O quarto álbum dos Children of Bodom, “Hate Crew Deathroll”, foi o salto da banda. Em 2015, Alexi Laiho sentou-se com... Children of Bodom “Hate Crew Deathroll”: a história do álbum

O quarto álbum dos Children of Bodom, “Hate Crew Deathroll”, foi o salto da banda. Em 2015, Alexi Laiho sentou-se com a Hammer para recordar a criação de um clássico do metal moderno.

«As pessoas andavam à procura de algo novo», disse o guitarrista e vocalista dos Children of Bodom, Alexi Laiho. «Estávamos tão habituados a bandas a tentarem copiar Dimmu Borgir ou In Flames ou o que quer que fosse, e de repente havia Children Of Bodom. E vamos ser frontais, é um pouco diferente. E as pessoas gostaram.»

O salto dos Children of Bodom é uma anomalia curiosa no curso da história do heavy metal no Séc. XXI. O padrão da época incluía várias tendências: o som metalcore de Massachusetts, o thrash revivalista, a cena ‘épica’ que atingiu o pico com “The Blackening” [dos Machine Head], a infinidade de bandas que tentavam soar a Isis ou Neurosis e acabavam a soar a uns paupérrimos Cult of Luna, e assim por diante. E a destacar-se na mudança sísmica da paisagem no ano seguinte ao colapso do nu-metal há um disco que não se encaixa num movimento, um disco que transformou uma pequena banda da Finlândia em super-estrelas do metal: “Hate Crew Deathroll”.

Em 2003, o metal extremo estava a regressar à consciência metal mais ampla. “Nihility”, de Decapitated, do ano anterior, estava a atrair um grupo de metaleiros jovens demais para terem visto Death ao vivo. Os Immortal revitalizavam o som do black metal norueguês com o completamente moderno mas totalmente intransigente “Sons of Northern Darkness”, os Dimmu Borgir estavam prestes a deixarem de ser a grande cena quando colocaram o black metal no radar de Hollywood com “Death Cult Armageddon” (e sem terem de esfaquear alguém no processo), e nomes como Blut Aus Nord, Deathspell Omega, Drudkh e Watain estavam na vanguarda de um ressurgimento criativo no underground.

Enquanto isso, as bandas de metalcore de Boston lembraram ao mundo que At the Gates tinham sido brilhantes – e que o metal podia ter melodia e extremidade, mas ainda assim ser acessível. A base foi lançada e o clima era ideal para uma banda que era cruel e rosnante, mas cativante como o caraças. Claro que a banda tinha de ser boa o suficiente, mas felizmente, os Children of Bodom destacaram-se exactamente no momento certo.

«Foi definitivamente o primeiro álbum em que estabelecemos o nosso próprio estilo», diz Alexi. «Tínhamos encontrado a nossa própria cena, o que somos. Mas também havia outros factores. Foi promovido de maneira diferente, mais promovido em alguns países, portanto isso também afecta muito.»

«E para nós, sendo uma pequena banda punk da Finlândia, foi o primeiro álbum que nos deu uma digressão na América do Norte, portanto é enorme», acrescenta o teclista Janne Wirman. «Acho que isso até te afecta se fores um fã na Europa. ‘Oh, agora estão em digressão pelos Estados Unidos?’ Torna-se uma coisa enorme. Acho que encontrámos o nosso estilo naquele álbum. Depois as coisas começaram a acontecer. Ainda era na época em que os álbuns se vendiam e as editoras estavam realmente impulsionar as coisas. Aconteceu na hora certa, termos encontrado o nosso estilo.»

As mudanças de estilo que surgiram com o quarto álbum – mais proeminentemente o abandono das pequenas versões metálicas de composições clássicas que enchiam os seus primeiros trabalhos – não foram intencionais. O que estavam a compor simplesmente não apresentava essas secções – com as novas músicas, a banda não sentiu a necessidade de inserir Beethoven artificialmente. «Nenhum de nós achou que se tinha de encontrar o nosso estilo», recorda Janne. «Simplesmente aconteceu. Começámos a escrever novas músicas, de repente as partes clássicas desapareceram, e pensámos: ‘Uau! Gostamos disto.’»

A banda teve sorte, já que essa fusão de identidade musical não resultou apenas em músicas mais cativantes e memoráveis como coincidiu com a experiência suficiente para transmitirem as suas ideias conforme pretendido. Tal não era algo que tinha sido uma viagem tranquila no passado.

«Nunca fiquei muito entusiasmado com o primeiro álbum», diz Janne. «Há algumas coisas, como não tocar com um clique e deixar um intervalo de 14 compassos e depois ter de tocar 14 compassos de teclado sem ideia de quando o baterista ia começar a seguir. Eu estava do tipo: ‘F*da-se!’»

Experiência pode ser o professor mais cruel, mas parece ter sido valioso. Os dois primeiros álbuns foram gravados com Anssi Kippo, um produtor muito jovem e quase tão inexperiente quanto os músicos que estava a gravar. Adicionar a ausência da tecnologia de gravação digital naquele período (a estreia deliciosamente louca “Something Wild” saiu em 1997) significava que a banda estava a usar fita para as primeiras gravações – algo que, junto com os problemas do passado (ao não usarem um clique, por exemplo), os ajudou em “Hate Crew Deathroll”.

«Foi importante como o c*ralho», diz Janne. «Pensei sobre isso mais tarde. Ter de tocar todas aquelas partes técnicas em fita para os primeiros álbuns… Se hoje eu fosse um miúdo com aquela idade, com a tecnologia de disco rígido que existe agora, seria menos músico. Porque não precisas de te preocupar em praticar tanto. Isso é algo que só percebi há poucos anos, quando estava a gravar algo – se não tivéssemos de tocar aquilo em fita nos três primeiros álbuns, não seríamos tão bons músicos quanto acho que somos agora.»

A banda voltou a trabalhar com Kippo em “Hate Crew Deathroll”, tendo trabalhado com Peter Tägtgren, na Suécia, no álbum anterior “Follow the Reaper” – e descobriu-se que o produtor também tinha aprendido com a experiência.

«Naquela altura, ele tinha construído um estúdio muito bom», recorda Janne. «Ele tinha uma cena muito profissional a acontecer. Ele estava empolgado com o nosso regresso, e queria muito mostrar o quanto tinha aprendido no mundo da música [desde o segundo álbum]. Toda a gente estava muito animada, toda a gente estava do tipo: ‘Queremos mesmo mostrar o que conseguimos fazer.’» «Toda a gente queria para fazer melhor», resume Alexi. «E fizemos. Isso também foi muito divertido.»

O álbum foi – e continua a ser – o melhor da banda. Trituração e esmagamento e ritmo alucinante misturados com refrãos memoráveis e grandes coros – completado pelos açoitamentos de teclado e guitarra. O single principal “Needled 24/7” (complementado com um vídeo brilhantemente terrível) surgiu e permaneceu no conhecimento de um público metal muito mais amplo do que uma banda tão agressiva normalmente esperaria nos anos antes de Lamb of God se tornarem enormes. Sucesso rápido e merecido foi o que se seguiu. Uma digressão como abertura para Dimmu Borgir nos Estados Unidos abriu várias portas, e os Children of Bodom aterravam firmemente – não que o tenham necessariamente percebido na época.

«Foi definitivamente alucinante», recorda Alexi. «Mas, novamente, as coisas aconteceram tão rápido – e não me refiro ao sucesso da noite para o dia, porque não é o caso, mas quando as coisas começaram a acontecer, tudo aconteceu tão rápido que realmente não tivemos tempo para nos sentarmos e observar a situação, o que estava a acontecer à nossa volta.»

Ajudou o facto de que isto aconteceu mesmo no final da era em que os discos eram capazes de vender em grande número durante a era pré-download. Além disso, a diluição da atenção que surgiu com os fãs a serem capazes de aceder a todo e qualquer nicho que lhes agradava ainda estava para vir. É possível que o que os Bodom fizeram com “Hate Crew…” nunca mais aconteça, com a piscina do metal a ser muito maior e as ondulações a chegarem menos longe e com menos impacto. Mas mesmo que aconteça, parece improvável que haja algo tão inesperado como a banda de Espoo que gostava de experimentar Bach e Mozart.

Consultar artigo original em inglês.