Não há fome que não dê em fartura, e fartura foi o que a quinta edição do festival XXXapada Na Tromba proporcionou nos dias... XXXapada Na Tromba 2020 (17-18.01.2020, Lisboa)
Rectal Smegma (Foto: João Correia)

Não há fome que não dê em fartura, e fartura foi o que a quinta edição do festival XXXapada Na Tromba proporcionou nos dias 17 e 18 de Janeiro no RCA Club, em Lisboa, dedicando-se às vertentes mais extremas do underground, com o death metal e o grindcore e suas múltiplas ramificações em destaque. Já na edição passada, o evento contou com uma saudável deslocação de público, mas nesta tudo escalou depressa e com força, com bilhetes esgotados vários dias antes do festival e com visitas de fãs de pontos tão díspares como Rússia, Bulgária, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Espanha, França, República Checa, Holanda, Itália, Bélgica, Reino Unido, Alemanha e Suíça. Claro que a qualidade do cartaz, com os Malevolent Creation na proa, foi um dos motivos principais para tal, mas, bem-vistas as coisas, percebe-se facilmente que o XXXapada Na Tromba é um festival criado por fanáticos para fanáticos, relegando o sucesso comercial e ‘o dinheiro e apenas o dinheiro’ para o corredor do irrelevante.

O primeiro dia começou pouco depois das 18 horas com a actuação dos death/grinders alemães Diaroe e seguida pelo death metal técnico e brutal dos espanhóis MDMA, a que se seguiu ainda mais death metal brutal por parte dos ingleses Twitch Of The Deathnerve. Curiosamente, o festival dispõe de uma hora para pausa de jantar, um exemplo para qualquer outro festival por se tratar de claro interesse e respeito pelo público.

Após o repasto, presenciámos a melhor actuação do evento pela mão dos lisboetas Bleeding Display. Como começar? Há um conjunto de factores concretos e abstractos alheio à qualidade de uma banda – mas que pesa na qualidade da sua actuação – e parece-nos que os Bleeding Display gastaram todas as fichas terrenas e divinas nesta prestação, como se se tratasse do seu canto do cisne. Em cima do palco, o quinteto deu uma lição sobre anatomia e boas práticas ortopédicas, tanta e tão intensa foi a movimentação por parte de todos os membros. João Jacinto (guitarra) e Diogo Silva (baixo) pareciam o mesmo organismo em constante destorcimento entre si, ao passo que o vocalista Sérgio Afonso dominou o palco como um predador de duas toneladas. O som impossivelmente perfeito e a adesão e entrega do público foram tão só as cerejas em cima do bolo. Não voltaríamos a ver uma actuação remotamente semelhante durante o evento.

Bleeding Display (Foto: João Correia)

Seguiram-se os Acranius, quarteto alemão de slam death metal que fez abalar a estrutura do recinto com riffs enormes, para depois darem vez aos nossos Holocausto Canibal. Pouco há a dizer sobre a prestação dos nortenhos além de sólida, tanta é a experiência acumulada ao longo de 23 anos de carreira. Beneficiaram de bom som e, no final, inverteram-se os papéis e posições de D.P. (bateria) e R. Orca (voz). «Ainda temos cinco minutos para tocar, a ver se fazemos qualquer coisa com eles», anunciou Z.P. (baixo), divertido com o facto de o baterista ter «lesionado a pata».

Os londrinos Unfathomable Ruination agraciaram o estrado de madeira pouco depois, originando-se uma dose de carnificina auditiva rara, bem como a devida participação do público. Na estrada a promoverem “Enraged & Unbound”, o quinteto inglês de death metal técnico e brutal contou com muita gente à espera de os ver, o que ajudou a cimentar a prestação de luxo da banda. O som esteve um pouco mais alto do que deveria, mas nítido ainda assim. Elegemo-los como segundo melhor concerto em geral do dia.

Os galegos Nashgul apresentaram o seu grindcore logo depois, abrindo caminho para os checos Spasm, uma das grandes atracções do festival – afinal, estava toda a gente à espera para ver Radim (voz) e o seu diminuto mankini verde-alface. Uns chamam-lhes goregrind, outros party-grind, outros ainda apenas grindcore. A ideia central é sempre a mesma: diversão – coisa que os Spasm conseguiram proporcionar. O primeiro dia findou com o concerto dos nacionais RDB, que descarregaram a frustração da vida nas obras e a adoração de calhaus serranos numa sala ainda repleta de gente. Foi uma constante ao longo do primeiro dia, ainda que as bandas iniciais tenham tido menos público. A uma sexta-feira às 18 horas ainda se encontra muita gente a trabalhar, o que determinou um afluência menor que, no dia seguinte, não se verificaria.

Claro que, ao sábado, há mais energia e vontade por parte de todos. Os nacionais Cronaxia foram encarregues de recomeçar hostilidades por volta das 18 horas. Notou-se qualidade, mas a adição de membros ao vivo nos lugares em falta é essencial até por uma questão de prestação visual, mesmo que as pistas de bateria e baixo sejam da autoria de Rolando Barros e Alexandre Ribeiro, respectivamente (ambos dos Grog). Ainda assim, concerto muito forte e claramente bem preparado.

Os russos ByoNoise Generator foram a primeira surpresa do dia. Trata-se de um colectivo que consideramos praticar avant-garde extremo, com nuances bastante vívidas de Painkiller, Naked City e Boredoms, e que se enquadram facilmente neste festival. Se não chamam a atenção com os seus exercícios de scratching, então assim o fazem com o saxofone que tanto ameniza o grindcore/industrial/experimental/jazz da banda como o eleva a altos patamares ridiculamente agressivos. Ainda que não se trate de um conceito novo, foi o concerto mais outside the box do festival e deixaram-nos visivelmente impressionados pelo descompromisso e criatividade.

Os grindsters espanhóis Disturbance Project actuaram antes da pausa para jantar e, depois desta, foi a vez do party-grind dos Party Cannon, uma das bandas mais nomeadas em todo o festival. Horas depois do seu concerto, as bolas de praia ainda voavam no set dos grandes cabeças-de-cartaz do evento.

Analepsy (Foto: João Correia)

Quando os Analepsy subiram ao palco, o RCA encontrava-se repleto para os ver. Um dos expoentes máximos do metal extremo nacional dos últimos três anos, já com bastantes provas dadas lá fora, reuniram uma plateia de fãs, músicos de outras bandas e curiosos para assistirem à sua performance. Os reveses (ou acontecimentos, se preferirem ser menos fatalistas) têm atingido a banda com frequência nos últimos meses, mas, ainda assim, Diogo Santana (guitarra/voz), João Jacinto (baixo) e Tiago Correia (bateria) apresentaram-se nos seus postos para cumprir o seu slam/brutal death metal. Lamentavelmente, e após um excelente início com “Apocalyptic Premonition”, sucederam-se problemas técnicos, primeiro na forma de feedback extremo e, depois, com a inutilização de uma munição de palco. Isto fez com que a banda perdesse preciosos minutos do seu set, que foi positivo pela qualidade das músicas apresentadas e pela atitude profissional dos miúdos.

Os holandeses Rectal Smegma sucederam aos lisboetas e apresentaram uma setlist de grindgore doentio, mas também muito divertido e propenso à agitação no público, que aconteceu e que se fez sentir.

Por fim, cerca das 23:30, os death metallers norte-americanos Malevolent Creation entraram em palco perante um RCA simplesmente preenchido e sem espaço para alguém mais. Phill Fasciana (guitarra), criador da banda em 1986, é um dos responsáveis pelo aperfeiçoamento do death metal norte-americano com discos fundamentais como “The Ten Commandments”, “Stillborn” e “Retribution”, três dos maiores clássicos do género. Com o recente falecimento de Brett Hoffman, ex-vocalista dos naturais da Flórida, o futuro parecia incerto, mas Fasciana depressa tomou a decisão de continuar o legado dos Malevolent Creation. Ainda que a banda tivesse ignorado quase totalmente os seus três primeiros discos neste concerto, não foi por isso que a sua prestação foi menos brutal e plena de emoção. De facto, os Malevolent Creation apostaram essencialmente em álbuns mais tardios (incluindo “The 13th Beast”, de 2019), repletos de blast-beats e malhas que acompanharam o desenvolver do death metal. Em parte, pareceu-nos que adequaram o seu set ao festival em causa, mas sentimos a falta de clássicos como “Premature Burial” ou “Thou Shall Kill”. O som devidamente equilibrado e a vitalidade oferecida pelos novos membros da banda deram o mote para vagas de stage-diving, slam e crowd-surfing, algo que já acompanha os concertos do grupo desde os anos 1990. Infelizmente, tocaram apenas 45 minutos, ainda com vários temas em carteira incluídos no alinhamento, mas que por imposições de tempo não puderam debitar. Uma pena, de facto, mesmo porque o público se rendeu de corpo e alma aos velhos mestres.

Malevolent Creation (Foto: João Correia)

Quando pensávamos que seria impossível melhorar o ambiente e a noite, os alemães Cytotoxin decidiram contrariar-nos com um death metal brutal de elevado cariz técnico. Claro que o bidão que entrou em palco nos momentos iniciais encontrou o seu destino no meio do público, que o circundou durante o concerto.

Após, era tempo de Serrabulho,que fazem cada vez mais jus ao nome que envergam. Um concerto de Serrabulho é sempre uma mistura de muitas coisas, nenhuma das quais aconselhada a ofendidos, puritanos e posers – isso porque os Serrabulho são um dos expoentes máximos da trveness nacional, sempre muito sérios, mórbidos e graves, seja em palco, seja fora dele. Numa nota mais séria, já vimos imensos concertos de Serrabulho de norte a sul do país e, geralmente, apresentam sempre convidados distintos em palco. Ao contrário das bandas clássicas, que celebram os aniversários dos seus discos clássicos, os Serrabulho celebram convidados clássicos. Desta vez, a escolha foi mesmo clássica, e, para espanto de muita gente, António Freitas subiu a palco para interpretar “Sweet Grind O’Mine” em formato dueto. Não é que exista um minuto de um concerto de Serrabulho que não seja digno de nota, mas estes são raros.

Por fim, os alemães Kadaverficker tentaram desempenhar o seu som de marca, que se situa entre o death metal e o grindcore. Dizemos tentaram porque o estado de embriaguez dos elementos era de tal forma acentuado que não sabiam exactamente onde estavam, com quem, a fazer o quê ou por que é que estavam – apenas estavam e, mesmo assim, só de corpo. Prestação sem ponta de profissionalismo vinda de um grupo que já anda na estrada há 27 anos e que deveria respeitar um pouco mais a ainda considerável massa humana que fez questão de os ver.

O XXXapada Na Tromba V acabou depois das três da manhã, mas a noite de muitos dos festivaleiros e de algumas bandas e organização continuou até o sol raiar. A organização deve ser louvada por diversos motivos, sendo os principais a coragem, o risco, o sacrifício pessoal e financeiro, e, claro está, a vontade em continuar a oferecer um evento completamente alheado das normas das grandes e médias produções, sempre com o mesmo objectivo em mente: providenciar música essencialmente desconhecida das grandes massas a um público composto por fãs e curiosos. Que nunca lhes doam as mãos.