Primeiro a gatinhar numa sala-de-estar, depois a dar os primeiros passos de bebé em Junho de 2020, a Gruesome Records nem... N. Miranda (Gruesome Records): «Foi um clique do momento enquanto olhava para a televisão durante mais um dia de confinamento»

Primeiro a gatinhar numa sala-de-estar, depois a dar os primeiros passos de bebé em Junho de 2020, a Gruesome Records nem foi à pré-escola e já quer correr pelo recreio ao lado dos matulões. Com menos de um ano de existência, a editora pensada e fundada por Nuno Miranda ganhou um carinho praticamente imediato no underground português e, mesmo com a crise sanitária e económica, o objectivo passa por não parar.
Empreendedor e com uma atitude que transparece leveza e positivismo, Nuno Miranda conta-nos como criou a Gruesome Records e o que tem na manga para 2021.

«Tenho de sentir que aquela banda e aquele lançamento em particular casa perfeitamente com a visão e filosofia da editora.»

Nuno Miranda

O que te levou a fundar a Gruesome Records e como foram as primeiras apalpadelas para que fosse uma realidade?
A Gruesome Records foi uma ideia que surgiu durante o confinamento e, oficialmente, arrancou a dia 1 de Junho do ano passado. Foi algo que me ocorreu inesperadamente e sem alguma vez ter pensado sequer sobre isso, foi um clique do momento enquanto olhava para a televisão durante mais um dia de confinamento.
Lembro-me de ter tido esse clique e mandado mensagem ao Paulo Rui (Redemptus, Besta) para partilhar isso com ele. Na verdade, a intenção era abrir uma loja de música e não uma editora, e, após uma troca de ideias com ele e com o Guilherme (OAK, Gaerea), decidi avançar com o projecto. Penso e acredito que se o feedback de ambos não tivesse sido tão positivo, não teria levado isto para a frente.
O próximo passo foi tentar, na verdade, entender como as coisas funcionavam. Eu sou apenas um fã de música sem entender muito bem da indústria em si e como tal precisava de encontrar a pessoa ideal para estar ao meu lado na editora. A escolha era fácil e estava ali no meu dia-a-dia. É aí que entra o Álvaro (Pitch Black, Dementia 13), que, para além de ser um amigo de longa data, é alguém que admiro como pessoa e músico. Era mais do que óbvio para mim que seria sem dúvida a pessoa ideal para lançar a Gruesome Records em conjunto.
Quando apresentámos oficialmente a editora no dia 27 de Agosto, já tínhamos basicamente tudo programado até ao final do ano. Estavam já agendados os lançamentos de Basalto, para a reedição do “Doença” a 16 de Outubro, o EP de estreia de Boulder a 20 de Novembro e o “Hateworlds” de Colosso para 15 de Janeiro. Sendo que, entretanto, fechámos com os suecos Iron Pike a edição de uma compilação com toda a discografia da banda e um tema bónus, que vai estar disponível no dia 26 de Fevereiro deste ano.

A pandemia rebentou com uma indústria em que se inclui bandas, editoras, imprensa, promotoras e técnicos. Sentiste impacto negativo na Gruesome Records ou ainda não tem um peso muito forte na tua vida pessoal para sofreres com o vírus na parte da editora?
Sinceramente, não sentimos muito. A editora é demasiado recente para ter sentido um impacto tão negativo assim e não vivo dela ou do que ela me dá. Não vou dizer que com concertos as bandas não tivessem mais espaço para promover os trabalhos e não se vendesse mais, mas, contudo, não nos podemos queixar.

Pelas tuas redes sociais, ficamos a saber que és um ávido coleccionador. Quão importante é para ti não só fazer uma colecção mas também ser um meio de distribuição? Mais: com a ascensão do digital – até já há editoras que só lançam digitalmente –, quão importante é um objecto físico como um CD, um vinil ou uma cassete?
Eu gosto de coleccionar música física e acho que o irei fazer sempre, desde que me seja possível. Pegar no álbum, abrir o celofane, colocar o CD a tocar no leitor ou até mesmo a agulha no vinil ou apenas ler as letras enquanto estás a ouvir a música, enquanto aprecias o artwork. Nada disto tens no digital.
Com a editora juntei, na verdade, o útil ao agradável. Conjuguei a minha dedicação à música com a possibilidade de trabalhar com músicos que admiro e poder também fazer algo mais pelo nosso panorama musical. Vamos sempre apostar e dar prioridade ao formato físico, mas não nos vamos esquecer, como é óbvio, do digital. Temos todos os lançamentos disponíveis no Bandcamp da editora para quem optar por esse formato ou mesmo nas lojas oficiais do Bandcamp das próprias bandas. No nosso canal de YouTube encontram, igualmente, alguns temas em stream para ouvirem.

O ano de 2021 começa para a Gruesome Records com, por exemplo, o novo álbum de Colosso. Sabemos que o projeto de Max Tomé tem Dirk Verbeuren (Megadeth) como baterista. Consideras que isso é bom currículo para a editora e que está ali um bocadinho de ti ou deixas essa parte dos louros apenas para Colosso?
Eu já era e sou fã de Colosso muito antes da editora existir. Aliás, conheço o Max há anos e tenho tudo da banda no que toca a lançamentos. Obviamente que quando surgiu a oportunidade de lançar o “Hateworlds” fiquei bastante contente por poder trabalhar com mais uma pessoa, que muito admiro como artista, que confia no trabalho que estávamos a desenvolver na Gruesome Records. Colosso é uma banda que tem um grande reconhecimento a nível nacional e internacional e também acabaria por ajudar a editora neste arranque. Mas tudo vem do trabalho e da luta do Max durante todos estes anos de banda, por isso os louros vão todos para ele.

Para quem ainda não conhece a Gruesome Records, que subgéneros do metal serão mais lançados e porquê?
Habitualmente, grande parte das editoras mais underground trabalham apenas um ou dois subgéneros no máximo. Isso não é negativo, é uma tendência normal e inteligente. No caso da Gruesome, sou fã de vários subgéneros, mas tenho as minhas preferências musicais e é pelo amor à música que comecei esta aventura. Como tal, focamo-nos em alguns subgéneros mas também sem nos prendermos a apenas uma ou duas sonoridades. Apesar de na comunicação pública da editora não gostarmos de mencionar o tipo de sons com o qual trabalhamos, podemos afirmar que andará à volta do doom, stoner, death metal, sludge e por aí fora. No entanto, não fechamos portas a outras sonoridades como o black ou o thrash metal. Independentemente disso, se não gostar também não vou editar. Seja o tipo de som que mais ouço ou não, tenho que reconhecer qualidade e tem de se enquadrar no imaginário da editora. Tenho de sentir que aquela banda e aquele lançamento em particular casa perfeitamente com a visão e filosofia da editora. Mas, acima de tudo, tem de ser um trabalho de qualidade.

Quais são os planos editoriais para 2021?
Para o arranque de 2021 já temos, como sabem, o novo álbum de Colosso e a compilação dos suecos Iron Pike. Ou seja, Janeiro e Fevereiro, respectivamente.
Aquilo que para já posso adiantar, e ainda sem poder citar nomes, é que 2021 vai ser forte em termos de lançamentos da Gruesome Records. Temos o calendário praticamente completo até Setembro. Estamos a finalizar detalhes para excelentes novos trabalhos com bandas nacionais, tal como outros com internacionais. Recebemos imensas propostas e contactos de bandas. Umas vezes são trabalhos que não se adequam ao que a editora procura, outras vezes são propostas que não conjugam com o nosso já fechado plano de lançamentos e outras que são autênticas surpresas e acabamos por trabalhar em conjunto e ajudamos a materializar esses projectos. Em média, desde que a editora arrancou, temos recebido três ou quatro propostas por semana, de todos os cantos do mundo, fora o que vamos ouvindo e conhecendo porque estamos sempre à procura de novos lançamentos e bandas que valham a pena. No campo da qualidade, seja em que parte do mundo for, não falta boa música. É preciso é procurar e trabalhar. Posso também adiantar que vamos ter algumas edições pela primeira vez em cassete.

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