Preso, alcoólico, pai, f*dido da cabeça, snifador de formigas, um lunático total – ah, e padrinho do metal. Eis a vida e os tempos... Ozzy Osbourne: a história da minha vida

Preso, alcoólico, pai, f*dido da cabeça, snifador de formigas, um lunático total – ah, e padrinho do metal. Eis a vida e os tempos conturbados de Ozzy Osbourne.

Foto: Martyn Goodacre

Quando criaram Ozzy Osbourne, não só meteram o molde no lixo como o esmagaram em pedaços, cimentaram os detritos resultantes e enterraram-o no fundo de um aterro secreto bem longe da civilização – tão inimitável é o homem que passou os últimos 50 anos a ser uma das estrelas mais famosas da música.

Faça-se uma lista de comportamentos adequados ao rock n’ roll, e Ozzy estará em tudo: drogas, bebida, sexo, prisões, experiências de quase-morte, o seu próprio reality show. Mas isso não faz total justiça ao facto de ser uma das maiores estrelas do rock que já caminhou no planeta, seja no desenhar o modelo do heavy metal com Black Sabbath ou em desafiar as expectativas de conquistar uma carreira a solo de enorme sucesso.

A sua lenda está garantida. Mas onde começou essa lenda? Metemo-nos numa máquina do tempo com o grande homem para voltarmos ao início e descobrir…

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Nasceste John Michael Osbourne, a 3 de Dezembro de 1948, em Birmingham. Na tua autobiografia, “I Am Ozzy”, dizes: «Eu era muito nervoso quando era criança e sempre tive medo da fatalidade iminente.»
Ainda é muito assim. Não sei porquê. Fui a terapeutas e psiquiatras para tentar chegar ao fundo disso. O medo era uma coisa grande para mim quando era miúdo. Ainda é – o meu medo do palco, a pensar que vou falhar e tudo o mais. Acordas e tens medo, mas não sabes do que tens medo. Alguém me disse uma vez: ‘Se construíres um muro em fundações fracas, não será muito seguro.’ E é isso que eu sou. Enquanto criança, corria pela rua, e, se tropeçasse numa pedra rachada, achava que algo mau iria acontecer. Acho que nasci com isso. Sempre me senti assim. Mas é aí que entra o álcool e as drogas, porque anulam esse sentimento.

Sofreste de bullying na escola?
Bem, também fiz a minha parte no bullying. O que me salvou o rabo foi o meu sentido de humor. As coisas doidas que eu costumava fazer. [O meu filho] Jack já me disse: ‘Pai, achas que as pessoas estão a rir de ti ou contigo?’ Eu disse: ‘Jack, desde que se estejam a rir, que se f*da.’

És disléxico. Se tivesses crescido hoje, numa altura em que podem detectar mais cedo coisas como dislexia, como é que achas que as coisas teriam corrido?
Não sei, porque todos os meus filhos são disléxicos e todos têm défice de atenção. No outro dia, o Jack estava na TV a saltar montanhas com uma corda – que c*ralho é aquilo? Portanto, isso não os deixou mais lentos. Não consigo responder a essa pergunta porque foi assim que foi.

Conheceste o Tony Iommi na escola, certo?
As pessoas dizem que ele costumava bater-me. Nunca o fez.

O Tony já tinha bigode naquela altura?
Não, mas o cão dele tinha.

Como era o Tony?
De vez em quando deixavam que ele levasse a sua guitarra eléctrica para a escola. Podíamos ouvi-lo a tocar músicas de Shadows no corredor. O que quer que as pessoas digam sobre eu e ele, não há ninguém que lhe chegue aos calcanhares no c*ralho da guitarra. Ele criou alguns dos riffs mais pesados de todos os tempos.

Quando deixaste a escola, tiveste uma sucessão de empregos. Acabaste por encontrar um que realmente gostavas: trabalhar num matadouro…
Não gostava por matar animais. Gostava porque, assim que terminasse a matança, podia ir para casa. Chegava às seis da manhã e, dependendo da quantidade de gado que tinha para matar, às vezes voltava para casa três ou quatro horas depois. Assim tinha o resto do dia. Isso era melhor do que trabalhar das nove às cinco num escritório. Quando terminava a matança, podia ir para casa e era disso que eu gostava. O dinheiro também era bom.

O trabalho no matadouro influenciou os teus relacionamentos futuros com animais e insectos? Morcegos, pombas, insectos e afins…
Não, mas as pessoas que comem carne deviam dar uma volta pelo matadouro para verem o que lá acontece. Para verem como um animal é abatido, como a garganta é cortada e como são esfolados e estripados e preparados para o mercado. Eu como carne. Ainda estou preparado para matar um animal por comida, se for preciso. Mas já não o faço. Adoro animais.

Foste preso por roubo…
Só fiz isso porque pensei que seria aceite no gangue local.

Quais são as tuas memórias do tempo atrás das grades?
Quando se é preso, isso fica na porra da memória. A merda de uma hora num desses lugares é longa o suficiente. Mas não fiquei muito tempo na prisão, apenas um mês.

Enquanto estavas na tua cela, odiaste o teu pai por se ter recusado a pagar a fiança?
Não, mas acho que fiquei decepcionado com ele. Não foi ele quem violou a lei, fui eu. Quando saí, ele disse-me: ‘Podia pagar a fiança, mas queria dar-te uma lição.’ Funcionou como o c*ralho porque eu não queria voltar para lá novamente.

Depois de saíres da prisão, decidiste que querias seguir uma carreira na música. O que te levou a essa decisão?
Quando ouvi The Beatles, eles apanharam-me logo. Pensei: ‘C*ralho, quero ser um Beatle,’ O meu pai comprou-me um sistema Vox PA e um microfone, e foi isso. Eu devia pagá-lo de volta, mas nunca paguei. Para ser sincero, gostaria de ter feito mais por ele. Ele morreu há anos, em Janeiro de 1977. Foi um momento muito triste para mim. Foi tudo mau durante um tempo. O meu pai morreu, fui despedido de Black Sabbath, comecei a sair com a Sharon, divorciei-me da minha primeira esposa Thelma, convidei o Randy Rhoads para tocar guitarra e morreu num acidente… Mas aguentei. Lembro-me que quando o Randy morreu, pensei: ‘Acabou, c*ralho.’ Mas a Sharon disse: ‘Não, não acabou, c*ralho, o Randy não ia querer que desistisses.’ Então, eu continuei.

Ainda pensas muito no Randy Rhoads?
Ele era uma pessoa realmente maravilhosa. Penso nele a toda a hora. Todos os anos, no aniversário da sua morte, envio sempre flores à sua família. Gardénias. O Randy adorava o cheiro das gardénias. Mas relembram-se sempre de funerais quando as cheiro.

Quando conheceste a Sharon, foi amor à primeira vista?
Ela era uma daquelas miúdas que, quando ria, costumava fazer-me sentir bem. Uma gargalhada grande, calorosa e louca. Uma coisa levou a outra e agora não consigo imaginar a vida sem ela. Conheci a Sharon em 1970, quando ela era recepcionista do pai, Don Arden. O Tony saiu com a Sharon durante um tempo. Não sei qual era a cena disso. Não é da minha conta.

Quando fizeste uma digressão com Mötley Crüe em 1984, foi uma surpresa descobrir uma banda que era mais maluca do que tu?
Lembro-me de dizer ao Doc McGhee, que era o agente deles na altura: ‘Doc, alguém vai morrer nesta digressão.’ Logo após o término da digressão, o Vince [Neil] espatifou o carro e matou o gajo [Razzle] de Hanoi Rocks. Era incrivelmente louco. Foi a digressão mais memorável de toda a minha carreira. De doidos. Todos os dias, algo em grande acontecia. As pessoas dizem-me: ‘Cheiraste mesmo uma linha de formigas?’ É muito possível, mas não me lembro, sabes?

Presumivelmente, também não te lembras de tentar estrangular a Sharon em 1989?
Não me lembro de muitas coisas, para ser sincero. O meu maior medo era acordar e ouvir alguém dizer: ‘Foi ele.’ Mas foi o que aconteceu depois de tentar estrangular a Sharon. Foi um dos maiores arrependimentos da minha vida. Amo-a, então por que é que eu iria querer magoá-la? Estava mesmo f*dido.

É difícil juntar as tuas memórias?
A minha memória de longo prazo não está tão má, mas, desde que tive o acidente de mota [em 2003], a minha memória de curto prazo está fragmentada. Subo para ir buscar alguma coisa e, quando lá chego, esqueci-me por que o fiz. Agora percebo por que é que as pessoas vivem em bungalows.

Passaste no teste de condução quando tinhas 60 anos. Tiveste aulas com a British School Of Motoring?
Não. [risos] Fiz o teste na América, não aqui [Inglaterra]. Consigo conduzir um automático, um manual, qualquer coisa. Não quero conduzir pelo mundo, mas quando se mora nas montanhas só quero conseguir ir às lojas.

Com que carro aprendeste a conduzir?
Aprendi com um Rolls Royce e passei no teste com um Range Rover.

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Consultar artigo original em inglês.