

Nascido em 1958, Bruce Dickinson começava a deixar a sua pegada vocal na banda Samson desde 1979. Durante a segunda metade de 1981, foi a uma audição – os Iron Maiden tinham ficado sem Paul Di’Anno – e, como descrito no livro “Iron Maiden: Run to the Hills, the Authorised Biography” (Mick Wall, 2004), logo percebeu que esta era uma operação mais profissional do que aquela a que estava habituado em Samson. Após interpretar “Prowler”, “Sanctuary”, “Running Free” e “Remember Tomorrow”, Bruce ingressou imediatamente numa nova casa que o acolheria até 1993, um período colaborativo de pouco mais de 10 anos que introduziria uma veia teatral em Iron Maiden.

Se, por um lado, a era de “Powerslave” (1984), “Somewhere in Time” (1986) e “Seventh Son of a Seventh Son” (1988) representam anos mágicos para Iron Maiden, por outro, foi também por essa altura que a tensão começou a crescer. Por exemplo, segundo o livro de Mick Wall, Dickinson não teve qualquer crédito composicional no álbum de 1986, com Steve Harris (baixista e membro-fundador) a dizer que os seus contributos foram rejeitados por não serem bons o suficiente e que o colega «estava, provavelmente, mais esgotado do que qualquer um no fim da última digressão». De facto, a World Slavery Tour (que durou quase um ano, de Agosto de 1984 a Julho de 1985) tinha sido a maior e mais longa digressão com datas que não paravam de ser adicionadas até que Dickinson exigiu que tal cessasse ou então sairia do colectivo.

Com uma partida pouco pacífica – processo em que o vocalista criticou duramente Harris –, Bruce Dickinson concentrou-se na sua carreira a solo, e até 1999 lançou quatro dos seus seis álbuns, conjunto onde se inclui o fabuloso “The Chemical Wedding” (1998). O amigo Adrian Smith, que não obteve sucesso a solo, juntou-se ao empreendimento em 1997, participando assim nesse disco e no live “Scream For Me Brazil” (1999).

Com uma decadente década de 1990, tanto para os Maiden como para o heavy metal em geral, a banda britânica não tinha feito as melhores escolhas: por um lado lançava os piores discos da carreira e por outro não tinham, nem de perto, a melhor voz na pessoa de Blaze Bayley.

Assim, em 1999, Bruce e Adrian voltariam à eterna Dama de Ferro. Com os cordelinhos mexidos pelo amigo e agente de longa data Rob Smallwood, este, apesar de não ser músico, percebia muito bem para que poço os Iron Maiden se estavam a encaminhar e, portanto, falou com Harris sobre um hipotético regresso de Dickinson. Inicialmente apreensivos, ambos os artistas aceitaram encontrar-se em casa de Rob para uma reunião que culminou no tão aguardado retorno daquele que era, e é, um dos melhores vocalistas da história da música.

Todavia, Bruce só regressaria com Adrian, conforme referido pelo primeiro numa declaração aqui recuperada: «Quando [o Adrian] saiu da banda em 1990, achei que toda a gente ficou um bocado surpreendida sobre o quanto sentíamos a sua falta e, certamente, não acho que alguém tenha percebido quanto os fãs sentiriam a sua falta (…). Não reingressaria nos Iron Maiden se ele não estivesse na banda. Penso que não seria completo sem o Adrian, e agora é óptimo termos três guitarristas.»

Em 2000 era lançado “Brave New World”, um álbum que, contra muitas expectativas, é, passados largos anos, visto com um dos melhores de Iron Maiden. Numa recente entrevista à espanhola RockFM, Dickinson comentou: «Tudo o que precisava de saber era que não íamos voltar como uma espécie de reunião. Não queria voltar ao passado. Isto era sobre juntar-se uma banda que olhava para o futuro – para fazer um grande álbum e realmente reiniciar o ímpeto e direcção da banda. E o Steve [Harris] disse que era o que queria fazer, e eu fui do tipo ‘OK, vamos a isso’. E, claro, o primeiro álbum que saiu depois disso foi “Brave New World” – penso que é um dos melhores álbuns de Maiden que já fizemos.»

Épico e com alguns resquícios fantasiosos e criativos de “Somewhere in Time”, o disco de 2000 homenagearia o escritor Aldous Huxley com o seu título e faixa homónima, recuperava o folclore com “The Wicker Man” e dignificava a irmandade com “Blood Brothers”. No ano seguinte, em promoção ao álbum, actuariam para cerca de 250.000 pessoas no Rock In Rio – Brasil, originando um registo ao vivo que, lançado em 2002, é bem capaz de lutar por uma posição cimeira com o impactante “Live After Death” (1985).