Um ano depois da estreia com “Slowly We Rot”, os Obituary lançavam “Cause of Death” em 1990 e diziam-se «a banda... Obituary: streaming de “Cause of Death” (Internet, 24.10.2020)
Foto: cortesia Petting Zoo Propaganda

Um ano depois da estreia com “Slowly We Rot”, os Obituary lançavam “Cause of Death” em 1990 e diziam-se «a banda mais pesada do mundo», uma questão controversa. Certo é que a banda da Florida se posicionou na linha da frente do metal extremo e 30 anos depois continua por cá. Ainda recentemente, e de acordo com o escrutínio dos leitores da Metal Hammer efectuado a meio do ano, os dois primeiros álbuns da banda marcaram posição entre os 15 melhores álbuns de death metal numa lista de 50.

A ’cause of death’ mais notada em 2020 tem sido aquela que todos sabemos. A famigerada pandemia fez com que este concerto comemorativo do 30º aniversário da histórica gravação só pudesse acontecer de forma virtual. No sábado passado, o grupo transmitiu via online o concerto em que voltou a interpretar o álbum na íntegra e em tempo real, à semelhança do que já havia feito na semana passada com o primeiro disco.

A plateia virtual começou a manifestar-se uma hora antes do início da transmissão, através das revelações elogiosas no chat room, sobre a importância dos Obituary e do álbum “Cause of Death” em particular. Num tom saudosista, os fãs iam descrevendo as circunstâncias da sua primeira vez, os momentos inesquecíveis, os temas preferidos, as bebidas alcoólicas ou outros ingredientes de uso recreativo escolhidos para a ocasião.

Com tudo a postos e à hora marcada, já se conheciam algumas das preferências da turba espalhada pelos quatro cantos do mundo entre comentários elogiosos, bocas chunga e outros extras de natureza variada – «shit on shingle and call me a Pringle», «I went out of Corona» e «kids sleeping, now we’re on», ou «Fuck Trump» e «Fuck USA» a requererem uma intervenção imediata do mediador, anunciando que os comentários políticos não teriam entrada no chat room. As novas tecnologias também são atreitas a vírus e problemas técnicos. Os 30 minutos que se seguiram foram penosos. A transmissão começou mal, com a prestação da banda afectada por gravíssimos problemas de som e imagem, o que levou a produção a anunciar «technical difficulties, welcome to the world of livestream». Sem mais explicações, ou sequer um esclarecimento sobre a continuidade ou não, ao fim de 20 minutos, os espectadores pagantes da módica quantia de 15 dólares começaram a desesperar. Progressivamente, os comentários foram subindo de tom, a partir do simpático «vou mas é buscar outra jola», do optimista «eles vão resolver isto» e do irónico «final countdown» dos minutos iniciais até descambar no indignado «quero o meu dinheiro de volta», no gozão «mais valia ter gasto o guito nas webcams» e no hilariante «a Internet apanhou Covid», para além da paródia com os novos títulos ”Pause of Death”, “Slowly We Wait” ou “Body Lag”!

Após esta meia-hora fez-se luz e som, e os Obituary disparam, ainda com alguma insegurança inicial, “Infected”, depois “Body Bag” e “Chopped in Half”, as primeiras três faixas de “Cause of Death” emaranhadas na avalanche provocada pelo groove demencial da batida de Donald Tardy na presença discreta do baixo de Terry Butler, com o peso dos riffs de Trevor Peres e o recorte dos solos uivantes de Kenny Andrews, a que se sobrepõe o grunhido moribundo característico das interpretações do carismático John Tardy. Mais confiantes após o terceiro tema, a banda pergunta se está tudo bem finalmente, e, perante uma resposta afirmativa, atiram-se à versão “Circle of Tyrants” dos Celtic Frost, cuja performance dá lugar a um minuto de silêncio em homenagem ao falecido Martin Ain e à exibição no ecrã de fotos do baixista da banda suíça. “Dying” prossegue conforme o alinhamento do álbum, e daqui em diante percebe-se uma grande melhoria na actuação da banda, agora muito mais desinibida e segura. Na audiência vai havendo quem diga que o James Murphy (autor dos leads de guitarra na gravação original) é que era, quem saia em defesa de Kenny Andrews e quem aponte o dedo ao guitarrista Trevor Peres por dar umas fífias, enquanto outros saúdam a importância do produtor do disco, o mago Scott Burns. Depois de “Find the Arise” e da faixa-título, assistimos a um jogo de luzes de belo efeito que vem realçar “Memories Remain” e, talvez, indicar o princípio do fim. Entretanto, fica à vista a t-shirt dos Madball que Don Tardy tem vestida, o que suscitou algumas bocas na audiência.

Após “Turned Inside Out”, quando se esperavam as despedidas, já no rescaldo de um grande concerto, eis que Don Tardy pergunta ao irmão se está disposto a fazer um encore, enquanto vai dizendo às câmaras, no gozo: «Como ele é pago à hora, não sei se podemos!» Foi então, quando menos se esperava, que fomos brindados com um encore composto por quatro temas: “Straight to Hell” do último álbum, “Threatening Skies” e “By the Light” de “Back From The Dead”, e a fechar “I’m in Pain” de “The End Complete”. O concerto teve um final feliz com o público a dar por bem empregue o seu dinheiro, a tecer rasgados elogios à produção (a mistura de som foi perfeita) e aos manos da família Tardy: «John Tardy has the best growl in death metal» e «Donald megagroove Tardy!»

No próximo dia 7 de Novembro há mais (com um alinhamento feito de clássicos e raridades), com uma nova transmissão. Para que não fiquem com uma ideia errada causada pelos problemas técnicos referidos no início, e possam ter a noção da jarda que isto foi, fica o parecer registado por um dos espectadores: «These guys are setting the bar high for any bands that follow doing live streams.»

Os bilhetes virtuais encontram-se disponíveis AQUI.