“Detroit Stories” é Alice Cooper no seu estado puro. Sarcástico, irreverente e introspetivo. Aos 73 anos, o mestre do shock rock... Alice Cooper “Detroit Series”

Editora: earMusic
Data de lançamento: 26.02.2021
Género: hard rock
Nota: 4/5

“Detroit Stories” é Alice Cooper no seu estado puro. Sarcástico, irreverente e introspetivo. Aos 73 anos, o mestre do shock rock continua a demonstrar uma lucidez musical intocável.

Certamente serão poucos aqueles que ainda não reconhecem Alice Cooper como uma figura lendária dentro do hard rock. Mas Alice sempre demonstrou uma revigorante longevidade ao longo de mais de 50 anos de carreira. E com uma abordagem reactiva às diferentes tendências musicais que foram surgindo durante essas cinco décadas, Alice soube sempre reinventar-se. Desde as fundações que delineou para o shock rock com “Love It to Death” (1971) ou “Welcome to My Nightmare” (1975), passando por uma abordagem mais pop em “From the Inside” (1978) até explorar o glam metal na trilogia “Constrictor” (1986), “Raise Your Fist and Yell” (1987) e “Trash” (1989).

Em “Detroit Stories”, Alice Cooper volta ao ponto de partida, isto é, à cidade de Detroit. Foi na mítica metrópole, imortalizada pelos Kiss como a eterna Cidade do Rock, que, em 1970, Alice e a sua banda se lançaram ao mundo com a ajuda de um emergente produtor de seu nome Bob Ezrin. Segundo Alice, «Detroit era o centro do heavy rock. Naquela altura, ias tocar ao Eastown e era Alice Cooper, Ted Nugent, The Stooges e The Who, por quatro dólares!»

“Detroit Stories” é, portanto, um álbum conceptual que procura trazer para a contemporaneidade um período em que Detroit se sobrepunha a cidades como Los Angeles, São Francisco ou Nova Iorque na oferta de um rock exponencialmente mais pesado e agressivo.

O álbum começa assim ao som de “Rock and Roll”, uma cover dos Velvet Underground, aqui com ligeiras alterações na letra e adaptada ao contexto de Detroit. Com uma textura bastante groovy, a faixa apoia-se num som de bateria reverberante, riffs de guitarra espessos e harmonias angelicais provenientes de um órgão Hammond. Haverá algo mais 70s do que isto? Já Alice encontra-se igual a si próprio. Sem uma grande projecção vocal, mas com um dos timbres mais distintos da história do rock, Cooper mantém aquela aspereza arranhada na sua voz que nos princípios dos anos 70 chocou muita gente. Escusado será dizer que o objectivo era mesmo esse.

Em “Our Love Will Change the World”, outra cover, desta vez do grupo de psych pop Outrageous Cherry, Alice faz uso de uma das sua melhores armas: a ironia. Com um titulo esperançoso, Alice defende de forma humorística que o mundo, no futuro, vai pertencer aos negacionistas e a todos aqueles que procuram viver como opositores de tudo, algo bastante vincado nos versos “We have very little respect for everything, We’ve got something against so much, We’re all pessimistic creeps, or so it seems, Our love will change the world, Into a strange place that you won’t recognise…”. Mas a faixa ganha outros contornos quando percepcionamos que a melodia apresenta uma textura de cariz infantil e que transmite uma certa sensação de alegria – algo deveras assustador, mas em todo o caso brilhante.

A crítica social mantém-se em “Social Debris”, desta vez já com uma moldura sonora carregada e densa a condizer com a mensagem. Mas, como já foi referido anteriormente, Alice não é um músico que se fecha a outras abordagens sonoras, e desta forma não foi propriamente uma surpresa quando “$1000 High Heel Shoes” se desenrolou numa malha funk extremamente dançável, com direito a uma secção de metais e a coros com um cheirinho a soul, ou não fosse Detroit a cidade da Motown. Já “Detroit City 2021”, uma adaptação da faixa presente no EP “Breadcrumbs”, presta homenagem aos eternos filhos de Detroit que levaram a sua música a todo o mundo – Iggy Pop, Bob Seger, Ted Nugent, Suzi Quatro e MC5 são os visados. “I Hate You” volta a trazer ao de cima a veia humorística de Alice, bem como toda a sua mestria enquanto letrista. Cantada na terceira pessoa, Cooper invoca as críticas populares de que era alvo no princípio da sua carreira: “I hate you, your spider eyes, A guillotine, oh, big surprise!, I hate your broken pointed nose, Your big fat mouth that you never close…”.

Mas Alice também sabe ser sério quando é preciso e “Hanging on by the Thread – Don’t Give Up” é prova disso. Com uma sonoridade negra e arrastada como que a condizer com o conteúdo lírico, Alice vai alternando entre o spoken-word e vocalizações cantadas numa chamada de atenção e de esperança para todos aqueles que estão a lidar com problemas mentais, sendo, que no final da faixa, Cooper faz o seu papel pedagógico ao indicar o número de telefone da linha de prevenção ao suicídio. A descarga emocional é grande e não deixa de ser interessante ouvir Alice no registo menos comum.

Mas “Detroit Stories” é Alice Cooper no seu estado puro. Sarcástico, irreverente e introspetivo. Aos 73 anos, o mestre do shock rock continua a demonstrar uma lucidez musical intocável. Sem cair em clichés, Alice continua a editar álbuns relevantes que certamente figurarão ao lado de clássicos como “Schools Out” ou “Billion Dollar Babies”.