O ano de 2019 foi, talvez, o que mais bandas britânicas trouxe ao Under The Doom, o festival português que se foca no doom... Under The Doom 2019 (07-08.12.2019 – Lisboa)

O ano de 2019 foi, talvez, o que mais bandas britânicas trouxe ao Under The Doom, o festival português que se foca no doom metal mas que, a par deste género, aposta também noutras vertentes alternativas: dark rock, avantgarde, experimental, post metal, sludge.

Paradise Lost (Foto: João Correia)

07/12
Eram cerca de 18:30 quando os doomsters ingleses Petrichor iniciaram as festividades, seguidos uma hora depois pelos patrícios Consecration, que deram um concerto sólido de bom doom/death metal. Após, foi a vez dos nacionais Wells Valley, que lograram dar o segundo melhor concerto do dia. O trio lisboeta encontra-se em excelente forma após o lançamento de “Reconcile The Antinomy”. Chegam três pessoas para deitar uma casa abaixo, como os Wells Valley provaram ao longo de um set um pouco mais alargado devido ao cancelamento forçado do projecto escocês Saor, que seria uma das atracções maiores desta edição do festival. Apostados em fazer render o peixe, os Wells Valley apresentaram novos temas de “Reconcile The Antinomy”, mas o que mais marcou na actuação foi a sintonia entre banda e público, sempre a puxar uma pelo outro e vice-versa. O bom som (ainda que um tudo-nada alto de mais), a boa presença em palco e um disco novo de alta qualidade e inspiração foram os factores que nos levaram a eleger este como o segundo melhor concerto do primeiro dia. Seguiram-se-lhes os Daylight Dies, um dos nomes maiores do doom metal saído dos EUA. Se os Wells Valley deram o segundo melhor concerto do dia, os Daylight Dies deram mesmo o melhor. A última vez que a banda tocou em Portugal foi em 2011; logo, tínhamos expectativas elevadas para saudar o seu regresso. Não ficámos decepcionados. Não só a banda teve o melhor som do primeiro dia, como, ainda por cima, desfiou uma quantidade elevada de alguns dos maiores temas do quinteto, caso de “A Life Less Lived” ou “The Pale Approach”. Musicalmente irrepreensíveis, sofreram de muito desconhecimento por parte do público, que se encontrava na sua maioria presente para assistir a Alcest.

Alcest (Foto: João Correia)

Os parisienses subiram ao palco pouco antes da hora dos malditos, cerca das 23:50, e iniciaram a prestação com a já clássica “Kodama”, que apresentou os primeiros problemas de afinação. Porque já vimos Alcest noutros sítios e períodos horários, percebemos que a banda ganha uma mística redobrada de noite, muito devido à melancolia e carga emocional contida na sua música. Depois, num espaço exíguo como o RCA, tudo ganha outra aura mais rara de intimismo. Pela mesma razão acima referida, notámos que Neige finalmente decidiu começar a mexer-se em palco, algo que fez abundantemente desta vez. Ao longo do evento, tornou-se algo difícil ver a banda em cima do palco, tão exagerada foi a utilização de fumo e luzes demasiado escuras. Nos momentos em que víamos os elementos, notávamos a entrega musical da banda ao público; este, por sua vez, encontrava-se em estado vegetativo terminal, inerte. A pouca comunicação verbal da banda não auxiliou muito, mas, para quem queria apreciar o concerto, passou a ter uma melhor qualidade sonora após “Autre Temps”, fiel e dedicadamente executado. Para não variar, o tema final coube ao habitual “Délivrance”, durante o qual se começaram a ver algumas cabeças a mexer entre o público. Embora se tivesse pedido encore e entoado o nome do colectivo francês, foi mesmo o fim da celebração. Não tendo sido um concerto mau, apenas com algumas falhas de som e más escolhas da banda (a do fumo foi a mais gritante), já vimos os Alcest noutra forma e esperávamos tê-los visto mais evoluídos, a oferecerem algo mais, coisa que não sucedeu.

08/12
O segundo dia do festival decorreu na sala Lisboa Ao Vivo para dar as boas-vindas aos Paradise Lost, a grande atracção do festival para este ano. Uma vez mais, e por estranho que pareça, também estes britânicos não foram a melhor banda do dia.

Os nacionais Pântano abriram o espectáculo cerca das 17:30. Seguiram-se os Heavenwood e o profissionalismo acumulado de quase três décadas é inegável. Ficámos particularmente rendidos a “The Empress”, mas foi com a introdução de “Since The First Smile”, que coube ao poema “Annabel Lee”, de Edgar Alen Poe, que a actuação começou a ganhar um maior relevo. Já nãos nos lembrávamos do bem que sabe ouvir um dos maiores nomes mundiais do gothic metal e, nesta data, o bom som sorriu aos Heavenwood, o que só ajudou na ingrata tarefa de ombrear com os seus pares Paradise Lost. Na hora da despedida, o público, rendido, começou a bater palmas ao som da introdução de “Suicide Letters”, sendo que os Heavenwood foram a nossa escolha de terceira melhor banda da noite devido às condições globais que a banda apresentou. O dueto inglês Darkher sucedeu aos Heavenwood para nos recitar cânticos de devoção e melancolia, fazendo lembrar imenso alguns momentos de Chelsea Wolfe, mas mais sinistros e tétricos. A voz de Jayn Maiven cria toda uma aura fantasmagórica em seu redor, ao passo que o baterista Cristopher Smith evoca o doom metal de forma muito particular com as batidas fortes e secas que desfere nos timbalões. Agradáveis, sim, mas gostaríamos de os ver noutro tipo de evento, algo como o Músicas do Mundo, se tal fosse possível.

Depois, foi a vez dos Ardours, da nossa Mariangela Demurtas (Tristania). Os Ardours surpreenderam pela orelhudice em geral, bem como pelo som ligeiro e agradável que praticam. Depois, Mariangela consegue captar a atenção do público naturalmente devido a uma voz profissional e cativante. A ter em atenção, já que os Ardours têm o condão de agradar a vários tipos de fãs.

Disillusion (Foto: João Correia)

Logo após, a melhor banda do dia e do festival subiu ao palco – era tempo de ver os Disillusion. Os mestres alemães de metal avantgarde/progressivo deram um concerto perfeito em todos os sentidos, principalmente no que toca ao guitarrista/vocalista Andy Schmidt, sempre irreverente, sempre em movimento, como se fosse o último concerto da sua vida. Tema após tema, blast-beat após blast-beat, os Disillusion conseguiram granjear novos fãs de forma simples, mas eficaz. Pela primeira vez em Portugal e a promoverem “The Liberation” (2019), sentimos que eram praticamente desconhecidos do público português, mas deixaram uma marca forte com temas como “Back To Times Of Splendor” (melhor prestação do set) e “The Mountain” no encerramento. Por mais que quiséssemos, não estávamos preparados para os Disillusion, que foram tudo menos uma desilusão e que tiraram o tapete debaixo dos pés dos Paradise Lost.

Vimos Nick Holmes & Cia. em 2016 no VOA e ficámos decepcionados pela prestação muito abaixo da média. Ao fim de 18 actuações em Portugal, saímos de barriga cheia à 19.ª no Under The Doom 2019. Claro que não faltaram temas-chave, mesmo contando com pérolas mais recentes como “From The Gallows” (“Medusa”, 2017), mas clássicos maiores como “Hallowed Land” («Uma música de um álbum que gravámos em 1995, muito antes de muitos de vocês terem nascido», brincou Holmes) , “As I Die” ou “Embers Fire”, juntamente com um som cuidadosamente estudado e nítido, abrilhantaram a presença dos Paradise Lost perante uma sala e um balcão completamente preenchidos. Curiosamente, depará-mo-nos com um Nick Holmes mais comunicativo do que é normal, o que muito agradou ao público. A voz de Nick Holmes regressou aos tempos gloriosos, algo que foi evidenciado nos momentos mais guturais do concerto. No final, o destaque foi para “Say Just Words”, com um público extasiado e a repetir o refrão da música, como se fosse dele. Em parte, é. Com o próximo álbum quase a ver a luz do dia, só podemos desejar vida longa aos reis do doom/gothic metal que, com o concerto no Under The Doom 2019, deram uma das melhores prestações em solo nacional.