De Throbbing Gristle a Ministry, esta é a história da improvável ascensão do industrial. Ascensão das máquinas: como a música industrial tomou conta do mundo

De Throbbing Gristle a Ministry, esta é a história da improvável ascensão do industrial.

Ministry em 1988 (Foto: Brian Shanley)

Em 1988, o industrial estava no seu auge. Não apenas em termos de números de álbuns marcantes que foram lançados, mas na amplitude da visão englobada sob a sua bandeira. Como a emergente cena death metal da Florida, as bandas activas no final dos anos 1980 não estavam a trabalhar a partir de um modelo, mas estavam determinadas a abrirem novas facetas, cada uma com a sua própria visão do mundo inventiva e ferozmente articulada, mas complementar. Seja nas suas incarnações nos Estados Unidos ou na Europa, o industrial estava a captar o zeitgeist de uma forma que nenhum outro género musical conseguia, navegando por um terreno psicológico, social e político em que o fim da austeridade da Guerra Fria e a paranóia encontraram oportunidades e a havia a exigência de uma nova era tecnológica.

O ano de 1987 viu lançamentos inovadores de Laibach, The Young Gods, Nitzer Ebb, Einstürzende Neubauten, Skinny Puppy e muitos mais, e o ano seguinte aumentou ainda mais a aposta com uma série de álbuns que alterariam para sempre a cena industrial e o mundo underground. O homónimo mini-álbum de estreia de Godflesh canalizou vozes carregadas de dub, uma máquina de ritmos impiedosa e a claustrofobia urbana da nativa Birmingham, misturando uma sopa de ADN musical que nos tem sido dada como alimento desde então. Enquanto isso, os Skinny Puppy, de Vancouver, refinaram o seu próprio horror abjecto e penetrante no álbum “VIVIsectVI”, reescrevendo as regras do industrial para um código insondável, mas emocionante. Visualizando a humanidade como reduzida a uma disciplina de sobrevivência autossuficiente e obstinada, “Front by Front”, de Front 242, provou ser tão consumado que nenhuma banda desde então, incluindo a própria, chegou perto de replicar a sua potência imaculada e irresistível. Cada faixa, incluindo o inesquecível single “Headhunter”, parecia que estava a ser mecanicamente impressa no ADN.

Se o industrial no final dos anos 1980 era uma igreja ampla na sua forma mais potente como uma ideia a ser constantemente reinterpretada em vez de cegamente seguida, isso deve-se ao movimento ainda estar em diálogo com as suas raízes destemidas de vanguarda, especificamente por causa da banda que fez ascender o termo: Throbbing Gristle, da cidade de Hull.

Formados em 1975 e liderados por Genesis P-Orridge, o quarteto era tanto um modo de vida como um empreendimento musical, com a sua indução de terror e colagens de som ocultistas lançadas pela própria editora – a Industrial Records. Álbuns como o de estreia em 1977, “The Second Annual Report”, estavam determinados a descobrir, confrontar e compreender os recessos mais sombrios da experiência humana, desde o Holocausto a traumas físicos graves, passando pela indústria do sexo e o controlo social, tudo com várias técnicas experimentais, como o método cut-up do autor beatnik William Burroughs, em que os textos eram reorganizados para revelar significados ocultos que emergiam dele.

Para a guitarrista e co-vocalista Cosey Fanni Tutti, o uso do termo ‘industrial’ tinha um significado diferente daquele que passou a representar.

«Significava ser laborioso, disciplinado e dedicado ao que estávamos a fazer», explica. «Mas paralelamente a isso, também nos estávamos a divertir. Esse é o elemento que as pessoas tendem a não perceber. Havia maldade envolvida, ironia e uma pastiche de coisas diferentes, e tudo fazia parte da paleta de apresentação da vida – isto pode ser sério, mas também se devem considerar, e que é tão relevante agora, sistemas de controle e manipulação por pessoas no poder de forma subtil, sem que o percebas até ser tarde demais. Portanto, tivemos que desmontar tudo para examinar através de todos os meios possíveis.»

Para Cosey, industrial era uma abordagem aberta, baseada na necessidade de articular o seu ambiente da maneira mais honesta e reveladora possível.

«Tendíamos a seguir o nosso estado de espírito em vez de nos prendermos a um som», diz, «e, obviamente, as situações terríveis a nível social, político e cultural que estavam a acontecer influenciaram o nosso som mais do que apenas meter-se o ruído de um motor ou uma broca ou algo assim, que não é como defino música industrial. Tornou-se assim – duro e mais mecânico, se preferirem –, mas os sons mecânicos que usávamos eram inspirados pela nossa situação e pelo nosso ambiente para expressarem como nos sentíamos, porque era muito cru e poderoso ter aquela máquina a surgir como um som musical em vez de apenas um efeito sonoro».

É significativo que os Throbbing Gristle, junto dos seus contemporâneos proto-industriais Cabaret Voltaire e ClockDVA, sediados em Sheffield, vinham de cidades do norte, moldando o seu ambiente imediato em novas formas reveladoras, mas que também tinham a ver com a experiência real vivida.

«Crescer em Hull teve uma grande influência», diz Cosey. «Trabalhei em fábricas, então está-se sempre atento à música de fundo com o rádio ligado, e ao mesmo tempo tem-se aquele ritmo fantástico das máquinas que se estão a operar, e isso influenciou-nos de certeza. Acho que, em Sheffield, as fábricas metalúrgicas também terão sido uma influência. Mas com isso vem uma atitude de disciplina. Na fábrica em que trabalhei, se não fosses disciplinado na maneira como operavas as máquinas, podias perder a mão. Era tão simples quanto isso. Não há nada de académico nisso, é muito prático, e acho que é o que acontecia com muitas bandas naquela altura – éramos muito práticos a fazer as coisas. Não era elitista. Não era preciso um diploma para se fazer esse tipo de música, só tinhas que ter o desejo de o criar.»

O álbum industrial da classe de ’88 que mais se equiparou a Throbbing Gristle em termos de inovação, caos perturbador inspirado por Burroughs, imagens horríveis (a capa apresentava uma imagem distorcida de um cadáver queimado tirada de um documentário do Holocausto) e empreendimento individualista foi o disco pivotal de Ministry – “The Land of Rape and Honey”. O facto de ter sido lançado por uma grande editora, a Sire, e o agora lendário frontman Al Jourgensen ter sido contratado como um artista de synthpop um pouco mais voltado para o comercial, apenas tornou o seguinte “Twitch”, de 1986, um salto ainda mais desconcertante.

«“The Land of Rape and Honey”», diz Al, «foi um álbum marcante porque foi onde parámos de seguir a orientação das editoras, do pessoal de A&R e das vozes estabelecidas, e apenas dissemos: ‘Sabem que mais? Jogámos com as vossas regras durante um tempo, e isso não nos levou a lugar nenhum, excepto à indigestão ácida’».

Com injeção de combustível, beligerante, com loops, percussão electrónica e riffs de guitarra serrilhados, “…Rape and Honey” era um labirinto sónico de desorientação. Lançou a base para a cena industrial metal que estava para vir, mesmo que essa base fosse extremamente instável.

«Foi um álbum muito difícil de se fazer», recorda Al, «mas provavelmente também foi o álbum mais gratificante de que já fiz parte, no sentido de que a técnica de gravação saiu completamente dos carris. Basicamente, estávamos todos mocados e gravaram-se muitas ideias diferentes durante meses a fio sem uma agenda ou um fim à vista. Passei quatro meses com um gravador e juntei aquelas coisas todas. Pegava em coisas que estavam no mesmo BPM e juntava tudo. Era muito semelhante ao método cut-up do meu herói William Burroughs. Não sabíamos se ia funcionar, não sabíamos o que raio estávamos a fazer, mas decidimos ir em frente de qualquer maneira porque sabia bem».

Al tornou-se amigo de Genesis P-Orridge, e embora Throbbing Gristle lhe tenha causado impacto nos seus tempos pré-Ministry, assim como eles, teve de encontrar o próprio caminho para o seu epicentro industrial.

«Vendi-me antes de começar», ri, «enquanto o pessoal de Gristle começou puro. Estávamos na mesma sintonia, queríamos a mesma coisa, apenas tomámos caminhos diferentes para chegar lá».

«Existem muitas maneiras diferentes de interpretar o industrial», continua. «A minha maior influência foi “The Modern Dance”, dos [punks de Cleveland] Pere Ubu. Eles ainda usavam ruídos da multidão, samples, breaks e breakdowns dementes que eram completamente non-sequitur [N.d.T.: sem lógica] na música. Foi isso que realmente me deixou satisfeito. Nunca os ouvi serem chamados de banda industrial, mas, para mim, foi o mais industrial que se conseguiu.»

Antes do lançamento de “…Rape and Honey”, Al já tinha unido forças a Richard 23, de Front 242, para formar Revolting Cocks, e ajudaria a produzir o quinto álbum dos Skinny Puppy, “Rabies”, em 1989. Enquanto isso, editoras como a Wax Trax! Records, da sua cidade natal Chicago, estavam a providenciar centros criativos para a cena industrial – a polinização cruzada tornou tudo maior do que a soma das partes.

«Essa é a beleza da coisa», recorda Al. «Naquela altura, nunca houve superioridade. Os Cabaret Voltaire estavam na cidade, então pedimos que viessem ao estúdio para tocarmos e criámos [o projecto paralelo] Acid Horse. Havia um grande sentido de camaradagem, e é assim que as cenas surgem. Na verdade, foi um movimento, e as pessoas compartilharam as suas alegrias e inovações, independentemente dos pontos de referência. Mas o problema com o industrial é que era tão diverso que não conseguias rotulá-lo. É como o que os Throbbing Gristle disseram: era mais uma abordagem do que a própria música. ZZ Top usam sequenciadores e percussão electrónica – são considerados uma banda industrial? Claro que não. O que é industrial enquanto género? Ainda não sei…»

Consultar artigo original em inglês.