Numa sequela futurista de “Apex” (2017), para a novidade “Abyss”, os Unleash the Archers afinaram os arcos, afiaram a ponta da flecha e acertaram... Unleash the Archers: do ápice terreno ao abismo celestial
Foto: cortesia Napalm Records

Numa sequela futurista de “Apex” (2017), para a novidade “Abyss”, os Unleash the Archers afinaram os arcos, afiaram a ponta da flecha e acertaram em cheio no centro do alvo. Cada vez mais preponderantes no panorama heavy metal moderno mundial, os canadianos mostram-se mais diversificados e abundantes do que nunca, indo da NWOBHM ao death metal melódico e ao metal moderno com detalhes electrónicos.

Contextualmente, os fãs sabem que a história de “Apex” não terminou e que a Matriarch iria seguramente alcançar os seus almejos. «Sim, ela consegue o que queria», diz-nos a vocalista Brittney Slayes. «Em “Abyss” encontramo-la muito mais poderosa e muito mais furiosa do que era em “Apex”. O Immortal conseguiu, de alguma maneira, soltar-se das suas garras – há um confronto entre os dois neste disco em oposição à última vez, quando estavam a trabalhar mais em conjunto.» Porém, quando puseres os ouvidos neste disco, perceberás, até com a ajuda dos vídeos já lançados, que “Abyss” desenrola-se noutro tempo. Brittney confirma. «Seguimos para o futuro, e é um mundo diferente. É algo ao qual o Immortal está habituado, porque lhe acontece muito. Acorda, foi usado por alguém para que complete uma certa tarefa, volta a dormir e é acordado mil anos depois por alguém que o encontra e que precisa dele. Desta vez escrevi uma história que funcionasse em dois cenários diferentes. Queria que “Apex” fosse muito terreno, muito fantástico, e quis que “Abyss” fosse etéreo, celestial e influenciado pela ficção-científica. Como são os meus géneros favoritos, queria incorporá-los na história de forma a fazerem sentido. É por isso que quis inserir “Abyss” no espaço.»

Ao lerem-se as letras de Unleash the Archers ou mesmo vendo-se alguns vídeos que Brittney partilha a explicar os conceitos, não é difícil prever que se trata de uma nerd, que devora livros e filmes do fantástico e da ficção-científica. Não errámos. «Leio muito, sempre li. Desde que aprendi a ler, sempre tive o nariz num livro – é uma parte importante da minha vida e continua a ser um passatempo importante. Apesar de agora ter menos tempo, tento sempre uma hora aqui e ali quando posso. Era uma nerd e continuo a ser uma nerd. Adoro ficção-científica e fantasia, bandas-desenhadas, videojogos – isso tudo é uma grande fatia para quando escrevo. Nas histórias que invento, todo o conceito para “Apex” e “Abyss” foi muito inspirado nos meus filmes favoritos e bandas-desenhadas – um bocadinho aqui e ali, tudo junto, para criar uma história diferente e personagens com as quais espero que as pessoas se relacionem, que possam visualizar facilmente todas as tragédias e vilanias. É uma grande parte do que sou e de como escrevo música hoje em dia.»

Por mais que, por exemplo, “O Senhor dos Anéis”, de JRR Tolkien, tenha sido publicado em 1954, foi na viragem do milénio que o mundo ficou realmente a conhecer a Terra Média, os seus heróis e antagonistas, através dos filmes de Peter Jackson. Cerca de 20 anos depois, plataformas como a Netflix têm, de certa forma, revigorado filmes e séries de fantasia, algo ao qual os Unleash the Archers não estão alheios. «Acho que ajudamos as pessoas a escaparem do mundo real, como os filmes de fantasia e ficção-científica fazem», diz-nos Brittney. «Tentamos criar um mundo onde te possas perder, como Tolkien fez com “O Senhor dos Anéis”, dando-se muita profundidade e detalhe. Não é algo que está só na superfície, é algo que tens de escavar e aprender para não gostares apenas da música mas também do conteúdo. Temos muitos fãs que gostam de “Dungeons & Dragons” e tenho a certeza de que foram inspirados por “O Senhor dos Anéis” quando eram mais novos. Acho que isso anda de mão dada com o tipo de música que tocamos. Não é que eu escreva apenas para eles – eu sou uma deles! [risos]»

“Apex”, de 2017, já apresentava um sentido híbrido entre heavy, power e death metal, mas agora, com “Abyss”, os canadianos deram um passo de gigante em frente: nunca atraiçoando as bases, estão cientes do presente e do que ele contém em si, com muitas bandas contemporâneas a perderem o medo de incluir pop ou electro. “Abyss” é um pouco de tudo, mas com cabeça, tronco e membros, com rumo, indo do heavy metal ao hard rock tradicional, do death metal melódico ao black metal atmosférico, da pop ao clássico. «Não nos impomos limites», responde peremptoriamente. «Não dizemos que vamos fazer um álbum de power metal ou que vamos escrever um álbum de death metal melódico – nada disso. Gostamos de fazer o que nos surge no momento, aquilo que nos soa bem. Temos muitas influências aqui – folk metal, pop, black metal, djent, metal sinfónico, death metal à antiga. Está tudo ali, e trabalhámos arduamente em cada música para termos a certeza de que cada riff estava exactamente onde tinha de estar, que uma faixa flua perfeitamente para a próxima e que cada música esteja na posição que deve estar. É tudo integrado e pensamos sempre no que vem a seguir e no que já temos. Foi calculado, claro. Passámos muito tempo neste disco, especificamente devido a essa razão, porque queríamos ter a certeza de que se encaixava e que todas as peças, apesar de serem diferentes, soassem coesas.»

Será que o maníaco pelo black metal de Mayhem é capaz de desfrutar da veia pop dos Amaranthe? São mundos assim tão diferentes? Claro que são, mas é possível gostar-se de azedo e doce – não de forma conjunta, mas é possível delinear um equilíbrio entre os dias chuvosos e os solarengos. No meio disto, a reacção negativa faz parte do quotidiano dos Unleash the Archers, mas Brittney Slayes tem fé no que faz e na sua banda. «Esse é um medo que se tem com todos os discos, nunca sabes. Podes pôr o coração e a alma em algo e ninguém quer saber, ninguém vai ouvir, mas tens de escrever para ti mesmo, e se gostares, se tiveres orgulho nisso, no fim do dia é o que importa. Se puseres o teu coração nisso, consegues ouvi-lo, e se desfrutares de todo o processo de composição, isso emerge na música. Se estiveres emocialmente aplicado, então o ouvinte vai conseguir ouvir essa emoção. É mais escreveres um álbum de que sintas orgulho ao invés de escreveres para outros e ir ao encontro das expectativas dos outros. Gosto muito de black metal atmosférico, portanto quando o Andrew [Saunders, guitarra] veio com aquele riff [da faixa “Legacy”], ele foi do tipo: ‘Nunca fizemos nada disto antes, não sei se vai funcionar.’ E eu disse: ‘Vamos fazer com que funcione!’ [risos] Dissemos que íamos alienar pessoas com isto, mas acontece. Toda a gente tem a sua opinião.»

Inseridos no cartaz para o Vagos Metal Fest de 2020 que não aconteceu devido à pandemia mundial da COVID-19, os Unleash the Archers já estão a planear 2021, mas com cautelas. «Vou ser honesta: estou exausta [risos]», responde entre gargalhadas irónicas. «Sou daquelas pessoas que acha que se não tiveres expectativas, então não vais ter decepções. Por mais que queira que tudo se resolva – todos os festivais estão a ser reagendados para 2021, estamos a organizar tudo –, não ficarei surpreendida se a COVID contra-atacar e tivermos de adiar ou cancelar tudo. Vamos ter os olhos abertos, vamos anunciar se acharmos que é seguro fazê-lo. Vamos esperar pelo melhor, mas preparados para o pior.»

“Abyss” tem data de lançamento a 21 de Agosto de 2020 pela Napalm Records. Lê a review AQUI.