É uma obra verdadeiramente única, que combina, atravessa, refina e, por fim, redefine géneros. Incontornável para fãs tanto de Patton como de Vannier. Mike Patton + Jean-Claude Vannier “Corpse Flower”

Editora: Ipecac Recordings
Data de lançamento: 13.09.2019
Género: experimental / avant-garde
Nota: 4/5

A notícia de mais uma colaboração de Mike Patton com outros músicos de renome já não nos chega de surpresa. Já começa a ser praticamente hábito virmos a saber a um ritmo quase anual de outra aventura na qual o vocalista dos Faith No More está de novo envolvido. Depois de várias experiências com Fântomas, Peeping Tom, Tomahawk e Dead Cross, o anúncio muito recente do regresso da sua primeira banda, os Mr. Bungle, e findas (por agora) as aventuras com o músico de jazz avant-garde John Zorn, eis que chega agora a vez de uma nova colaboração entre Patton e o compositor francês Jean-Claude Vannier, que se manifesta no primeiro disco de longa-duração do duo, intitulado “Corpse Flower”.

Para quem não o conhece, Vannier é visto como um músico e compositor aclamado em França, sendo considerado um ícone da paisagem musical francesa dos anos 1970. A colaboração nasceu de uma admiração de Patton pela atenção ao detalhe de Vannier, tendo por isso manifestado interesse em trabalhar com o músico francês. Vannier, por sua via, afirmou que Mike Patton «fez a sua música acordar com a sua perspectiva e interpretações únicas» dos temas que lhe foi enviando ao longo dos últimos dois anos em que desenvolveu o trabalho nesta colaboração. 

“Corpse Flower” forma um compêndio de músicas de contornos avant-garde, que em momentos nos leva para um rock orquestrado e variadíssimo a nível de arranjos e instrumentação como nos casos de “Ballad CC3”, “Camion” e “Hungry Ghost”, músicas em que as guitarras cortantes de melodias por vezes esquizofrénicas e o piano de Vannier combinam com acordeões dissonantes, saxofones, sintetizadores e coros assombrados. “Yard Bull” e “On Top of The World” relembram-nos daqueles momentos em que os Faith No More faziam uma transição entre o seu modo de banda de funk/metal/rock progressivo para uma banda residente de música lounge que toca às 2h da manhã num bar qualquer de um beco americano refundido, enquanto “Cold Sun, Warm Beer” e “A Schoolgirl’s Day” não estão muito longe de algumas das experiências que Patton levou a cabo em Fantômas. Noutro registo, os temas “Chansons d’ Amour” e “Insolubles” mostram o outro lado mais romântico, introspectivo e melancólico de Vannier a vir ao de cima. 

Em “Corpse Flower”, Patton injecta loucura, dinamismo, acidez e humor no trabalho de Vannier, transfigurando o seu estilo de composição clássica e incorporando uma espécie de esquizofrenia vocal num lounge que se intersecta com sonoridades rock de contornos progressivos. É como que uma fusão do melhor trabalho que ambos os músicos já produziram, tanto a solo como no contexto de colaborações passadas, e que, em virtude disto, tem em si uma distinção que não é frequentemente aplicada a muitos discos: a de ser uma obra verdadeiramente única, que combina, atravessa, refina e, por fim, redefine géneros. Incontornável para fãs tanto de Patton como de Vannier.